12 de fevereiro de 2014

Papiro do dia (435)

«Partilhei contigo ideias que há muito me interessavam. Portugal viera de uma ditadura, tinha décadas de atraso em relação ao mundo. Muitas questões não tinham provavelmente resposta nem precisavam dela, porque eram estimulantes em si próprias.
Havia por exemplo esta pergunta: até que ponto a arte contemporânea conseguia impor-se por si mesma, como objecto plástico, ou precisava de palavras como suporte? Isto é, até que ponto a arte se convertera em pretexto para um exercício fascinante de hermenêutica, que de algum modo ocupava uma parte do seu espaço?
Era fácil dizer que a verdadeira obra plástica não precisava de palavras, que seriam sempre redundantes, porque o que nela havia de essencial não era verbalizável. Pertencia a outro campo, visual. Por isso era plástica.»
No entanto isto não era inteiramente verdade. Podíamos dizer que por vezes as artes plásticas valiam não tanto por si mesmas mas pelo que suscitavam, e só podiam ser traduzidas em palavras: curiosamente o que sobre elas se dizia e escrevia podia ser muito mais interessante do que elas mesmas. Tornavam-se de algum modo veículo para outra coisa, que ficava para além delas. “Vampirizavam” secretamente as palavras? Talvez, mas isso podia ser estimulante, um novo ponto de partida. E por outro lado também a literatura – o campo da palavra – se alargava e invadia outros domínios, procurava novas formas de se tornar visível, parecia já não lhe bastar o mundo confinado e silencioso do livro. Estava-se numa época de viragem, em que as formas se contaminavam e tudo era possível: outras maneiras de contar, mostrar, dar a ver, partilhar, experimentar, tornar visível. O leitor-espectador-visitante passava a ter um papel cada vez maior. Era levado a entrar nas obras, a circular por dentro delas, a perder-se e encontrar-se nelas.»
[Teolinda Gersão, A cidade de Ulisses; Sextante, 3.ª ed. Outubro 2012;


obra plástica]

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