30 de abril de 2012

Papiro do dia (212)

«Pensou que a sua doença estava no coração, se era possível ter uma doença em semelhante órgão. Fleming era gentil querendo saber o que se passava. Ficou com vontade de chorar. Fincou os cotovelos na mesa e começou a tapar e a destapar os ouvidos. Cada vez que libertava os lóbulos das orelhas ouvia o rumor do refeitório. Trovejava como um comboio à noite. E quando voltava a tapar os ouvidos o bramido ensurdecia, como quando um comboio penetra num túnel. Uma noite, em Dalkey, o comboio estrondeara da mesma forma, e depois, ao entrar no túnel, o estrépito desaparecera. Fechava os olhos e o comboio continuava, rumorejando, depois parava, voltava a fazer barulho e tornava a calar-se. Era divertido ouvi-lo rugir e parar, e depois voltar a seguir, já fora do túnel, e depois silenciar.»


[James Joyce, Retrato do Artista Quando Jovem; trad. Alfredo Margarido, Livros do Brasil, s.d.]

3 comentários:

Miguel Pestana disse...

Excelente excerto.

Não sabia que James Joyce é editado pela Livros do Brasil.

Parece que a edição é já das antigas.

fallorca disse...

Estão editados vários títulos nesta colecção, «Ulisses», «Gente de Dublin» (e não Dublinenses, como agora corre por aí;)

Anónima Singular disse...

Haja tempo para ler que a vontade nunca falta.