3 de julho de 2010

À mão de ler (48)

«No final ela morre e ele fica sozinho, embora na realidade tivesse ficado sozinho vários anos antes da morte dela, de Emília. Digamos que ela chama-se ou chamava-se Emília e que ele chama-se, chamava-se e continua a chamar-se Júlio. Júlio e Emília. No final Emília morre e Júlio não morre. O resto é literatura.
Gazmuri não é importante, Júlio é que é importante. Gazmuri tinha publicado seis ou sete romances que em conjunto formam uma série sobre a história chilena recente. Quase ninguém os compreendeu bem, salvo talvez Júlio, que os leu e releu várias vezes.Como é que Gazmuri e Júlio acabam por se unir?
Seria excessivo dizer que se unem.
Mas unem: um sábado de Janeiro Gazmuri espera Júlio num café de Providencia. Acaba de pôr ponto final num novo romance: cinco cadernos Colón inteiramente manuscritos. Tradicionalmente é a mulher quem se encarrega de lhe transcrever os cadernos, mas desta vez ela não quer, está cansada. Está cansada de Gazmuri, não lhe fala há duas semanas, por isso Gazmuri sente-se esgotado e desamparado. Mas a mulher de Gazmuri não é importante, o próprio Gazmuri importa muito pouco. O velho telefona, então, à sua amiga Natália e a sua amiga Natália diz-lhe que está muito ocupada para transcrever o romance, mas recomenda-lhe Júlio.
Escreves à mão? Hoje em dia ninguém escreve à mão, observa Gazmuri, que não espera a resposta de Júlio. Mas Júlio responde, responde que não, que usa quase sempre o computador.
Gazmuri: então não sabes do que falo, não conheces a pulsão. Há uma pulsão quando escreves no papel, um ruído do lápis. Um estranho equilíbrio entre o cotovelo, a mão e o lápis. Júlio fala, mas não se escuta o que diz. Alguém deveria aumentar-lhe o volume. A voz rouca e intensa de Gazmuri, pelo contrário, retumba, funciona:
Escreves romances, esses romances de capítulos curtos, de quarenta páginas, que estão na moda?
Júlio: Não. E acrescenta, apenas para dizer algo: O senhor recomenda-me que escreva romances?
Repara nas perguntas que fazes. Não te recomendo nada, não recomendo nada a ninguém. Julgas que marquei encontro contigo neste café para te dar conselhos?»
[Alejandro Zambra, Bonsai; trad. Jorge Fallorca, Teorema - Fevereiro 2008]

Às vezes, lá calha...

«Nem sempre começo [um livro] na primeira página e o leio de seguida até ao fim. Leio apenas uma cena, ou algo acerca de uma personagem, do mesmo modo que se encontra um amigo e se fala com ele durante uns minutos.»

2 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

... e o Paulo

mandou-os, pura e fotograficamente, à fava.

Porque a Net fornece um novo dia

Logo à noite, vou até À Barraca...
Ando necessitado de umas luzes de jardinagem

Estou para aqui assim...

«Fiz esta curta há pouco tempo com um amigo, Diogo Andrade Pessoa, inserido num concurso lançado pela Santa Casa da Misericórdia, Clube Português de Artes e Ideias e Sapo.vídeos, no âmbito do Ano Internacional Contra a Fome e a Pobreza. Fizémos 10 entrevistas a pessoas em situação de exclusão, tudo numa tarde, sem nada programado, sem ser o equipamento. Foi muito interessante abordar as pessoas, sem muito para lhes dizer... só umas perguntas, uma ideia, uma câmara e duas pessoas.
A ideia pode não ficar clara para todos, mas tento explicar: para fazer este vídeo, ou seja, para concorrer a este concurso, precisámos de várias «facilidades», p. ex. acesso a uma câmara, ter um amigo que que soubesse manuseá-la, ter um computador e internet, para editar e inserir o vídeo na net., saber ler e escrever para preencher os formulários, ter um amigo, ou mais... enfim.... é preciso muito daquilo que... quem não tem, não tem. «Olha, eu não tenho vitém, e estou prá qui assim...» O concurso é lançado para essas pessoas, mas... automaticamente essas pessoas são excluídas. Dá para perceber. Se gostarem, votem no vídeo, uma vez que só vai a jurí o mais votado pelo público. E Divulguem pelo máximo de contactos.»
... e ela chama-se Maria do Mar Liz, foi revisora na Esfera dos Livros.

