17 de janeiro de 2014

Nem sempre a lápis (479)

Memória descritiva
Poesia
Depois das fogueiras ancestrais, a poesia viajou de mão em mão, na garupa dos cavalos, entre os sabores e os cheiros.
Foi contrabandeada, moeda de troca, entre tribos do deserto, mendigos nómadas e a insónia das crianças.
Todas as tentativas para a aprisionarem em tábuas de argila, na trama colorida dos teares, na sinalética efémera dos curtumes, cederam à desertificação, à corrupção e à fome.
Isso é o que gostaria de acreditar, o que a cultura me ensinou ser de bom-tom e ficar bem em qualquer página.
Decorridos cinquenta anos, se tivesse de deitar contas à vida, digamos que a passei a escrever poemas.
Sem conseguir perceber onde fui apanhado pela poesia.
E sem me preocupar que o descaramento do balanço ou a indiferença pelo início, me exponham ao ostracismo e à desconfiança.
Recordo-me vagamente de uma tribo de ciganos à porta de casa, de um bibe a declamar numa sala vazia, de uma oliveira dilacerada pelo tempo e os canivetes.
Recordo-me também de um velho livro, com as capas roçadas pelo uso e as letras gastas por dedos titubeantes e fascinados.
Ao contrário do que talvez fosse de esperar, não agradeço nada à poesia, nem sinto que lhe deva o que quer que seja.
E se a nossa coexistência nem sempre foi pacífica, isso deve-se mais à atenção a que nos forçam, do que à ausência que nos exigimos.

4 comentários:

Panurgo disse...

Está muito bonito. Mas coexistência é uma palavra de merda, não é?

fallorca disse...

Se é

fallorca disse...

Diria mesmo, meu caro Panurgo; bonito, bonito, são os colhões a bater no pito

Panurgo disse...

Esse adágio foi dignificado num dos últimos discos do Quim Barreiros, O Brioche da Sofia. Grande disco.

Mas com esta cena post-rock que vai por aqui deu-me para ir ouvir os Mogwai.