16 de março de 2011

Porque a Net fornece um novo dia

«Há poesia em tudo – na terra e no mar, nos lagos e nas margens dos rios. Há-a também na cidade – não o neguemos – facto evidente para mim enquanto aqui estou sentado: há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro.»

Às vezes, lá calha...

«Aun sabiendo que sólo son sombras insignificantes, experimentamos el sentimiento de que el aire en esos lugares encierra una espesura de silencio, que en esa oscuridad reina una serenidad eternamente inalterable. En definitiva, cuando los occidentales hablan de los “misterios de Oriente”, es muy posible que con ello se refieran a esa calma algo inquietante que genera la sombbra cuando possee esta cualidad.»

Nem sempre a lápis (142)

Ler Tanizaki estimula a minha intransigência ao contacto com a qualidade do papel, à impessoalidade da luz crua. Seria impensável o próprio livro acompanhar-me há mais de dez anos, noutro formato e com outra paginação. Um pouco como a densidade da luz da sala, a pairar no momento em que apago as luzes e o velho candeeiro e eu perdemos a noção do tempo. «O termo “biblioteca” provém do que outrora, como indica o nome, era um lugar para ler.»

Papiro do dia (42)

«O tempo todo que esteve a falar com o homem olhava-o e a seguir voltava-se na direcção que lhe tinha indicado. Não tinha mudado nada na sua amabilidade, embora agora se conseguisse perceber que estava menos interessado em falar com Maurício. Não só as suas palavras lhe chegavam mais distantes, pelo facto de o homem se ter afastado, mas também porque havia entre eles outra forma de distância, algo oblíquo e de alguma forma necessário. Maurício viu-o afastar-se e não se atreveu sequer a agradecer-lhe a informação. Até quanto estava de costas havia algo de irreal naquele homem que sorria. Caminhava devagar, os seus passos eram longos debaixo de um sol alto e duro. Maurício viu as horas. Eram nove e um quarto. O dia tinha começado e ele não sabia para quê.
O miúdo saiu da loja. O saco cheio, o corpo inclinado para equilibrar o peso. Ao atravessar a praça cruzou-se com um charco que parecia não ter visto antes. Parou. Hesitava entre atravessá-lo ou dar-lhe a volta. Olhou o saco e voltou a olhar o charco que mais parecia um lamaçal. Da torneira continuava a sair água aos borbotões. Pegou numa pedra e atirou-a para o meio do charco. No final, decidiu dar-lhe a volta.»
[Ricardo Romero, Nenhum Lugar; trad. Patrícia Louro, Deriva, Setembro 2010;

14 de março de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Para quem comeu haxixe,
Versalhes não é grande o bastante,
e a eternidade dura um átimo.
As cortinas são intérpretes da linguagem dos ventos.»
(Walter Benjamin)

«É bom trabalhar nas Obras» (78)