À mão de ler (47)

«Passados treze anos, não só me lembro distintamente de todos os desenhos da irmã Irma, como há quatro deles que às vezes me parece recordar demasiado bem, para mal da minha paz de espírito. A melhor obra dela era uma aguarela, em papel pardo. (O papel pardo, especialmente o de embrulho, é muito agradável, muito suave para pintar. São muitos os artistas experientes que o usaram quando não tinham em mãos alguma coisa importante ou grandiosa.) A aguarela, apesar das suas dimensões limitadas (tinha uns vinte centímetros por vinte e cinco), era uma representação pormenorizada de Cristo a ser levado para o sepulcro no horto de José de Arimateia. No canto direito em primeiro plano, dois homens que pareciam ser criados de José transportavam desajeitadamente o corpo. José de Arimateia seguia atrás deles – talvez, dadas as circunstâncias, um tudo-nada empertigado de mais. A uma distância respeitosa atrás de José vinham as mulheres da Galileia, misturadas numa multidão, heterogénea, talvez capaz de ter derrubado cercas, de carpideiras, transeuntes, crianças, e nada menos do que três ímpios rafeiros travessos. Para mim, a figura central da aguarela era uma mulher à esquerda do primeiro plano, voltada para o observador. Com a mão direita erguida, fazia freneticamente sinal a alguém – o filho, talvez, ou o marido, ou possivelmente o observador – para largar tudo e vir depressa. Duas mulheres, na fila da frente da multidão, tinham auréolas. Não tendo nenhuma Bíblia à mão, não podia ir além de conjecturas quanto à identidade delas. Mas reparei imediatamente em Maria Madalena. Pelo menos, estava convencido de que era ela. Estava no centro, em primeiro plano, caminhando aparentemente destacada da multidão, os braços caídos ao longo do corpo. Não se via nenhum sinal de luto, por assim dizer, estampado na cara – na verdade, nenhum sinal exterior das suas recentes e invejáveis ligações com o Defunto. O rosto dela, como todos os outros na pintura, tinha sido feito numa tinta cor de pele, de baixo preço, já preparada. Era penosamente evidente que a própria irmã Irma achara a cor insatisfatória e tinha feito o seu digno e inexperiente melhor para até certo ponto a esbater. Não havia nenhumas outras falhas sérias na aguarela. Nenhumas, já se sabe, para quem não quisesse pôr-se com sofismas. Era, em qualquer sentido decisivo, uma obra de artista, em que aparecia um talento muito, muito disciplinado e Deus sabe quantas horas de trabalho árduo.»
[J. D. Salinger, Nove Contos; trad. José Lima, Difel, Setembro 2005]

Às vezes, lá calha...

«Felizmente, Fevereiro é um mês bastante bom, por isso ainda estarei bem. Todos os meses são bastante bons, mas não há suficientes.»

1 de julho de 2010

Breve interlúdio musical

E agora, estimados seguidores, leitores e folheadores,
é com o maior prazer que vos apresento
a minha ex-colega da Antena 2/RDP2...

Desculpe, mas não se importa de repetir...

«Depois de requalificada a Estrada Nacional 125 o ministro não descarta a hipótese de serem colocadas portagens na Via do Infante, reafirmando a política do Governo quanto às SCUT.»

