23 de Fevereiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Uma cor cravada na terra como uma flor do campo,
áspera e despreocupada.»
(Claudio Magris)

Nem sempre a lápis (263)




Passei pelos denominados lugares certos, antes ou depois da precisão do momento exacto; nunca lá estive. Testemunho a ausência, onde se curricula o vício da presença.

Papiro do dia (192)




«Uma vez, durante um congresso literário no museu judaico de Eisenstadt, a capital do Burgenland a poucos quilómetros de Viena, um rabino vienense, que participava na nossa discussão, perguntou-me com um vago tom de cautela: “Mas o senhor não é judeu, não é verdade?” Quase não acabara de lhe responder, dizendo-lhe que não o era de facto, e já o rabino se apressava a precisar, com as mãos entendidas para diante, como para desfazer qualquer eventual equívoco ou afastar uma preocupação minha: “Era só uma pergunta…”»
[Claudio Magris, Danúbio; trad. Miguel Serras Pereira, Quetzal, Março 2010]

21 de Fevereiro de 2012

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Os livros deveras maus são raros e um falhanço literário clamoroso é um caso anormal relativamente à aculturação estilística média, como o é um vistoso erro de ortografia no quadro de uma alfabetização generalizada.»
(Claudio Magris)

Nem sempre a lápis (262)

Vejo-nos sentados em universos paralelos: ele, em cima da esteira a meditar; eu, a observar na esplanada da falésia. Sinto que comunicamos enquanto me ausento; que me observa. A ansiedade encena a realidade, tranquiliza-a.

Papiro do dia (191)

«A cisão entre natureza e cultura produz o mal-estar nesta última. Na cultura alemã está pelo menos viva a consciência do mal-estar e a nostalgia messiânica da sua cura. A lírica de Eichendorff, com o murmurar dos seus bosques, e o pensamento utópico de Bloch recordam-nos a nossa mutilação; Hölderlin diz-nos que somos órfãos dos deuses e que sem essa consciência do exílio não pode haver sequer esperança de redenção. Mas a nossa cultura não vem do bosque de Eichendorff nem do mar de Melville; nasce antes da monótona fantasia de Sade, na qual – dizia Flaubert – não há nem uma verdadeira árvore nem um verdadeiro animal. A mundanidade social constitui o nosso único horizonte.
O mal-estar na civilização, soberbamente evocado por Freud, resulta para mais de uma contradição insanável. A civilização e a moral baseiam-se numa distinção necessária e dificilmente fundamentável, a distinção existente entre homens e animais. É impossível viver sem destruirmos a vida animal, pelo menos a dessas existências mínimas que escapam à nossa percepção, e é impossível reconhecermos aos animais direitos universais e invioláveis, considerarmos kantianamente cada animal mais como um fim do que como um meio; a fraternidade solidária pode incluir a Humanidade, mas detém-se nela. A impossibilidade referida torna inevitável a separação entre mundo humano e mundo natural e obriga a cultura, que se bate contra os sofrimentos infligidos aos homens, a construir o seu edifício sobre o sofrimento animal, tentando aliviá-lo mas resignando-se a não o poder eliminar. A irremediável dor dos animais, povo obscuro que acompanha como uma sombra a nossa existência, lança sobre esta última todo o peso do pecado original. A obra de Canetti, especialmente Massa e Poder, é a descoberta da treva que se acumula em nós com a morte dos seres vivos de que nos nutrimos.»
[Claudio Magris, Danúbio; trad. Miguel Serras Pereira, Quetzal, Março 2010;
nutrição] 

20 de Fevereiro de 2012

Colecção Ovelha Negra


«En un lejano país existió hace muchos años una Oveja negra. Fue fusilada. Un siglo después, el rebaño arrepentido le levantó una estatua ecuestre que quedó muy bien en el parque.
Así, en lo sucesivo, cada vez que aparecían ovejas negras eran rápidamente pasadas por las armas para que las futuras generaciones de ovejas comunes y corrientes pudieran ejercitarse también en la escultura.»
[para o Marcelo Teixeira] 

19 de Fevereiro de 2012

Breve interlúdio musical



Jorge Volpi

Porque a Net fornece um novo dia

(com necrologia dos Palop)

Às vezes, lá calha...

«Os nossos avós passaram por aqui a cavalo, diz uma legenda de fotografia, e nós varremos hoje estas ruas.»
(Claudio Magris)

Nem sempre a lápis (261)

Escrevo com frequência no computador, para onde traduzo as notas que gatafunho. Contrariando todas as sugestões dos colegas, o meu filho escolheu um notebook «para ele pensar que está a escrever à máquina». Escrevo no computador mas ler, só sei ler no papel. Nada de grave; é natural que tenha atingido o limite das minhas capacidades, destinadas a outras possibilidades.

Papiro do dia (190)

«No portal há uma dupla águia, que tem entre as garras a cabeça de um turco, e a pedra tumular de um chefe cigano. A grosseira pedra bárbara desta igreja presta justiça à altiva realeza nómada de um povo obscuro e desprezado, ausente da nossa consciência como da memória histórica em geral.
A grande poesia encontra-se muitas vezes impregnada por esta consciência da história natural do Homem: Lucrécio, Leopardi, os poetas líricos chineses que inserem o indivíduo, e a sua melancolia por causa de um amigo longínquo, na história milenar da paisagem na qual ele respira, no pano de fundo das montanhas e do lago. Também as grandes religiões levam em conta a matéria de que somos entretecidos; aquilo que as distingue das religiões postiças e supersticiosas, dizia Charleston, é o seu materialismo de boa cepa.»
[Claudio Magris, Danúbio; trad. Miguel Serras Pereira, Quetzal, Março 2010]

18 de Fevereiro de 2012

Enquanto assistem...