«A preferência fez estragos no grupo. A partir de então, Hilda reparou em Andrés. Entre os de Trinchera, ele era o único que sabia escutá-la e apreciar os seus poemas. No entanto, não tinham sido íntimos porque Hilda estava sempre ao lado de Ricardo. A sua relação nunca ficou esclarecida. Às vezes, parecia a discípula intocável e admiradora de quem lhes indicava o que ler, que opinião ter, como escrever, quem admirar ou detestar. Por vezes, apesar da diferença de idades, Ricardo tratava-a como uma namorada da altura e, de quando em quando, tudo indicava que tinham uma relação muito mais íntima.
Arbeláez passou umas semanas em Cuba para fazer um livro, que não chegou a escrever, sobre os primeiros meses da revolução. Insinuou que tinha sido apresentado a Ernesto Guevara e a Fidel Castro e como agradecimento, ambos o convidavam para festejar o triunfo. Esta mentira, pensou Andrés, comprovava que Arbeláez era um mitómano. Durante a sua ausência, Hilda e Quintana viram-se todos os dias e a toda a hora. Convencidos de que não conseguiriam separar-se, decidiram falar com Ricardo quando voltasse de Cuba.
Na mesma tarde da conversa no café Palermo, no dia 28 de Março de 1959, as forças armadas desmantelaram a greve ferroviária e detiveram o seu líder, Demetrio Vallejo. Arbeláez não colocou obstáculos à união dos seus amigos, mas afastou-se deles e não voltou a Filosofia nem a Letras. Os amores de Hilda e Andrés marcaram o fim do grupo e a morte de Trinchera.
Em Fevereiro de 1960, Hilda ficou grávida. Andrés não hesitou um instante em casar-se com ela. A mãe (que o marido tinha abandonado com duas filhas pequenas) aceitou o casamento como um mal menor. Os senhores Quintana consideraram-no um equívoco: à beira de fazer vinte e cinco anos, Andrés deixava os estudos quando já só lhe faltava apresentar a tese e não iria conseguir sobreviver como escritor. Ambos eram católicos e membros do Movimento Familiar Cristão. Estremeciam só de pensar num aborto, numa mãe solteira, num filho sem pai. Resignados, presentearam os novos esposos com algum dinheiro e uma casinha pseudo-colonial das que o arquitecto tinha construído em Coyoacán, com materiais das demolições na antiga cidade.
Andrés, que ainda continuava a trabalhar todas as noites nos seus contos e se recusava a publicar um livro, nunca escreveu notícias nem resenhas. Já que não podia dedicar-se ao jornalismo, enquanto tentava abrir caminho como guionista de cinema teve de redigir as memórias de um general revolucionário. Nenhum script satisfez os produtores. Pelo seu lado, Arbeláez começou a colaborar todas as semanas em Mexico en la Cultura. Durante um tempo, as suas críticas ferozes foram muito comentadas.
Hilda perdeu a criança ao sexto mês de gravidez. Ficou incapacitada para conceber, abandonou a Universidade e nunca mais voltou a fazer poemas. O general morreu quando Andrés ia a meio do segundo volume. Os herdeiros cancelaram o projecto. Em 1961, Hilda e Andrés mudaram-se para um sombrio apartamento interior da colónia Roma. O aluguer da sua casa em Coyoacán era tanto como o que Andrés ganhava a traduzir livros para uma empresa que fomentava o pan-americanismo, a Aliança para o Progresso e a imagem de John Fiztgerald Kennedy. No Suplemento de referência naqueles anos, Arbeláez (sem mencionar Andrés) denunciou a casa editorial como tentáculo da CIA. Quando a inflação lhe pulverizou o orçamento, as amizades familiares obtiveram o lugar de revisor na Secretaria de Obras Públicas para Andrés. Hilda ficou empregue, como a irmã, na boutique de Madame Marnat, na Zona Rosa.»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro;

Papiro do dia (41)

«Perto ou longe só crescia o vento, o resto parecia limitado a uma resignação vazia e imensa. Maurício, ao observar tudo isto, sentiu a vã necessidade de dizer-se o seu nome em voz baixa, de o recordar.
Maurício abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não soube que responder à distraída irreverência do condutor. Acabou por morder o lábio inferior, arrependido logo por ter falado, como se ao fazê-lo tivesse quebrado um pacto óbvio e necessário entre os dois homens que sulcam a noite na surda profundidade do deserto, como se o deserto fosse o caminho certo que os libertava de qualquer desvio do qual, suspeitava, não havia regresso, por não haver a onde regressar.
Depois disso, não se atreveu a dirigir-lhe a palavra, e limitou-se apenas a insistir uns minutos mais com o olhar no espelho retrovisor. Contudo, o taxista não voltou a procurá-lo. Imutável, olhava em frente, para a estrada interminável. Finalmente, Maurício desistiu e ocupou-se a observar o céu rígido e abundante através da janela. Não queria pensar em nada. As distâncias absorviam-no, como se o facto de tudo estar ou parecer distante o situasse num desterro intransitável entre ele e os seus pensamentos. Sem esforço foi-se deixando estar, inclinado sobre a janela, a olhar as fugidias figuras dos arbustos e das pedras e a sentir o frio da noite na testa apoiada no vidro.»
[Ricardo Romero, Nenhum Lugar; trad. Patrícia Louro, Deriva, Setembro 2010]

12 de março de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

Confiei que o frio da tarde e véspera de Carnaval tivessem libertado a esplanada de militares. Às vezes, sofre-se, impõem um tom de messe de oficiais. E estava certo, posso deixar arrefecer o chá da mudança de atitude: jovens mães puxadas pelos filhos, sem que se distinga a máscara de quem, enfiado o boné que nunca aqui usei. Já passei dez anos sem escrever. Sejamos francos; o que é que José Emilio Pacheco me quer contar em O princípio do prazer?

