«Há poesia em tudo – na terra e no mar, nos lagos e nas margens dos rios. Há-a também na cidade – não o neguemos – facto evidente para mim enquanto aqui estou sentado: há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro.»
«De uma maneira geral, os livros sabem ao cheiro do café» Sam Savage
«Aun sabiendo que sólo son sombras insignificantes, experimentamos el sentimiento de que el aire en esos lugares encierra una espesura de silencio, que en esa oscuridad reina una serenidad eternamente inalterable. En definitiva, cuando los occidentales hablan de los “misterios de Oriente”, es muy posible que con ello se refieran a esa calma algo inquietante que genera la sombbra cuando possee esta cualidad.»
«O tempo todo que esteve a falar com o homem olhava-o e a seguir voltava-se na direcção que lhe tinha indicado. Não tinha mudado nada na sua amabilidade, embora agora se conseguisse perceber que estava menos interessado em falar com Maurício. Não só as suas palavras lhe chegavam mais distantes, pelo facto de o homem se ter afastado, mas também porque havia entre eles outra forma de distância, algo oblíquo e de alguma forma necessário. Maurício viu-o afastar-se e não se atreveu sequer a agradecer-lhe a informação. Até quanto estava de costas havia algo de irreal naquele homem que sorria. Caminhava devagar, os seus passos eram longos debaixo de um sol alto e duro. Maurício viu as horas. Eram nove e um quarto. O dia tinha começado e ele não sabia para quê.
«A preferência fez estragos no grupo. A partir de então, Hilda reparou em Andrés. Entre os de Trinchera, ele era o único que sabia escutá-la e apreciar os seus poemas. No entanto, não tinham sido íntimos porque Hilda estava sempre ao lado de Ricardo. A sua relação nunca ficou esclarecida. Às vezes, parecia a discípula intocável e admiradora de quem lhes indicava o que ler, que opinião ter, como escrever, quem admirar ou detestar. Por vezes, apesar da diferença de idades, Ricardo tratava-a como uma namorada da altura e, de quando em quando, tudo indicava que tinham uma relação muito mais íntima.
«Perto ou longe só crescia o vento, o resto parecia limitado a uma resignação vazia e imensa. Maurício, ao observar tudo isto, sentiu a vã necessidade de dizer-se o seu nome em voz baixa, de o recordar.
«Havia anos que não trabalhava de noite, com o pretexto de que o barulho da máquina incomodava os vizinhos. Na realidade, estava ocupado, sem fazer nada mais do que traduções e prosas burocráticas. Andrés descobriu a sua vocação de contista quando era criança. Quando era adolescente, a sua biblioteca estava formada sobretudo por colecções de contos. Ao contrário da dispersão dos seus amigos, ele quase que se orgulhava por não ler poemas, romances, ensaios, dramas, filosofia, história, livros políticos e, pelo contrário, frequentar os contos dos grandes narradores vivos e mortos.
«...vamos ver, diz a guia, apenas uma ínfima parte do que se calcula que os artistas astecas produzira sem instrumentos de metal nem rodas para transportar os grandes blocos de pedra, está aqui quase tudo o que sobreviveu à destruição de México-Tenochtitlan, a grande cidade enterrada debaixo deste mesmo chão que as senhoras e os senhores pisam,
«No es que tenhamos ninguna prevención a priori contra todo lo que reluce, pero siempre hemos preferido los reflejos profundos, algo velados, al brillo superficial y gélido; es decir, tanto en las piedras naturales como en las materias artificiales, ese brillo ligeramente alterado que evoca irresistiblemente los efectos del tiempo. “Efectos del tiempo”, eso suena bien, pero en realidad es el brillo producido por la suciedad de las manos. Los chinos tienen una palabra para ello, “el lustre de la mano”, los japoneses dicen “el desgaste”: el contacto de las manos durante un largo uso, su frote, aplicado siempre en los mismos lugares, produce con el tiempo una impregnación grasienta; en otras palabras, ese lustre es la suciedad de las manos.
