8 de setembro de 2011

Papiro do dia (125)

«Um escritor é uma coisa curiosa. É uma contradição e, também, um contra-senso. Escrever também é não falar. É calar. É gritar sem ruído. Um escritor é, muitas vezes, repousante: ouve muito. Não fala muito porque é impossível falar a alguém de um livro que se escreveu e, sobretudo, de um livro que se está a escrever. É impossível. É o oposto do cinema, o oposto do teatro e de outros espectáculos. É o oposto de todas as leituras. É o mais difícil de tudo. É o pior. Porque um livro é o desconhecido, é a noite, é fechado, é assim. É o livro que avança, que cresce, que avança em direcções que julgávamos ter explorado, que avança em direcção ao seu próprio destino e ao do seu autor, então aniquilado pela sua publicação: a sua separação dele, do livro sonhado, como da criança recém-nascida, sempre a mais amada.
Quando um livro está acabado – um livro que escrevemos, bem entendido – já não podemos dizer, ao lê-lo, que esse livro foi um livro escrito por nós, nem que coisas lá foram escritas, nem com que desespero, nem com que alegria, o de um achado ou de um fracasso de todo o nosso ser. Porque, no final, num livro, não é possível ver nada disso. A escrita é, de certa maneira, uniforme, ajuizada. Já nada acontece num tal livro, terminado e distribuído. E ele reencontra a inocência indecifrável da sua vinda ao mundo.»
[Marguerite Duras, escrever; trad. Vanda Anastácio, Difel, Outubro 2001;
uma coisa curiosa]

2 comentários:

Ruth Rosengarten disse...

hey - e de onde vem a imagem??????
:)

fallorca disse...

Vem de «uma coisa curiosa»; segue o link.
E não é a primeira, se scrollares o blogue lá para trás :)