7 de dezembro de 2011

Papiro do dia (158)

«No Hotel Chateau Mormont, em Sunset Boulevard,
ele tentou surripiar um quadro sem o mínimo valor,
com um choupo encalhado junto a uma poça seca, no deserto.

Apanharam-no com o quadro no parque de estacionamento,
quando o metia sobre o estrado da camioneta.

Quando lhe perguntaram porquê, ele disse-lhes que não tinha bem a certeza.
Disse-lhes que, ao ver a gravura, não lhe pôde resistir.

Disse-lhes que se viu a si mesmo dentro da gravura, deitado
de costas debaixo do choupo.

Disse que reconhecia a árvore de um velho sonho e
que o sonho se baseava numa árvore verdadeira da
sua infância, há muito tempo, de que tinha uma remota recordação.

Lembrava-se de estar deitado debaixo dessa árvore
e de olhar para cima através das folhas de prata.

Lembrava-se de vozes que vinham do meio dessas folhas, mas não conseguia
lembrar-se do que essas vozes diziam ou a quem pertenciam.

Explicou-lhes ainda que esperava que aquela gravura
fizesse regressar à memória tudo o que estava adormecido.

25/7/81
Hollywood, Ca.»
[Sam Shepard, Crónicas Americanas; trad. José Vieira de Lima, Difel, Janeiro 2002 (4.ª ed.)]

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