14 de janeiro de 2011

Papiro do dia (24)

«Havia, sem dúvida, a sensação de luta por um espaço. O património material, e também o nome de família, era motivo de uma repulsa que apenas era capaz de adiar um conflito explícito. Quem tinha mais direito de usar o nome da família? Eis a questão mais relevante. Porque aqui não havia a possibilidade de divisão: um nome não era um terreno, que uma régua mais ou menos bem intencionada possa dividir, mantendo dois lados minimamente satisfeitos. Um nome não se pode dividir.»
[Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica, Caminho, Outubro 2007]

12 de janeiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

Nem sempre a lápis (121)

Chego a casa e ponho-me à vontade; arrumo a prótese, calço as babuchas, olho para o saco com vinte e três livros que trouxe; dois ou três idos daqui. Como não deu para ir ao peixe ao mercado e fazer uma fritada com arroz de tomate, quase trezentos quilómetros depois, tenho uma sopa de nabiça ao lume, para o jantar. Sou um gajo solitário; prezo muito, e cultivo ainda mais, a minha secreta solidão. À minha esquerda, Alcácer refulgia ao Sol; do outro lado, só retalhos de verde conseguiam iluminar o céu plúmbeo da margem sul.
«No canto superior direito, / o índice dos teus dedos, / a tua sombra em tantas páginas.» (Margarida Ferra)

Papiro do dia (23)

«Só de olhos fechados compreendíamos a escuridão dos olhos
o comprimento azulado dos homens que partiam
fabricantes de janelas de tecidos de ruas
com cheiro de peixes vivos.
Era um linguajar mitológico: cada fonema solar
glorificando a cegueira uma morte igual à morte –
os autos das barcas que naquela tarde.

Avistei a boca ao entardecer.

A língua não vinha nos mapas, mas no palato agrupavam-se diversas constelações

e pertencia-lhe a aventura dos meus dedos.

Não havia notícias de outros povos

nem sequer uma mácula de cerejas.

Plantei o primeiro seio

a que chamámos macieira

e abandonei o ventre

à generosidade vegetal.

Nessa noite dormimos por dentro e por fora

do mundo.»

[Catarina Nunes de Almeida, A Metamorfose das Plantas dos Pés, Deriva, Porto, Maio 2008]

10 de janeiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia...

«La pureza de los seres imaginarios, creados a partir de la memoria identitaria de la tierra por medio del copal quedaría en breves instantes reducida a cenizas si empleásemos el ocote. Creación y desaparición, es la esencia misma del lenguaje, la entrada a la caverna literaria.»

Às vezes, lá calha...

«Sentimos nostalgia de uma linguagem mais primitiva do que a nossa. Os antepassados falam de uma época em que as palavras se estendiam com a serenidade da planície.»
[saído daqui, para ali]

Nem sempre a lápis (120)

Venham dias de Sol – chuva já basta e é de sequeiro – que, lá mais para o fim do mês, gostava de vir cá abaixo ver brotar os rebentos da figueira sem necessidade de me deslocar, desatento, à Avenida da República; deixemo-la sossegada. Em Carnaxide não há figueiras, que eu saiba. Sorte que não calhou ao limoeiro, o sossego; o crescimento pô-lo em conflito com toda a espécie de fios que (para mim) têm o condão de electrocutar o olhar, a mais simples e despretensiosa fotografia; para mais tarde, confirmar. Não faço a menor ideia onde possa estar a foto que tirei à majestosa árvore na pequena colina em frente, e que achei por bem chamar castanheiro. Era o tempo em que ainda precisava da revelação no papel – e, neste caso, a cores –, onde tive a oportunidade de ver o que para trás ficou escrito.

Papiro do dia (22)

«Todos os anos ofereço pelo menos cinquenta exemplares aos meus alunos, mas não consigo deixar de acrescentar uma nova estante, outra fila dupla; os livros avançam pela casa, silenciosos, inocentes. Não consigo detê-los.
Amiúde é mais difícil desfazermo-nos de um livro do que obtê-lo. Ligam-se a nós num pacto de necessidade e de esquecimento, como se fossem testemunhas de um momento das nossas vidas ao qual não regressaremos. Mas enquanto aí permanecerem, presumimos tê-los juntado. Vi que muita gente coloca a data, o dia, o mês e o ano da leitura; traçam um discreto calendário. Outros escrevem o seu nome na primeira página, antes de os emprestarem, anotam numa agenda o destinatário e acrescentam-lhe a data. Vi volumes carimbados como os das bibliotecas públicas ou com um delicado cartão do proprietário no seu interior. Ninguém quer extraviar um livro. Preferimos perder um anel, um relógio, o chapéu-de-chuva, do que o livro cujas páginas não mais leremos mas que conservam, na sonoridade do seu título, uma antiga e talvez perdida emoção.»
[Carlos María Domínguez, A Casa de Papel; trad. Henrique Tavares e Castro, ASA, (2.ª ed.) Maio 2010;

