31 de março de 2013

Papiro do dia (399)

«Eu podia viver aqui para sempre, ou até morrer, pensou. Nada aconteceria, cada dia seria igual ao dia anterior, nada haveria que dizer. A ansiedade que o assaltava na estrada começava a deixá-lo. Por vezes, enquanto caminhava nem se dava conta se estava acordado ou a dormir. Compreendeu porque é que as pessoas se isolavam aqui e ali, se fechavam em quilómetros e quilómetros de silêncio; compreendeu o seu desejo de assegurarem aos filhos e aos netos, para todo o sempre, o privilégio deste grande silêncio. Pôs-se a pensar se não haveria, entre as vedações, cantos, ângulos, corredores esquecidos que não pertencessem a ninguém. Se fosse capaz de voar, poderia certificar-se.»
[J. M. Coetzee, A vida e o tempo de Michael K; trad. Ricardo Fernandes, Bibliotex Editor 2003]

1 comentário:

Anónima Singular disse...

Lindo.
Eu (só) começo agora a aprender a beleza do silêncio.