... não é por nada, é só para a gente - os utilizadores - se mijar a rir, enquanto enfia mais uma roda num buraco... enquanto continua a praticar golf rodoviário no Allgarve

Porque a Net fornece um novo dia

A dois passos, uma
da outra

À mão de ler (46)

«Os únicos que não se mexeram foram os homens embriagados, sujos e com a barba por fazer, que estavam agachados junto de dois postes da luz a sorrir filosoficamente para as oportunidades que estavam a perder.
Desfiz o saco e distribuí pelos amigos e familiares os óleos, os pozinhos, os embrulhinhos mágicos e todos os outros amuletos da sorte que acumulara pelo caminho. Só não consegui desfazer-me da lembrança inquietante daquela enorme massa de gente desesperada, desorientada, ávida e irada, que, do Vietname à China, da Mongólia à Rússia, deixara para trás.
Se tivesse viajado de avião, nunca a teria visto»
[Tiziano Terzani, Disse-me Um Adivinho; trad. de Margarida Periquito, Tinta-da-China, Novembro de 2009]

Nem sempre a lápis (50)

Acabo Disse-me Um Adivinho com a sensação de termos viajado juntos. «Numa viagem assim, quem chega nunca é quem partiu», lê-se na contracapa; o mesmo é válido para o leitor. Comecei a lê-lo já na posse da almejada aviadora, onde ainda não me sentei a ler, levei-o para o Sul, mas não o abri em Asilah, apeei-me dele, com um misto de enternecida saudade, no território natural da cama. A viagem não tem distância. Repare-se no caso de Theroux; um dia, apanha um comboio suburbano nos Estados Unidos e desembarca de um de longo curso na Patagónia. Durante o ano de 1993, a conselho de um adivinho, Terzani não viajou de avião e recuperou, entre outras, a noção de viagem e de fronteira; a transposição desse vazio entre culturas, idiomas, crenças, regimes, evocações também. Hoje, duvido que defendesse o sentimento de que o avião as tenha abolido. Há treze anos que me mantenho firmemente terrestre e anfíbio de ferryboat, mas pelo que leio e ouço contar aos praticantes da arte de Ícaro, a era Bush transformou os aeroportos em fronteiras com cortina de ferro pós-maoísta e neo-fascista.
Não me sinto perseguido por preencher o boletim de entrada e saída de Tânger, durante a viagem, mencionando o destino, alojamento, profissão, motivo, origem, residência. Não vou lá gamar nada nem com o espírito colonizador de promover novas oportunidades, mas para fruir a velha e ainda atrasada que me faz viajar no tempo; estático, na raia entre dois tempos. Por outro lado, se me der uma coisinha ou trocarem por uma junta de camelos, sempre se sentem todos mais descansados. Só trouxe uma garrafa de água de Chaouen para trocá-la pela da Serra da Estrela que me acompanhava aqui ao lado há dois anos, também de meio litro. Há pouco, quando bebi um gole, lembrei-me de uma marca muito corrente que detesto, sem me ocorrer o nome. Foi ao arrolhar a garrafa apresentada em Asilah, que reparei na cor diferente da tampa e li, gravado, Sidi ali; lapsos, nunca atribuíveis ao meu espírito nos conformes; arrumação de cegueira mental.

Às vezes, lá calha...

«O paradoxo é evidente: tendo deixado de acreditar na vida depois da morte, o homem frio sustenta a sua angústia com a ilusão da imortalidade. Onde vai ele buscar essa ilusão? À capacidade de criar. Néscios aqueles que se julguem imortais por se terem transformado em máquinas produtivas.»

30 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Para já, não me soa nada mal...

