30 de novembro de 2011
29 de novembro de 2011
Porque a Net fornece um novo dia
«A Mulher Descalça é um desconcertante puzzle que desencadeia duas atitudes contrárias e uma certa tensão conflituosa:»
[best seller, mas ainda há alguns disponíveis por e-mail]
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Às vezes, lá calha...
«O sábio doente chamava-se Lao Tse; o outro era guarda da fronteira, um homem da espada: Elia de Mirceia.»
(Gonçalo M. Tavares)
Nem sempre a lápis (234)
Apanhei o autocarro à melhor hora, acompanhado pelo brilho do Sol, às quatro da tarde. Vou a casa esperar pela tradução, esperar pela apresentação da Teodolito, esperar pelo encontro com uma leitora, esperar pelo comboio para ir ao Porto, à espera que sejam horas de entrar na Gato Vadio, onde o livro vai ser apresentado. Entretanto, concluído o processo espero pelo julgamento no HP do Alvor. Dos bárbaros, não creio que haja mais a esperar.
Papiro do dia (154)
«Se no mundo a lei e as cidades pertenciam às caravanas que avançavam apesar do ladrar dos cães, para ele, Elia de Mirceia, último aprendiz do mestre Lao Tse, o que importava era imitar a leveza que este ameaçara.
- O verdadeiro mestre – dissera Lao Tse na última conversa antes de morrer – não é o que força a passagem, é o que a seduz. Quando o mestre passa os cães não ladram, admiram.
Toda a tempestade pára – tinha dito ainda Lao Tse – e toda a natureza se instala observando-nos como se fosse a irmã mais velha, a que nos vê, escondida, ansiosa por assistir às nossas proezas. Quando o mestre passa os cães não ladram – repetia. – Fácil é vencer quando se é mais forte; difícil é utilizar a força para os outros não perderem; mas só isto é justo.
Elia recordava aqueles dias; a memória fixa nas palavras invulgares que ouvira. No entanto, se bem que tentasse, no corpo algo resistia a aproximar-se do que Lao Tse lhe ensinara.
Gabava-se de ser diferente dos outros, mas não. Era, aliás, neste particular, semelhante ao moscardo da fábula de Esopo que em cima da roda de uma carroça em movimento exclamava, tão orgulhoso quanto cego:
- Que poeira eu levanto!
Também Elia pousava em algo bem mais poderoso que ele: as palavras de Lao Tse.
Durante anos tentou a sabedoria. Todas as noites lia parte do texto que o mestre lhe deixara. Porém, como Ulisses, o Astuto, que se amarrara ao mastro do barco para poder ouvir os segredos do mundo contados pelas sereias (evitando, assim, o risco de ser atraído para a morte certa), também Elia de Mirceia recusava entregar-se por completo; e se todas as noites ouvia os segredos do mestre, todas as noites ainda parte do seu corpo se agarrava a algo que marcara o seu passado: a ambição e a força, e ainda: a indiferença perante o invisível e o alto.
Deixara a crueldade que está em tantos, mas não conseguia ser o santo que tão poucos são.»
[Gonçalo M. Tavares, Histórias Falsas; BIIS, Setembro 2010;
28 de novembro de 2011
27 de novembro de 2011
Às vezes, lá calha...
«Nele, o curioso não eram apenas as ideias, mas o modo de se apresentar aos outros. Uma túnica longa, nobre, mas no fim, estranhamente, os pés descalços, como um vagabundo. É a única maneira de sentir o espírito dos lugares, dizia.»
(Gonçalo M. Tavares)
Nem sempre a lápis (233)
Quando vou ao tabaco, aproveito a demora de um café distraído com o movimento da rotunda do Largo 1.º de Maio, em Portimão. Entre a variedade da oferta, dividida por biombos publicitários e identificada pela cor das cadeiras, ocupo a Riviera; local tomado com Blues para uma puta velha. Um serrano deslocado, de safões e blusão de treino, pescadores de bicicleta e balde no guiador, dj’s ao volante de mesas de mistura de som, casais assarapantados com o trânsito da urbe; e peões, caminhantes e transeuntes com passo ao ritmo da vida deles, em princípio. Uns metros mais adiante, na tasca entre a Florista do Sapal e a Barbearia Popular, donas de casa jogam às cartas; separados pela janela. Encolhida a frequência turística, os leitores de imprensa ordinária ganham outra dimensão; apontam raças e credos, com malícia fundamentalista, cronometram a assiduidade rotulando de puta, as que fazem questão de o ser e as que não se nota que o sejam, com a cumplicidade alarve de um sorriso: «Lá vai ela outra vez.» Não sei se seria a esposa de algum deles; fui tratar do jantar.
