3 de setembro de 2012

Nem sempre a lápis (314)

Nunca sei que surpresa os gatos me reservam, quando desço e abro a porta da rua. Entram com o dorso arqueado e a cauda ondulante, miados e marradinhas, disputam o meu colo sentado na casa de banho; tudo às claras, no campo. Os cães saem para perceberem se vamos passear, enquanto abro o atelier e ligo o computador, e servem-se da comida dos gatos, entretidos e indiferentes à minha voz, a comerem a dos cães. Não sendo unha com carne, também não sabem o que seja cão e gato. Fecho a porta de casa, passando a ter o cuidado de verificar se nenhum subiu para a sala (e dar com ele?), fechada a porta do quarto; só com os dois na rua entro no atelier e atiro as trelas para cima da mesa debaixo do telheiro. Sossego a expectativa dos cães e vejo, no chão, um pássaro que arriscou demais o raide ao comedouro e jaz abatido em combate desigual; vejo o corpo espalmado de uma osga demasiado confiante na viscosidade das patas; já entraram no atelier e deixaram outro pássaro junto dos meus pés descalços, para brincarmos. Não faço ideia que lembrança vão deixar em cima do teclado; já estou por tudo. Este Verão não vale a pena esperar pelos camaleões, estar atento ao podar os aloendros, ao estendal da roupa perto do muro. De um momento para o outro, assisto à debandada, ao êxodo das aves rodeado de gatos. Que eu saiba, cá em casa passou a haver dois gatos e meio: o Pepe e a Gata, os residentes, mais o Mascarilha. Também preto, mas com o queixo e o peito branco, foi-se aproximando vindo não sei de que vizinho. Aos poucos, transformaram a loggia, sob a qual trabalho, numa espécie de Sociedade Recreativa dos Gatos do Monte Alto, onde servem óptimos petiscos depois da sesta e, para mim, é um prazer vê-los a descerem a escada de ferro como eu agora gostaria de poder caminhar pela praia com os cães; na boa. O trio felino revolveu as mantas que cobriam os caixotes e, se não arrisquei um malho para procurar livros, também não vou subir a escada só para o contrariar. Assim, vejo-lhes as cabeças e faço-os descer com o truque de que os vou aviar, aviando-me eu da certeza de não ser obrigado a ouvir poucas-vergonhas no andar de cima, digamos assim, nem os ratos colonizarem aquele universo. Frase que termino com a sensação, crescente, da nuca do velho livreiro espiado por Firmin, sem ter à mão o livro de Sam Savage.

4 comentários:

Anónima Singular disse...

Adorei! e já me aconteceram situações semelhantes :)

Miguel F. Silva disse...

eheheh...sao assim mesmo! fantasticos... Um abraçao tio

Cristina Torrão disse...

Viva a Sociedade Recreativa dos Gatos do Monte Alto! :D

fallorca disse...

:)))