Porque a Net fornece um novo dia

Coisa para tomar sem qualquer espécie de moderação,

Souvenirs (15)

Não há nada como roupa em segundo corpo.
Esta jeitosa, troquei-a em Porto Covo por uma infeliz comprada em Lagoa;
só a tirei para meter na máquina

«É bom trabalhar nas Obras» (16)

«Pertence à cada vez mais rara estirpe dos editores cultos, literários. E assiste todos os dias comovido ao espectáculo de ver como o ramo nobre do seu ofício – editores que ainda lêem e os que se sentiram sempre atraídos pela literatura – se vai extinguindo no começo deste século. Teve problemas há dois anos, mas soube fechar a tempo a editora que, ao fim e ao cabo, embora tendo alcançado um notável prestígio, rolava com assombrosa obstinação para a falência. Em mais de trinta anos de trajectória independente houve de tudo, êxitos mas também grandes fracassos. O declínio da etapa final atribuiu-o à sua resistência em publicar livros com as histórias góticas na moda e outros pastelões, e esquece assim parte da verdade: que nunca se distinguiu pela sua boa gestão económica e que, por outro lado, talvez o tivesse prejudicado o seu excessivo fanatismo pela literatura. Samuel Riba – Riba para todo o mundo – publicou muitos dos grandes escritores da sua época. De alguns, somente um livro, mas o suficiente para que estes constem no seu catálogo. Às vezes, embora não ignore que no sector honrado do seu ofício ficam no activo mais alguns corajosos dom quixotes, custa-lhe ver-se como o último editor. Tem uma imagem algo romântica de si mesmo, e vive numa permanente sensação de fim de época e de fim do mundo, sem dúvida influenciado pela paragem brusca das suas actividades. Tem uma notável tendência para ler a sua vida como um texto literário, para interpretá-la com as deformações próprias do leitor empedernido que foi durante tantos anos. Está, por outro lado, à espera de vender o seu património a uma editora estrangeira, mas as conversações encontram-se encrencadas há já algum tempo. Vive numa fortíssima e angustiada psicose do fim do mundo. E ainda nada, nem ninguém o conseguiu convencer de que envelhecer tem a sua graça. E tem?»
[Enrique Vila-Matas, Dublinesca; em tradução para a Teorema]

À mão de ler (45)

«Passei o último serão a escolher as coisas que ia levar, sabendo que para onde ia não havia carrinhos de bagagem, escadas rolantes nem bagageiros que me facilitassem as coisas. Despedira-me de todos e já estava possuído pela habitual alegria de me pôr a caminho, a sensação de alívio sempre nova que me inunda por saber que ninguém poderá alcançar-me, que não tenho marcações feitas nem me esperam em lado nenhum, que não tenho compromissos a não ser os que o acaso possa originar. Adoro misturar-me assim com a multidão, tornar-me um viajante qualquer, liberto do meu papel, da imagem que temos de nós próprios e que por vezes é uma gaiola tão apertada como a do corpo; com a certeza de não dar de caras com alguém com quem tenha a obrigação de conversar e com a liberdade de mandar para o diabo o primeiro que tente fazê-lo.»

[Tiziano Terzani, Disse-me Um Adivinho; trad. Margarida Periquito, Tinta-da-China, Novembro 2009]

Às vezes, lá calha...

«A linguagem literária cria-se
graças ao equívoco entre a realidade e o desejo.»

29 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

II FEIRA DA ACHADA
Sábado, 10 de Julho, das 10 às 19h no Largo da Achada
Uma feira de livros usados, muitos deles difíceis de encontrar, discos em vinil, cêdês vários, objectos com marcas de época de vários estilos. Uma feira onde será possível comprar obras de arte. Ver algumas aqui. Haverá mais serigrafias e desenhos.
Uma feira animada por jogos para grandes e pequenos, fotografias «à la minute» e outros fabricos.
Uma feira onde se poderá beber e comer. E conviver.
Tudo oferecido à Casa da Achada - Centro Mário Dionísio para angariação de fundos. Quem quiser oferecer mais coisas, ainda vem a tempo. Até 7 de Julho.
Durante a feira, haverá, na Casa da Achada:
- uma visita guiada por Eduarda Dionísio à exposição «50 anos de pintura e de desenho», com obras de Mário Dionísio e artistas seus amigos (Abel Salazar, Cunhal, Júlio, Pavia, Pomar, Portinari, Resende, Vieira da Silva, etc.), às 16h.
- uma sessão «Direis que não é poesia» com Elisabete Piecho, que brincará com poesia, a partir de textos de Mário Dionísio e outros, às 17h30.
A feira encerrará às 19h com o Coro da Achada a cantar no Largo da Achada.