«Esse encontro ficou-me gravado na alma. Se ia ao cinema ou me sentava a ver televisão ou a folhear revistas, encontrava sempre belas mulheres parecidas com a Rosalba. No trabalho, quando me calhava atender uma rapariga que tivesse algum traço dela, tratava-a mal, inventava dificuldades, procurava formas de humilhá-la diante dos outros empregados para sentir: Estou a vingar-me da Rosalba.
«Dicen que el papel es un invento de los chinos; sin embargo, lo único que nos inspira el papel de Occidente es la impresión de estar ante un material estrictamente utilitario, mientras que sólo hay que ver la textura de un papel de China o de Japón para sentir un calorcillo que nos reconforta el corazón. A igual blancura, la de un papel de Occidente difiere por naturaleza de la un hosho* o un papel blanco de China. Los rayos luminosos parecen rebotar en la superficie del papel occidental, mientras que la del hosho o del papel de China, similar a la aterciopelada superficie de la primera nieve, los absorbe blandamente. Además, nuestros papeles, agradables al tacto, se pliegan y arrugan sin ruido. Su contacto es suave y ligeramente húmedo como el de la hoja de un árbol.
«En Occidente, el más poderoso aliado de la belleza fue siempre la luz; en la estética tradicional japonesa lo esencial está en captar el enigma de la sombra. Lo bello no es una sustancia en sí sino un juego de claroscuros producido por la yuxtaposición de las diferentes sustancias que va formando el juego sutil de las modulaciones de la sombra. Lo mismo que una piedra fosforescente en la oscuridad pierde toda su fascinante sensación de joya preciosa si fuera expuesta a plena luz, la belleza pierde toda su existencia si se suprimen los efectos de la sombra.»
«Padre, as coisas que não terá ouvido no confessionário e aqui na sacristia… O senhor é jovem, é homem. Vai-lhe ser difícil entender-me. Não sabe quanto lamento roubar-lhe tempo com os meus problemas, mas em quem, se não no senhor, posso confiar? Na verdade, não sei como começar. É pecado alegrarmo-nos com o mal alheio. Todos o cometemos, não é verdade? O senhor repare quando há um acidente, um crime, um incêndio. Que alegria que os outros sentem porque não lhes ter calhado pelo menos uma, entre tantas desgraças deste mundo.
Acontece a todos, e também ós melhores e ós maiores – onde, naturalmente, não me incluo –, sermos literalmente lidos por um livro e voltarmos ao princípio, sem darmos pela dimensão; A Casa de Papel e O Segredo de Joe Gould, sessenta páginas separam estes exemplos imediatos. Outros há, que depois de nos filarem durante um número esquecido de horas de leitura, seguros de nos terem reféns exigem pausas reflexivas para Aprender a rezar na Era da Técnica. O que distingue estes exemplos, em nada antagónicos nem poluídos pelo item qualitativo arruaceiro, é a forte personalidade da escrita; uma, já está a limpar os lábios quando pegamos na primeira linha e a outra, desossa-nos com luxúria de gastrónomo. Ora, se eu armo um escarcéu com Vila-Matas, Cormac, Sebald, Berger, Piglia, Walser, Toscana, porque carga de água (tromba, tsunami) não hei-de gritar aos sete ventos que ando delirante com Gonçalo M. Tavares e as entrevistas a que vou tendo acesso? Por não ser um autor importado; por ser da casa e ter o atrevimento de escrever como escreve em língua portuguesa? Não é por cobardia, mas, tendo em conta a herpes da destinatária, ninguém melhor do que o César Monteiro para fazer minhas as suas previdentes palavras: «Eu quero que as más-línguas se fodam.»
«Cuando el 11 de septiembre vi las tomas por televisión, me recordaron instantáneamente el 6 de agosto de 1945. En Europa escuchamos las noticias del bombardeo de Hiroshima durante la tarde de aquel mismo día.
«Preocupa-me a Ana Luisa. Magoa-me não a poder ajudar. Creio que está a passar muito mal e a vida dela vai ser horrível, sem que ela tenha culpa nenhuma. Embora, se pensar bem e reparar nas pessoas que conheço ou de quem sei alguma coisa, a vida de toda a gente é sempre horrível.