«É bom trabalhar nas Obras» (77)

«Havia anos que não trabalhava de noite, com o pretexto de que o barulho da máquina incomodava os vizinhos. Na realidade, estava ocupado, sem fazer nada mais do que traduções e prosas burocráticas. Andrés descobriu a sua vocação de contista quando era criança. Quando era adolescente, a sua biblioteca estava formada sobretudo por colecções de contos. Ao contrário da dispersão dos seus amigos, ele quase que se orgulhava por não ler poemas, romances, ensaios, dramas, filosofia, história, livros políticos e, pelo contrário, frequentar os contos dos grandes narradores vivos e mortos.
Durante alguns anos, Andrés frequentou o curso de arquitectura, obrigado a seguir a profissão do pai como filho único. À tarde, assistia como ouvinte aos cursos de Filosofia e Letras que pudessem ser úteis para a sua formação como escritor. Na Cidade Universitária recém inaugurada, Andrés conheceu o grupo da revista Trinchera, impressa em papel sobrado de um jornal de cor vermelha, e o seu director Ricardo Arbeláez que, sem o dizer, actuava como professor desses jovens.
Passados trinta e vários anos depois de se ter formado em Direito, Arbeláez queria fazer o doutoramento em literatura e converter-se no grande crítico que ia estabelecer uma nova ordem nas letras mexicanas. Na Faculdade e no Café de las Américas, falava sem cessar dos seus projectos: uma nova história literária a partir da estética marxista e de um grande romance capaz de representar para o México daqueles anos, o que Em busca do tempo perdido significou para a França. Ele insinuava que havia rompido com a sua família aristocrática, uma mentira que bradava aos céus, e portanto escreveria o seu livro com verdadeiro conhecimento de causa. Até então, a sua obra limitava-se a resenhas sempre adversas e a textos contra o PRI e o governo de Ruiz Cortines.
Ricardo era um mistério, mesmo para os seus amigos mais próximos. Murmurava-se que tinha mulher e filhos e, contrariando as suas ideias, de manhã trabalhava no escritório de um advogangster, defensor dos indefensáveis e famoso pelos seus escândalos. Nunca ninguém o visitou nem no escritório nem em casa. A vida pública de Arbeález começava às quatro da tarde na Cidade Universitária e terminava às dez da noite no Café de las Américas.
Andrés seguiu os ensinamentos do professor e publicou os seus primeiros contos em Trinchera. Sem renunciar à sua atitude crítica, nem à exigência de que os seus discípulos escrevessem a melhor prosa e o melhor verso possíveis, Ricardo considerava Andrés “o contista mais prometedor da nova geração”. No seu balanço literário de 1958, fez o elogio definitivo: “Para narrar, ninguém como Quintana”.
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro;

Papiro do dia (40)


«A investigação policial deu origem a uma descoberta sensacional. Não a do assassino, que não tardou, mas a uma descoberta de outro interesse, profundamente humana. O vendedor de hortaliça tinha sucumbido, ao que parece, sob a pressão fortíssima de um penico em terracota que lhe atirou à cabeça, da janela do seu pardieiro, Radwan Aly, o homem mais pobre do mundo. A profunda humanidade do acontecimento residia no seguinte: o penico com que Radwan Aly tinha atingido o vendedor era o único bem, o único móvel da sua casa, e não hesitou em sacrificá-lo para salvaguardar o sono todo da rua. Perante um tal sentido de sacrifício, até os próprios polícias ficaram confundidos.»
[Albert Cossery, Os Homens Esquecidos de Deus; trad. de Ernesto Sampaio, Antígona, 2002]

11 de março de 2011

10 de março de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Não ser demasiadamente
é a condição primeira
para o desabrochar consciente e pacífico.»
(Rainer Maria Rilke)

«É bom trabalhar nas Obras» (76)