Souvenirs (14)

Como tenho pena de não saber árabe, qualquer dialecto...

À mão de ler (44)

«Os fotógrafos não entraram, mandaram Tita Recasens para a casa de banho, e o senhor Santiago Vilabrú Cabestany (dos Vilabrú-Comelles e dos Cabestany Roure) assinou tudo em pelota. O primeiro ponto do acordo referia-se à adopção, pelo casal Vilabrú e Vilabrú, de um menino chamado Marcel, de pais desconhecidos.
– Onde o foste desencantar?
– Não é da tua conta.
– Mas que história vem a ser esta?
– Tu assina aqui e cala-te.
Gasull deu-lhe a caneta e Santiago Vilabrú teve de utilizar a cama do amor e do pecado para assinar o papel onde expressava, em pêlo, o seu desejo de adoptar esse bebé.
– O que é que me estás a fazer?
– O que mesmo que me tens andado a fazer desde que voltámos. E ainda antes.
Bom, o segundo documento referia-se à beneficiária testamentária, a senhora Elisenda Vilabrú Ramis (dos Vilabrú de Torena e dos Ramis de Pilar Ramis de Tírvia, meia puta, meia melhor não falarmos nisso por respeito para com o pobre Anselm), da fortuna do senhor Santiago, avaliada em cinco casas de habitação em Barcelona, um considerável punhado de hectares no vale de Ássua e noutros lugares da comarca e um capital de aqui te espero, mas que diminuía, embora não de maneira alarmante, porque o senhor Santiago Vilabrú Cabestany (dos Vilabrú-Comelles e dos Cabestany Roure) tinha decidido que era mais cómodo viver das rendas. Assinado em El Nidito, no dia vinte de Novembro de mil e novecentos e quarenta e quatro.
Gasull pegou na caneta, como se temesse que ele a guardasse num lugar impossível.
– É melhor não voltares a pôr os pés em Torena – disse-lhe ela –. Se tiveres de lá ir, avisa-me.
– Tenho o direito de lá ir sempre que quiser – lembrou-se de repente, como se tivesse piada –. Para ver o meu filho, não?
– Comprei um andar em Barcelona. Tu deixa-te estar no apartamento de Sarrià e tenta nunca mais ires a Torena. Nem ver o meu filho.
– Vai receber uma cópia da acta notarial – informou o notário Carretero sem entusiasmo.
– Atiro-a ao lume.
– Pode fazê-lo à vontade. – Olhou-o nos olhos e, pela primeira vez durante a tarde toda, sorriu e abanou a cabeça –: Vai-o fazer sentir-se melhor. – Para Elisenda –: Por mim, estou pronto, senhora.
– Podem continuar – disse, amavelmente Elisenda –. Queres que te recorde onde é que iam?»
[Jaume Cabré, As Vozes do Rio Pamano; trad. Jorge Fallorca, Tinta-da-China, Setembro 2008]

Nem sempre a lápis (49)

