30 de julho de 2011

Papiro do dia (108)

«Poeta na Praça da Alegria:
Não sou infeliz. Não, não me quero matar.
Tenho até uma certa simpatia por esta vida
passada nos autocarros,
para cima e para baixo.
Gosto das minhas férias
em frente da televisão.
Adoro essas mulheres com ar banal
que entram em directo no canal.
Gosto desses homens com bigodes e pulseiras grossas.
Acredito nos milagres de Fátima
e no bacalhau com broa.
Gosto dessa gente toda.
Quero ser um deles.

Não, não guardo nenhum sentido escondido.
Estas palavras, aliás, podem ser encontradas
em todos os números da revista Caras.
A ordem às vezes muda.
Não quero que me façam nenhuma análise do poema.
Não, não escrevam teses, por favor.
Isto é apenas um croché
esquecido em cima do refrigerador.
Obrigado por terem vindo cá para me beijarem o anel.

Obrigado por procurarem a eternidade da raça.
Mas a poesia, mes chers, não salva, não brilha, só caça.»

[Golgona Anghel, Vim porque me pagavam; Mariposa Azual, Julho 2011]

6 comentários:

manuel disse...

Adoro essas mulheres com ar banal
que entram em directo no canal.
Gosto desses homens com bigodes e pulseiras grossas.
Acredito nos milagres de Fátima


E nos milagres da Fátima Lopes, mulher com ar banal que nos entra em directo pelo canal.

fallorca disse...

;)

IMO disse...

Conheci Anghel na obra que fez sobre o Al Berto. Mais do que o suficiente para me render.

Cristina Torrão disse...

Tiro-lhe o chapéu.

fallorca disse...

Usas, Cristina? :P

Cristina Torrão disse...

Não. Mas aqui punha um, dá mais trabalho transportar um tapete vermelho ;)

O Skármeta, lá em baixo, continua em forma.