18 de março de 2011

«É bom trabalhar nas Obras» (79)

«Ricardo tinha visto a sua tarefa interrompida quando um escritor se suicidou vítima de um comentário. Não houve ninguém no meio que o defendesse do escândalo. Em contrapartida, o advogangster veio nos jornais e argumentou: Ninguém se mata por uma notícia de má-fé; o senhor sofria de problemas e doenças suficientes para se recusar a continuar a viver. O suicídio e o ressentimento acumulado fizeram com que a cidade se tornasse irrespirável, para Ricardo. Por não encontrar editor para o que ia ser a sua tese, teve de se humilhar e imprimi-la à sua conta. O grande esforço para rever o romance mexicano só encontrou um eco: Ruben Salazar Mallén, um dos mais antigos críticos, lamentou como finalmente reagiria a aplicação dogmática das teorias de Georg Lucáks. O repúdio do seu modelo a tudo o que significasse vanguardismo, fragmentação, alienação, condenava Arbeláez a não entender os livros do momento e destruía as suas pretensões de novidade e de originalidade. Até então, Ricardo tinha sido o juiz e não o julgado. Ficou deprimido, mas teve a nobreza de admitir que Salazar Mallén estava certo nas suas considerações.
Como tantos que prometeram tudo, Ricardo estatelou-se contra o muro do México. Voltou por algum tempo para Havana e depois obteve um lugar como professor de espanhol na Checoslováquia. Estava em Praga quando se deu a invasão soviética de 1968. A última coisa que Hilda e Andrés sabiam era que tinha emigrado para Washington e trabalhava para a OEA. Os anos sessenta passaram num segundo, o mundo mudou, Andrés fez trinta anos em 1966, o México era diferente e outros jovens enchiam os sítios onde, entre 1955 e 1960, eles escreveram, leram, discutiram, aprenderam, publicaram Trinchera, amaram-se, afastaram-se, seguiram o seu caminho ou frustraram-se.»
[José Emilio Pacheco, O princípio do prazer; em tradução para a colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro;
phantom staircase]