9 de janeiro de 2011

9 de Janeiro de 1955

esta é a cabra que corre na superfície do sonho
– ligeira, marítima –
o arco que lança o Vento,
um corno em cada olho,
porque não cabes nos horóscopos das minhas mãos,
os cascos batem-me com alegria no peito,
no tropel ígneo do olhar –
tu és a cabra, a terra para as aves virem beber

8 de janeiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Entre ele, Lenz, e a peça de caça, ainda viva, havia uma negociação prévia: ele recusava-se a matar um único animal nos primeiros minutos. Havia a exigência de habituação, um respeito em relação a um espaço que se invade. Aquela não era a sua casa.»

Nem sempre a lápis (119)

Passei uns dias no Monte Alto, em casa da Nico, sem nostalgias nem mágoas; é outra casa, a Sul, em Asilah também chove. Escrevo à mesa que mandei fazer para o atelier, ainda convicto de que acertaria uma, entre tantas aldrabices feitas durante as obras; mas até o desenho foi desrespeitado e as pranchas casadas do tampo substituídas pela fiabilidade do pinho colado, informaram-me com a criança nos braços e a factura na mão. Durante os cinco anos que o ocupei, soube sempre como este espaço, tão desejado e ponderado, nunca conseguiu ser intérprete do que procurava e persigo. Viria a encontrá-lo na casa onde vivo, no meu retiro, e no Pátio de La Luna, em Asilah, o ano passado. Quando cheguei três anos depois, fui recebido pela azáfama das limpezas de uma casa de campo ao fim-de-semana e, um pouco mais tarde e sem o esperar, pela elegância e a imponência de brincar do moliceiro, no parapeito da janela. A mesa, esta mesa, estava ocupada com livros retirados de caixotes que acabei por não levar e poucos irei levar. Apercebi-me de que, assim como repeti livros desde que voltei a viver em Carnaxide, não estou para repetir os que (ainda) não encontrei e fico mais descansado sabendo que estão aqui, os que trouxe. Olho lá para fora, bem me apetecia ler Ruy Duarte de Carvalho, procurar pastores banidos pelos muros dos novos proprietários do que era campo de pasto para o olhar. Acendo a salamandra, sentado num sofá que era de Carnaxide; olho para os quadros, meus e de outros, para a velha cadeira de tabua ocupada pelo casal que resta da matilha, para os livros nas prateleiras, olho para a cor com que a Nico iluminou um espaço sombrio por onde passei e sinto-me bem. É diferente; vai saber melhor chegar a casa.

Papiro do dia (21)

«Meti-o dentro do envelope, guardei-o na minha pasta e limpei o pó da secretária com o cuidado de um ladrão.
Poisei o livro no atril de uma mesa do meu gabinete e confesso que, durante algumas noites, olhei para ele com intrigada ansiedade. Talvez porque o aspirador de Alice não deixava uma grama de pó nas estantes mais altas da minha biblioteca, quanto mais na carpete ou em qualquer das mesas, o exemplar desequilibrava o quarto como um vagabundo numa festa do palácio imperial. A edição pertencia à Emecé, de Buenos Aires, e fora impressa em Novembro de 1946. Com algum trabalho pude averiguar que fazia parte da colecção «A Porta de Marfim», dirigida por Borges e Bioy Casares. Sob a cal ou o cimento ainda se podia entrever o desenho de um barco e daquilo que pareciam ser uns peixes, embora não tivesse a certeza.
Nos dias seguintes, Alice pôs uma flanela debaixo do atril para evitar que o pó sujasse o vidro e mudava-a de manhã com aquela muda discrição que, desde o seu primeiro dia de trabalho, tinha conquistado a minha inteira confiança.»
[Carlos María Domínguez, A Casa de Papel; trad. Henrique Tavares e Castro, ASA, (2.ª ed.) Maio 2010]

6 de janeiro de 2011