«...vamos ver, diz a guia, apenas uma ínfima parte do que se calcula que os artistas astecas produzira sem instrumentos de metal nem rodas para transportar os grandes blocos de pedra, está aqui quase tudo o que sobreviveu à destruição de México-Tenochtitlan, a grande cidade enterrada debaixo deste mesmo chão que as senhoras e os senhores pisam,
a violência imóvel da escultura asteca provoca no senhor uma reacção que nenhuma obra de arte lhe tinha suscitado, quando menos esperava vê-se diante do ácido monólito em que um escultor sem nome gravou como quem petrifica uma obsessão a imagem implacável de Coatlicue, mãe de todas as divindades, do Sol, da Lua e das estrelas, deusa que cria a vida neste planeta e recebe os mortos no seu corpo,
o senhor fica magnetizado por ela, magnetizado, não há outra palavra, irá suspender os tours a Teotihuacan, Taxco e Xochimilco, para voltar ao Museu às quintas, sextas e sábados, sentar-se em frente de Coatlicue e reconhecer nela algo que o senhor intuiu sempre, capitão,
a sua insistência provoca suspeitas entre os funcionários, para se justificar, para disfarçar esse fascínio aberrante, o senhor compra um bloco e começa a desenhar Coatlicue em todos os seus pormenores,
no domingo irá parecer-lhe absurdo o seu interesse por uma escultura que afinal lhe é alheia, e em vez de voltar ao Museu irá inscrever-se na excursão FESTA BRAVA, os amigos que fez nesta viagem irão perguntar-lhe por que é que não foi com eles a Taxco, a Cuernavaca, às pirâmides e aos jardins flutuantes de Xochimilco, onde se meteu durante estes dias, será que não leu D. H. Lawrence, não sabe que a cidade de México é sinistra e que um perigo mortal espreita em cada esquina?, não, não, nunca saia sozinho, capitão Keller, com estes mexicanos, nunca se sabe,
não se preocupem, sei cuidar de mim, não me viram porque passei os dias todos em Chapultepec a desenhar as melhores peças, e eles, porque é que perde o seu tempo, pode comprar livros, postais, slides, reproduções em miniatura,
quando a conversa termina, na plaza México soa o toque do clarim, ouve-se um pasodoble, os matadores e as suas quadrilhas aparecem na arena, sai o primeiro touro, toureiam-no com a capa, espicaçam, bandarilham e matam, o senhor horroriza-se com o espectáculo, não suporta ver o que fazem ao touro, e diz aos seus compatriotas, mexicanos selvagens, como é possível torturar-se os animais desta maneira, que país, esta maldita FESTA BRAVA explica o seu atraso, a sua miséria, o seu servilismo, a sua agressividade, não têm qualquer futuro, deviam ser todos fuzilados, o senhor levanta-se, abandona a praça, apanha um táxi, volta ao Museu para contemplar a deusa, para continuar a desenhá-la durante o pouco tempo em que a sala ainda estará aberta...»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro]

Papiro do dia (39)

«No es que tenhamos ninguna prevención a priori contra todo lo que reluce, pero siempre hemos preferido los reflejos profundos, algo velados, al brillo superficial y gélido; es decir, tanto en las piedras naturales como en las materias artificiales, ese brillo ligeramente alterado que evoca irresistiblemente los efectos del tiempo. “Efectos del tiempo”, eso suena bien, pero en realidad es el brillo producido por la suciedad de las manos. Los chinos tienen una palabra para ello, “el lustre de la mano”, los japoneses dicen “el desgaste”: el contacto de las manos durante un largo uso, su frote, aplicado siempre en los mismos lugares, produce con el tiempo una impregnación grasienta; en otras palabras, ese lustre es la suciedad de las manos.
Esto explica que al aforismo que reza: “el refinamiento es frío” se le haya podido añadir “... y algo sucio”. Sea como fuere, es innegable que en el buen gusto del que alardeamos entran elementos de una limpieza algo dudosa y de una higiene discutible. Contrariamente a los occidentales que se esfurzan por eliminar radicalmente todo lo que sea suciedad, los extremo-orientales la conservan valiosamente y tal cual, para convertirla en un ingrediente de lo bello. Es un pretexto, me dirán ustedes, y lo admito, pero no es menos cierto que nos gusten los colores y el lustre de un objecto manchado de grasa, de holín o por efecto de la intemperie, o que parece estarlo, y que vivir en un edificio o entre utensilios que posean esa cualidad, curiosamente nos apacigua el corazón y nos tranquiliza los niervos.»
[Tanizaki, El elogio de la sombra; trad, Julia Escobar, Biblioteca de Ensayo Siruela, 10.ª ed. Outubro de 2000;

8 de março de 2011

Breve interlúdio musical

sugerido por quem, de direito:

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«- Sai - diz a casa.
- Para onde? - pergunta a paisagem.»

