15 de setembro de 2013

Papiro do dia (433)

«À luz dourada do entardecer, no abandono do porto onde apenas passavam algumas gaivotas, com o rumor leve do vento que soprava nos aprestos do navio, e talvez também por causa daquela longa espera ao sol, como outrora quando corria pelos campos, o navio tinha adquirido algo de mágico, com os seus altos mastros inclinados, as suas vergas prisioneiras do entrelaçamento dos cordames, a flecha do gurupés semelhante a um esporão. Na coberta brilhante, a cadeira vazia colocada em frente da roda do leme causava uma impressão de estranheza ainda maior. Não era uma cadeira de navio: era antes de escritório, em madeira torneada, como as que via todos os dias na W. W. West! E estava ali, à popa do berço, deslustrada pelo salpico das ondas, ostentando a marca das viagens através do oceano!
A sedução era demasiado forte. Dum salto, ultrapassei a prancha que servia de escotilha, encontrei-me no convés do Zeta. Caminhei até à cadeira e sentei-me nela, à espera, diante da grande roda de madeira do leme. Estava de tal modo encantado pela magia do navio, na solidão do porto, e pela luz do sol-poente, que não dei pela chegada do capitão. Sem dar sinais de estar zangado, veio até mim, olhou-me com curiosidade e disse-me com ar esquisito, ao mesmo tempo sério e irónico:
“Então, cavalheiro, quando partimos?”»
[J. M. G. Le Clézio, O caçador de tesouros; trad. Ernesto Sampaio, Assírio & Alvim,  Abril 1994;
a espera]

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