15 de fevereiro de 2014

(Papiro do dia (436)

" - Continuo a escrever?
Continue a viver, foi o que lhe apeteceu ter dito. Mas o que acabou por dizer foi:
- Isso é consigo, minha querida.Ainda era cedo quando ela se foi embora. Não lhe estava a apetecer voltar sozinho para a pequena casa, por isso deixou o livro e os apontamentos ao cuidado do empregado do hotel e foi dar um passeio junto ao rio, para montante. O carreiro levou-o para fora da cidade, e juntou-se à estrada que passava pela mina em actividade. O caminho tornou-se íngreme e pedregoso. Parou num cotovelo da estrada para descansar, olhar a cidade ao fundo, e  os picos das montanhas e a catarata ao alto.
A seus pés, os dentes-de-leão floriam em abundância, com pressa para depositar as suas sementes na estação curta. O ar cheirava a cera de abelha. Não sabia porquê. Cheirou as flores brancas de alguns arbustos, mas o seu perfume era outro.
Um colibri pairou sobre a sua cabeça, descreveu um triângulo no ar e afastou-se com um zumbido.
Ele prosseguiu, descansando a cada cotovelo. Perto da catarata, ouviu um ruído seco e um estrondo, e virou-se a tempo de ver rochas precipitarem-se pela face do penhasco. Seixo a pedra a calhau, as montanhas estavam a ruir. Sentou-se a ouvir a água e o vento enquanto as nuvens se acumularam. Grandes gotas de chuva caíram com brevidade, levadas no vento de maneira que ele podia vê-las cair até ao amontoado de pedregulhos lá em baixo, e subir na corrente de ar para um novo voo na sua direcção. Uma das gotas assentou-lhe na testa como um beijo.
No caminho de regresso, passou pelo cemitério. Fez os cálculos habituais junto às lápides. Mil oitocentos e oitenta e sete de 1916. Mil oitocentos e oitenta e sete de 1916. Mil oitocentos e setenta e nove de 1904. Mineiros que tinham morrido novos. Leu a inscrição de um monumento particularmente vistoso:

ERIGIDO PELO
SINDICATO DE MINEIROS 16 PARA 1
EM MEMÓRIA DE
JOHN BARTHELL
NASCIDO EM KOVJOKI WORA, FINLÂNDIA
FALECIDO EM SMUGGLER, COL.
13 DE JULHO DE 1901
AOS 27 ANOS DE IDADE

"No campo de batalha do mundo,
No bivaque desta vida,
Sê, não estulto gado apriscado,
Sê um herói na contenda!"

Pobre diabo, pensou ele, morrer numa mina e acabar enterrado à sombra de estrofes tão más. Riu-se, sentindo prazer no som das suas gargalhadas.
Chegado à cidade, tinha as pernas doridas e o sol tinha-se posto. Reouve o livro Rilke e parou depois na mercearia para comprar algo simples, algo que um poeta menor comesse. Feijões. Bolachas.
Enquanto os feijões aqueciam no fogão eléctrico, vasculhou o armário. Havia um elegante conjunto de fiança de produção industrial, mas ele encontrou o que procurava numa tigela feita à mão com o rebordo lascado. Segurou-a, sentindo nas suas mãos a forma das mãos que a moldaram.
Ao comer, pensou na escuridão húmida das minas. Pensou nos barrotes a estalar sob o peso da montanha. Buracos sem fundo que afinal terminavam. Desabamentos. Pó.
Era demasiado velho para morrer novo. Muito velho E também não achava que fosse conseguir escrever os seus dez versos de jeito. Sempre fora melhor a reconhecer o génio do que a expressá-lo.
Lavou a louça com água quente e passou-a na fria, sentindo nas mãos a diferença de temperatura. Despiu-se num dos quartos e foi então pôr-se diante do espelho da casa de banho. O seu corpo em nada se parecia com o tronco de Apolo no poema de Rilke. A sua pele branca estava flácida. As veias sobressaíam, azuladas, nos pulsos e nos tornozelos. Ao olhar para este corpo, outra pessoa teria desesperado. A pessoa que fora ontem, por exemplo."
[Bruce Holland Rogers, Pequenos mistérios; trad. Luís Rodrigues, Livros de Areia, Novembro 2007]

1 comentário:

J.S. R. disse...

http://amoromniavincitletters.blogspot.pt/