... voltou assim

«É bom trabalhar nas Obras» (75)

«Esse encontro ficou-me gravado na alma. Se ia ao cinema ou me sentava a ver televisão ou a folhear revistas, encontrava sempre belas mulheres parecidas com a Rosalba. No trabalho, quando me calhava atender uma rapariga que tivesse algum traço dela, tratava-a mal, inventava dificuldades, procurava formas de humilhá-la diante dos outros empregados para sentir: Estou a vingar-me da Rosalba.
O senhor perguntará, padre, o que é que a Rosalba me fez. Nada, o que se chama nada. Isso era o pior e o que me punha mais furiosa. Insisto, padre: foi sempre boa e carinhosa comigo. Mas abafou-me, arruinou-me a vida, só por existir, por ser tão bela, tão inteligente, tão rica, tão tudo.
Eu sei o que é estar no Inferno, padre. No entanto, não há sol que sempre duro e há mais marés do que marinheiros. Aquele encontro em Santa María deve ter sido em 1946. De maneira, que esperei um quarto de século. E finalmente hoje, padre, esta manhã vi-a na esquina de Madero com Palma. Primeiro, ao longe; depois, muito perto. Não pode imaginar, padre: aquele corpo maravilhoso, aquela cara, aquelas pernas, aqueles olhos, aquele cabelo, perderam-se para sempre num tonel de sebo, pregas, sinais, rugas, papadas, varizes, brancas, maquilhagem, pó-de-arroz, rímel, dentes falsos, pestanas postiças, lentes de fundo de garrafa.
Apressei-me a beijá-la e a abraçá-la. Tinha acabado o que nos separou. O antes, deixou de ter importância. Nunca mais seríamos, uma a feia e a outra, a bonita. Agora a Rosalba e eu somos iguais. Agora a velhice tornou-nos iguais.»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro;

Papiro do dia (38)

«Dicen que el papel es un invento de los chinos; sin embargo, lo único que nos inspira el papel de Occidente es la impresión de estar ante un material estrictamente utilitario, mientras que sólo hay que ver la textura de un papel de China o de Japón para sentir un calorcillo que nos reconforta el corazón. A igual blancura, la de un papel de Occidente difiere por naturaleza de la un hosho* o un papel blanco de China. Los rayos luminosos parecen rebotar en la superficie del papel occidental, mientras que la del hosho o del papel de China, similar a la aterciopelada superficie de la primera nieve, los absorbe blandamente. Además, nuestros papeles, agradables al tacto, se pliegan y arrugan sin ruido. Su contacto es suave y ligeramente húmedo como el de la hoja de un árbol.
* Papel japonês de alta qualidade, grosso e completamente branco, reservado para as ordens imperiais.»
[Tanizaki, El elogio de la sombra; trad. Julia Escobar, Biblioteca de Ensayo Siruela, 10.ª ed. Outubro de 2000]

6 de março de 2011

Breve interlúdio musical

lá vou eu passear as jeans, fiufiu...

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«En Occidente, el más poderoso aliado de la belleza fue siempre la luz; en la estética tradicional japonesa lo esencial está en captar el enigma de la sombra. Lo bello no es una sustancia en sí sino un juego de claroscuros producido por la yuxtaposición de las diferentes sustancias que va formando el juego sutil de las modulaciones de la sombra. Lo mismo que una piedra fosforescente en la oscuridad pierde toda su fascinante sensación de joya preciosa si fuera expuesta a plena luz, la belleza pierde toda su existencia si se suprimen los efectos de la sombra.»

Nem sempre a lápis (141)

Adormeci a ouvir-te dizer,
«Encheste-me a casa de palavras.»
Vim até à minha,
lidar com elas.

Papiro do dia (37)

4 de março de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

[play it again, Enrique]

Às vezes, lá calha...

«Albert não mantivera a biblioteca do pai numas prateleiras e a sua noutras; pelo contrário, juntara autores, refizera a ordem, arrumara, enfim, os livros pelas letras do alfabeto num movimento rudimentar que revelava o seu fraco carácter – misturara a força com o alfabeto.»

Nem sempre a lápis (140)

Apanho-me a olhar para o monitor com ar aburrado, e não ensimesmado, palavra que não uso; só em serviço, a trabalhar, horas e horas seguidas dão nisto. Mas sempre com o título de Bruce Chatwin, O Que Faço Eu Aqui, como nota de rodapé a lastrar a ausência. É impressionante o caudal de frases, períodos, reflexões, que me ocorrem e encheriam páginas e páginas de texto avulso e indecifrável. O que aqui anoto é uma caricatura do que não comporto; uma finta à loucura, com rima pobre, encalacrada.