Desde que activei o blogue, há dois meses e pouco, fui-me afastando do espírito anotador de citações; não por acaso, comecei o ano a braços com a então gravidade de não dispor de uma citação que lhe abrisse o mês. Quando nada me faz tropeçar durante a tradução ou a leitura em mãos, recorro às que fui coleccionando ao longo de ano meio em O Cheiro dos Livros, como abertura de cada edição da minha revista, da minha presença electrónica; chamemos-lhe editorial: às vezes, lá calha... E calha ocorrer-me o desinteresse conquistado pela work in progress – o meu livro póstumo, na intimidade apaparicada da solidão –, não anotando citações publicadas no blogue para não falsear a sequência cronológica e tão somente mensal da coisa destinada à impressão doméstica. Ganhará um, outro perderá, é a lei natural das coisas; a natureza intrínseca da permuta, enquanto comunicante. Terminada a minuciosa revisão de Hernández, o suficientemente para a entregar ao cuidado e à impiedade do revisor, arquivado o original fotocopiado e o da tradução, passei o fim-de-semana refugiado na toca a navegar até me doerem os olhos; fui pôr a carrinha a trabalhar, parada há duas semanas; ocupei o lugar vazio de Contos Reunidos com as folhas fotocopiadas de Dublinesca (Vila-Matas) para preparar a tradução. Comecei por fazer o trabalho da praxe: abrir a página de rosto, badanas, contracapa, dedicatória e citação se a houver, para no dia seguinte me entregar ao miolo. Mas foi mais forte a tentação de copiar o primeiro período, também começado em Maio, para corrigi-lo no espaço público do blogue, onde se encontra agendado após o ciclo dedicado ao encontro sobre a tradução de As Vozes do Rio Pamano (Jaume Cabré), integrado numa curiosa parceria entre a Pó dos Livros e Catalunya Apresenta. E foi deitado, a esmifrar a vertiginosa aproximação do final de Disse-me Um Adivinho, que guardei para mim esta comovente citação de Tiziano Terzani: «À noite – não sei se o sonhei ou se o imaginei de olhos abertos – vi-me deitar fora um dicionário com que trabalhara até então e pegar noutro que só tinha palavras positivas.»
À noite, sempre que as vagas de vento abanam o cortinado de tela – cadenciado como um cata-vento e não o alarme de um espanta espíritos –, enchem-me o quarto de mar.

Às vezes, lá calha...

«Eu estava destinado a encontrar-me só com uma parte das pessoas, e ainda por cima por pouco tempo e como se eu fosse um viajante distraído que tão-pouco soubesse para onde ia.»

28 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

... e não só

«Entre 1967 e 1993, Alberto de Lacerda leccionou em universidades americanas, primeiro em Austin (no Texas), depois em Nova Iorque, por último em Boston, onde esteve a partir de 1972. Durante esses vinte e seis anos, passava um semestre de cada lado do Atlântico. Um dia, já depois do 25 de Abril, o dirigente máximo do organismo (o Instituto de Alta Cultura) que em Portugal garantia a logística dos docentes portugueses no estrangeiro, descobriu que Alberto de Lacerda não tinha habilitação própria, ou seja, licenciatura. E não hesitou: mandou rescindir o contrato. As autoridades académicas americanas não queriam acreditar que o “seu” professor de Poética fosse posto de lado por tal motivo. E fizeram o óbvio: contrataram-no directamente.»

Souvenirs (13)

Eh, monami, quieres chocolá?
Até a andorinha deu à sola com a transacção, phónix!
Sentate, repose toi monami, tea mint?
O mauritano já embrulhou este com prata de chocolate...
É só artolas, é chocolate e deve ser da vaquinha, fiufiu...

À mão de ler (43)

