22 de março de 2011

Nem sempre a lápis (144)

Fiquei tão esmalmado que não encontro nada susceptível de alegrar a situação; mercado resguardado do Sol à volta da praça, alcofa na mão. No sábado, cheguei tarde e já não havia os brócolos minúsculos do senhor António, condenando-me aos bonsai assustadores das grandes superfícies, expostos a meias com obras de Saramago e oferta de auto-ajuda. Enquanto escolhia batatinha olho-de-perdiz, ainda tive coragem para perguntar à mulher como fazia o arroz de brócolos. Apanhada desprevenida com a intimidade, olhou para o marido, que lhe terá feito sinal para dizer que faz um refogado normal, cebola e alho. Imaginada a cozinha na fazenda, permiti-me sugerir umas rodelas de chouriço, de porco preto cevado com bolota e amêndoa abandonadas nos cerros, e respondeu que sim, mas do nosso. Invejosos de merda; é que tiram logo o apetite a uma pessoa. Ora, Há muitos, muitos anos, era eu uma criança (José Cid), enchido caseiro só feito pela minha mãe e as vizinhas, às corridas; de então para cá, tem sido só salsicharia.