«É bom trabalhar nas Obras» (74)

«Padre, as coisas que não terá ouvido no confessionário e aqui na sacristia… O senhor é jovem, é homem. Vai-lhe ser difícil entender-me. Não sabe quanto lamento roubar-lhe tempo com os meus problemas, mas em quem, se não no senhor, posso confiar? Na verdade, não sei como começar. É pecado alegrarmo-nos com o mal alheio. Todos o cometemos, não é verdade? O senhor repare quando há um acidente, um crime, um incêndio. Que alegria que os outros sentem porque não lhes ter calhado pelo menos uma, entre tantas desgraças deste mundo.
O senhor não é de cá, padre, não conheceu México quando era uma cidade pequena, preciosa, muito confortável, não a monstruosidade que sofremos agora, em 1971. Então, nascíamos e morríamos no mesmo sítio, sem nunca nos mudarmos de bairro. Éramos de São Rafael, de Santa Maria, da colónia Roma. Nada voltará a ser igual… Desculpe, estou a divagar. Não tenho ninguém com quem falar e quando me solto… Ai, padre, que vergonha, se soubesse, jamais me teria atrevido a contar isto a alguém, nem ao senhor. Mas já que aqui estou. Depois, vou sentir-me mais aliviada.
Olhe, a Rosalba e eu nascemos em prédios da mesma rua, apenas com três meses de diferença. As nossas mães eram muito amigas. Levavam-nos as duas à Alameda e a Chapultepec. Ensinaram-nos a falar e a caminhar às duas. Desde que entrámos na escola da pré-primária a Rosalba foi a mais bonita, a mais graciosa, a mais inteligente. Toda a gente engraçava com ela, era delicada com todos. Na primária e na secundária, a mesma coisa: a melhor aluna, a porta-bandeira nas cerimónias, dançava, actuava ou recitava nos festivais. "Estudar, não me dá trabalho nenhum", dizia. "Basta-me ouvir qualquer coisa para ficar a sabê-la de cor."
Ai, padre, porque é que as coisas estão tão mal distribuídas? Porque é que o bom calhou à Rosalba e o mau a mim? Feia, gorda, bruta, antipática, grosseira, desordeira, com mau feitio. Enfim… Já deve imaginar o que nos aconteceu ao chegarmos ao liceu, quando poucas mulheres alcançavam esses níveis. Queriam todos namorar com a Rosalba. A mim, que me comessem os cães: ninguém ia reparar na amiga feia da rapariga bonita.»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro]

3 de março de 2011

A isto é que se chama, "ao pintar da amora"...

com premonitoras pinceladas de tinta-da-china

2 de março de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

«..."there are too many monks in the world
who think are artists".

Às vezes, lá calha...

Já cortei lenha, com serra e machado, mas ainda não fui à do Abel, ao Pára Aqui, descansar as costas e comer uma bifana com um semol de laranja. Enfim, conviver com o trânsito da 125 e os seus protagonistas, de minezita e calce de medronho na mão; os filólogos da valeta.
[acuse-se o autor e pago uma rodada]

Nem sempre a lápis (139)

Acontece a todos, e também ós melhores e ós maiores – onde, naturalmente, não me incluo –, sermos literalmente lidos por um livro e voltarmos ao princípio, sem darmos pela dimensão; A Casa de Papel e O Segredo de Joe Gould, sessenta páginas separam estes exemplos imediatos. Outros há, que depois de nos filarem durante um número esquecido de horas de leitura, seguros de nos terem reféns exigem pausas reflexivas para Aprender a rezar na Era da Técnica. O que distingue estes exemplos, em nada antagónicos nem poluídos pelo item qualitativo arruaceiro, é a forte personalidade da escrita; uma, já está a limpar os lábios quando pegamos na primeira linha e a outra, desossa-nos com luxúria de gastrónomo. Ora, se eu armo um escarcéu com Vila-Matas, Cormac, Sebald, Berger, Piglia, Walser, Toscana, porque carga de água (tromba, tsunami) não hei-de gritar aos sete ventos que ando delirante com Gonçalo M. Tavares e as entrevistas a que vou tendo acesso? Por não ser um autor importado; por ser da casa e ter o atrevimento de escrever como escreve em língua portuguesa? Não é por cobardia, mas, tendo em conta a herpes da destinatária, ninguém melhor do que o César Monteiro para fazer minhas as suas previdentes palavras: «Eu quero que as más-línguas se fodam.»