«Gasull meteu a chave na fechadura e abriu. Entraram os três de repente no quarto. O senhor Santiago Vilabrú Cabestany (dos Vilabrú-Comelles e dos Cabestany Roure) estava a praticar um elaboradíssimo cunnilingus a uma mulher jovem e exuberante, que Elisenda reconheceu imediatamente como a puta assanhada da Recasens. Tita, a irmã de Pili, sim, a Milonga, como lhe chamavam.
O senhor Santiago, nu e com o sexo a postos, voltou-se assustado. Empalideceu quando viu a sua querida esposa, que havia já um par de meses ou mais que não visitava, tirar o véu do rosto e avançar em direcção a ele e Tita Recasens, que nesse momento fechava as pernas, ainda desorientada. Santiago Vilabrú tapou o sexo decrescente com as duas mãos, enquanto Tita saltava da cama com a intenção de desaparecer.
– Tu não te mexas – disse Elisenda, autoritária.
O casal furtivo estava tão surpreendido que não fazia a menor ideia como contra-atacar. Tita não se mexeu e Santiago manteve-se de pé, pálido, vermelho, verde, desejoso de estar noutro sítio.
– Agora – disse Elisenda – vais assinar umas quantas coisas.
– O que é que se passa? O que é que queres?
– O senhor Carretero – anunciou apontando para o homem gordo – está a lavrar a acta notarial da situação.
– Queres chantagear-me…
– Não sei. – Para Tita Recasens –: O meu marido vem aqui duas vezes por semana. Uma vez contigo e a outra com uma prostituta. – Com um sorriso amável –: Tem cuidado não te tenha pegado alguma doença, porque gosta de bacanais.
– És uma…
– Sim. Queres que te diga o que é que tu és?
– Um momento, que me vou vestir.
– Não. Tu ficas aqui e quieto.
– Nem pensar.
– Muito bem. – Elisenda para Tita Recasens –: A tua maquilhagem aguentou-se, rainha? – E num tom seco, para Gasull –: Os fotógrafos que entrem.»
[Jaume Cabré, As Vozes do Rio Pamano; trad. Jorge Fallorca, Tinta-da-China, Setembro 2008;
foto: Jaume Cabré com Yuri Jívago um dos protagonistas de As Vozes Do Rio Pamano]

Às vezes, lá calha...

«A prostituição - já o aprendi - é o primeiro sinal
da libertação e da recuperação económica!»

27 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Souvenirs (12)

Mudança de ramo,
mas o mesmo paladar...

À mão de ler (42)

«Madame Corine (Pilar Mengual, fora do trabalho) olhou para a mulher e os seus dois acompanhantes com os olhos inquietos. Não distinguiu o rosto da senhora porque levava um véu escuro que lhe cobria as feições.
– Estão conscientes de que se aceito, perderei um cliente?
– Estou-me nas tintas para os seus problemas laborais – disse, pálido, o advogado Gasull enquanto depositava um pouco de cinza no pires.
– Mas eu, não. – Levantando a voz –: Mas o senhor julga que…?
– Se se recusar – interrompeu-a Gasull com suavidade, sem a olhar nos olhos e dando uma fumaça –, só avisaremos a polícia, dizemos-lhe que El Nidito existe, apesar das proibições explícitas do Caudilho, e damos-lhe a direcção. Provavelmente, a primeira coisa que irão fazer será mandar-lhe um pelotão de falangistas indignados para que destruam tudo, e só depois chegará a polícia demasiado tarde e, quando aqui estiverem, contamos-lhes o se passou no Natal com aquela rapariga galega. – Tirou um fio de tabaco e sorriu para a madama –: É a nossa contraproposta.
A madama, pálida de raiva, levantou-se, dirigiu-se a um pequeno armário, abriu a porta com uma chave que tinha com ela e tirou outra chave. Brilhava uma etiqueta com o número quinze e o coração de Elisenda deu-lhe um baque.
– Segundo andar. – Gasull quase lha arrancou dos dedos –. E por amor de Deus, não façam barulho.
O homem gordo piscou o olho choroso de modo quase imperceptível à senhora do rosto velado e os três abandonaram a sala do Nidito rumo à escada que conduzia ao segundo andar.
– Estou-me a cagar para as senhoras que são mais putas do que as putas – resmungou a madama, enquanto os convidados abandonavam a sala. Pararam os três de repente.
– O que é que disse? – perguntou o homem gordo com um tom de ameaça bem forte.
– Também me vão proibir de barafustar? – A madama tinha levantado a voz, sem se intimidar.
– Deixem-na – ordenou a senhora Elisenda dirigindo-se para a escada. Os dois homens seguiram-na, depois de olharem para a madame Corine com o pior olhar que tinham no catálogo.»
[Jaume Cabré, As Vozes do Rio Pamano; trad. Jorge Fallorca, Tinta-da-China, Setembro 2008]

Às vezes, lá calha...

