19 de dezembro de 2011

Papiro do dia (164)

«Concentrar-se no revólver. A sua alma é a bala; o seu corpo, o gatilho. O resto é apenas o gesto, simples como um jogo. Um jogo sem competição. Sem adversário. É preciso acreditar simplesmente no jogo, no seu próprio jogo. E pensar apenas no gesto. Em mais nada. Nem na verdade do jogo nem na sua presunção. Tudo o que há a fazer é executá-lo bem, respeitar as suas regras. E não fazer batota.
Agora é preciso preparar a bala, pôr de novo a arma entre os olhos.
É pesado, este revólver.
É a sua mão que enfraquece.
Tem sede.
Também não se deve pensar na água. Devemos dizer-nos que é um jogo e que quando ele acabar levantamo-nos e bebemos água.
Fechamos os olhos.
E disparamos.»
[Atiq Rahimi, Maldito Seja Dostoiévski; trad. Carlos Correia Monteiro de Oliveira, Teodolito, Setembro 2011;
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