Papiro do dia (36)

«Cuando el 11 de septiembre vi las tomas por televisión, me recordaron instantáneamente el 6 de agosto de 1945. En Europa escuchamos las noticias del bombardeo de Hiroshima durante la tarde de aquel mismo día.
Las correspondencias inmediatas entre estos dos sucesos involucran una bola de fuego que desciende del cielo claro sin aviso alguno; ambos ataques fueron programados para coincidir con el momento en que los civiles de la ciudad objetivo se dirigían a su trabajo, las tiendas estaban abriendo y los niños en la escuela trabajaban sus lecciones. Es semejante la reducción a cenizas, y que los cuerpos, lanzados por el aire, se volvieran escombro. Son comparables la incredulidad y el caos provocados por una nueva arma de destrucción que se emplea por vez primera: la bomba atómica, hace sesenta años, y una aeronave civil el otoño pasado. En todas partes del epicentro, en cada cuerpo e objeto, un grueso manto de polvo.
Las diferencias en contexto y escala son, por supuesto, enormes. En Manhattan el polvo no era radiactivo.
Las bombas arrojadas sobre Hiroshima y Nagasaki anunciaron que Estados Unidos era, de ahí en delante, la suprema potencia armada del mundo. El ataque del 11 de setiembre anunció que esta potencia ya no tenía garantizada la invulnerabilidad en su propia casa. Ambos eventos marcan el principio y el fin de un cierto período histórico.»
[John Berger, Con la esperanza entre los dientes; trad. Ramón Vera Herrera, Alfaguara 2010;

1 de março de 2011

O último leitor

CORRENTES D’ ESCRITAS EM LISBOA
Instituto Cervantes, às 18h30
10ª MESA: Para lá deste lugar, ninguém diz as palavras
Conceição Lima
David Toscana
Inês Pedrosa
Kirmen Uribe
Uberto Stabile
Raquel Ochoa - moderador

28 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

... se conduzir, conduza-se

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

Brotaram, os rebentos da figueira; aí está ela a bater palmas à Primavera. Quando calço estas botas, bem ensebadas, com sola de pneu, levo a terra nos pés.

Nem sempre a lápis

Papiro do dia

[a esplanada dos loucos; edições Clube Naval de Portimão, Fevereiro de 2011 (fora do mercado)]

26 de fevereiro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Para Albert a velhice seria o ponto da vida em que poderia ler ainda mais; para Lenz, pelo contrário, a velhice significaria o abandono da leitura pois esta exigia uma vitalidade que só quem age com força sobre o mundo consegue acompanhar.»

Nem sempre a lápis (138)

O auditório do Colégio de Nossa Senhora da Boavista tem a lotação de quatrocentos lugares. No intervalo, quando fomos fumar um cigarro, o director estimou entre trezentas e vinte a trezentas e cinquenta pessoas. Digamos trezentas, para não ser indelicado; uma multidão, um motim caloroso. Venderam-se quinze livros; maioritariamente a quem o leu em palco, reparei. Fiz mais de mil quilómetros para me oferecerem um caderno cheio de significado; dentro de dias, partilho-o no YouTube.

«É bom trabalhar nas Obras» (73)

«Preocupa-me a Ana Luisa. Magoa-me não a poder ajudar. Creio que está a passar muito mal e a vida dela vai ser horrível, sem que ela tenha culpa nenhuma. Embora, se pensar bem e reparar nas pessoas que conheço ou de quem sei alguma coisa, a vida de toda a gente é sempre horrível.
Mil anos depois chegaram as coisas que tínhamos deixado em México, entre elas o baú onde a minha mãe guarda as fotos. Em vez de estudar ou ler, passei horas a contemplá-las. Tenho algum trabalho em reconhecer-me na criança que aparece nos retratos de há já muito tempo. Um dia, vou ser tão velho como os meus pais e então, tudo isto que vivi, toda a história de Ana Luisa, irá parecer incrível e mais triste do que agora. Não entendo porque é que a vida é como é. Também não consigo imaginar como seria possível de outra maneira.»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a Colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro;

24 de fevereiro de 2011