10 de outubro de 2011

Nem sempre a lápis (217)

Um grupo cabo-verdiano, assistido por uma gazelinha nervosa, soube pôr um sorriso nos rostos e os corpos do Chiado a dançar; até os que eram colhidos à saída do metro. E eu devo ter em conta o dia da semana em que vou jantar à minha cantina, o Tagarro, para não me sentir encurralado por mesas corridas de antigos alunos e gineceus de origem variada e saudades de Verão. Acabou; vi hoje as primeiras meias e legs da época, que não vi na pretérita quinta-feira – 22 de Setembro, faço questão de memorizar –, quando fui buscar um caixote com 80 exemplares de A mulher descalça, à Cromotipo. Apesar do tamanho, vim para casa de táxi; não dei pela tarde a numerar e autenticar, um a um. Agrupados por retribuição e distribuída uma dezena por três livrarias, Porto incluído, afinal não andei muito longe da ideia inicial de uma tiragem de 50 para oferta; queria era ver o livro. Quando estudei os orçamentos com a Inês Mateus, fui sincero e reconsiderei que não tenho meia centena de destinatários – de amigos, simplifiquemos assim -, optando por imprimir mais trinta para vender e fazerem companhia a não sei quantos A cicatriz do ar. Deixei de contá-los; vão saindo. Mas fiquei surpreendido por reter as duas primeiras dezenas de A mulher descalça e ver como aumentou o documento intitulado “direcções”. Abeirei-me do balcão da Pó dos Livros, depositei um ao lado do rato, enquanto esperava que o Jaime atendesse uma cliente que desconhecia o método sms. Depois falámos de negócios: ele fez questão de desempenhar o papel de livreiro, à maneira; eu, o de autor que se edita. Chegámos a acordo; poupei um saco de papel à casa e arrumei a sms de Danúbio (Claudio Magris) no que levava comigo. Deixei-me ficar uma boa meia hora na última mesa da esplanada d’A Brasileira; sem lápis. Passei junto do poste e do quiosque em frente da Vista Alegre, hoje praça de táxis, onde bateram contra o 2CV em que morreu o meu irmão. Admiti a possibilidade de ter sido aí que a foto a caminhar com a Nico, tirada por um profissional da memória em Maio de 76, se tenha começado a embaciar. Admiti, deixando que o bairro me levasse até à Zé dos Bois para entregar a segunda dezena de livros na Letra Livre, e levantar mais um Longe do Mundo para juntar aos títulos a oferecer à Bárbara Mesquita. Encontrámo-nos em Porto Covo, depois de um livro me ter chamado a atenção na mão da Anka, no dia em que a esplanada do Marquês, o Chiado, o Petit Socco lá do lugar fecha e ficamos tresmalhados. Reposta a normalidade, quando a Bárbara se aproximou da mesa já sabia que eu escrevia e era tradutor; mas eu ainda desconhecia que pudesse ser alemã e agente literária. Mas não se pense que saí da Letra Livre de mãos a abanar com a minha escrita; vim com Walden (H. D. Thoreau), enquanto aguardo que o Carlos me ponha a Caminhar antes de ensinar o filho. «A Natureza não põe nenhuma questão, nem sequer responde ao que nós, mortais, perguntamos».

4 comentários:

Carlos Azevedo disse...

Finalmente –- é uma longa história... –-, lá consegui o meu exemplar, numerado (44) mas não autenticado (!) –- e à boleia trouxe também "a cicatriz do ar".

Abraço.

fallorca disse...

Não me diga que esqueci de autenticar exactamente esse :)
Mais um pormenor a acrescentar à «longa história» que me vai contar? :)
Abraço

Carlos Azevedo disse...

Sim, digo, mas não é relevante -- «às vezes, lá acontece...» :-)

«Longa história» foi um exagero meu. Ontem, depois de ler o seu comentário no blogue da Marta, passei pela Gato Vadio, mas o livro ainda não estava lá, e disseram-me que estaria hoje; hoje, passei por lá de tarde, mas o livro ainda não tinha chegado; finalmente, depois de jantar, lá consegui comprá-lo/s! :-)

O que (me) vale é que sou quase vizinho deles, eh eh eh

fallorca disse...

Se outros não houvesse, já temos motivo para conversa e laracha.
Uma expressão bem bonita :)