Papiro do dia (153)
«A sua segunda vida começou depois de um encontro fortuito com Diógenes, o Cínico, conhecido filósofo que jamais se sentia intimidado por alguém. É contado por Píndaro a este propósito que chegando Alexandre – o Grande – à cidade do filósofo pediu que o levassem até ele pois dele conhecia as ideias e admirava-as. Com a sua imponente comitiva, Alexandre, o Grande, deparou com Diógenes sentado no chão, exercendo, absorto, a sua própria preguiça. Depois de uma pausa solene, e saindo do meio dos seus subservientes acompanhantes, Alexandre dirigiu-se a Diógenes e proclamou:
- Estás perante o grande Alexandre; o que lhe tens a dizer?
Diógenes, o filósofo, olhou para Alexandre, o Grande, e respondeu:
- Não se importa de se desviar um pouco. É que me está a tapar o sol. Ficou célebre a réplica de Diógenes. Não é único mas é raro: a filosofia afirmar a sua autoridade diante do poder.
(Só mais um acrescento, para concluir a história. Alexandre engoliu a afronta e calou-se. Mais: terá dito, umas horas depois, à sua comitiva:
- Se eu não fosse Alexandre, o Grande, queria ser Diógenes.
História admirável, de facto: o poder com inteligência para reconhecer a audácia da sabedoria; mesmo assim, ninguém maior que o espelho: a inalcançável vaidade da espada.)»
26 de novembro de 2011
25 de novembro de 2011
Nem sempre a lápis (232)
Aguada a promessa do Verão fingido para mandar um mergulho no 1.º de Novembro, acabei por arrumar as sandálias sem se despedirem da praia. Fiquei-me por uma esplanada a ver chover, entre comentários. O desleixo ou a oportunidade de importação de palmeiras egípcias, veio com o bónus do escaravelho faraónico, mas a salvo do predador natural – talvez para não serem apanhados a fazerem fitas no estrangeiro. E, dia após dia, o campo e os jardins do Algarve vão cedendo lugar a cemitérios com lápides de troncos, mumificados pela calada da manhã. (A esferográfica é um meio de expressão muito agressivo.)
Papiro do dia (152)
«O episódio é conhecido: contou-o Platão. Tales de Mileto, absorvido pelas ideias, olhava para o céu quando caiu a um poço. Uma criada Trácia, muito simples, quase analfabeta, presenciou a cena e desatou às gargalhadas.
Para Tales, pessimista, o tempo só trazia atributos negativos: magreza à saúde, fraqueza à força.
Paixão significava desilusão; e é o entusiasmo da noite que, mais tarde, de manhã, nos ficará ficar sem forças – pensava Tales.
Recusou então Lianor; não por sobranceria, mas por prudência. As mulheres guardam no corpo a serpente, sempre pensara.
Desespero em Lianor, claro, como em qualquer mulher rejeitada.
Quis morrer: atirou-se ao mar.
Tales interrompeu a sua tarefa de olhar para o que não é possível ser olhado, ouvira os gritos dos habitantes de Mileto:
Lianor desaparecera nas águas!
Tales correu para a praia. Olhou para o fundo:
- Este mar matou – disse. – Está calmo demais.
Indisciplinado por natureza, depois deste acontecimento, Tales transformou-se. Levantava-se agora, todas as manhãs, a hora certa.
O que fazia?
Ele, o filósofo, o sábio, pegava no barco, que enchera de arroz na véspera, e entrava no mar. À medida que avançava ia atirando arroz à água, como se esta fosse um ser com fome.
- Se os peixes e a água comerem o arroz, os peixes e a água esquecerão a carne de Lianor.
Assim pensava Tales, o sábio.
Durante vinte e cinco anos ele manteve o mar alimentado com arroz.
Jurava, no entanto, não o fazer por amor; era orgulhoso. Dizia:
- Sou investigador. Quero estudar a água.»
24 de novembro de 2011
23 de novembro de 2011
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