Arrumo os livros; desfaço o saco, penduro a roupa nas costas das cadeiras. Um roupeiro é muito tempo.

26 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Hoje, há disto...

... e amanhã, mais daquilo

Souvenirs (11)

Tirem-me daqui!!!
Tázaí a fazer, pá? Andava à pesca e o guarda fechou a porta... Vcs não me ouviam?, teve de ser ela a chamar-vos?
Ah, deve ser por causa deste casal marado que tem a mania de vir aqui tirar fotos,
armados em artistas

À mão de ler (41)


«Bikku, apesar da sua declarada necessidade da racionalidade ocidental, tornara-se um crente absoluto nos meandros do misticismo oriental. Pareceu-me que precisava de crer neles. Tal como Karma Chang Choub, também este sentira a necessidade de encontrar um mestre e fora procurá-lo muito longe. Queria-me parecer que ele se perdera um pouco nessas andanças e que agora lhe era impossível reencontrar o caminho para casa.»

[Tiziano Terzani, Disse-me Um Adivinho; trad. Margarida Periquito, Tinta-da-China, Novembro 2009]

Às vezes, lá calha...

«Se bem que continuasse a ler, pensava na inocência com que a estátua tinha de representar um personagem que ela mesma não compreenderia.»

25 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Começou ao meio-dia

Leitura integral, em voz alta, do romance

Porque a Net fornece um novo dia

Souvenirs (10)

Estou aflitinho de todo...

S’l’m aleikum!

Chiça, não via a hora deste sossego!

À mão de ler (40)

«(...) Foi no chat que comecei a trocar impressões com a minha BarCode, uma eventual psicóloga, de prováveis trinta anos, supostamente solteira e presumivelmente disponível para amar. A bem dizer, eu não procurava amor. A bem dizer, não procurava nada. Queria apenas experimentar uma nova aventura, um novo mundo, uma realidade diferente daquela em que vivia todos os dias, mas apercebi-me que não havia assim grande diferença entre os mundos ditos virtual e real. Eram ambos preenchidos por pessoas. Logo, eram ambos desinteressantes. Desagradava-me falar com alguém sem lhe ver os olhos, sem lhe sentir o odor dos sovacos. Sabia lá eu com quem estava a falar. Era como se estivesse a falar para uma parede com capacidade de resposta. Era como se as pessoas não fossem pessoas. E isso era agradável. Por outro lado, estimulava-me bastante e dava-me confiança falar com alguém que eu sabia exactamente nas mesmas condições que as minhas, ou seja, alguém que não me podia sentir o odor dos sovacos ou olhar-me olhos nos olhos. Sendo assim, não correria o risco que tantas vezes senti de não saber onde meter os olhos quando do outro lado estão olhos que nos olham como se nós não tivéssemos olhar. (...)»
[Nick a pregar no status]

Nem sempre a lápis (48)


Estimados leitores – futuramente perturbados com o que se espraia aos vossos olhos, se não virem gorado o esforço para chegarem ao fim desta linha –, recentemente chegada de Nova Iorque, onde se terá deslocado para colher formação que lhe permita entrevistar-me para uma conceituada revista internacional de arte (vírgula) solicita-me a minha amiga e ex-colega (eu sei que colegas são as putas, não te rales; distinguem-se cada vez menos, a crise…) do falecido Diário de Lisboa, publicação vespertina onde tínhamos um especial condão para nos pegarmos, em acertados e invariavelmente certeiros dias, prosseguindo o convívio estabelecido, saudosos anos antes, à mesa da entrada da Cervejaria da Trindade, no passadiço d’A Brasileira, abancados no 13 da rua do Norte; pede-me a Lourdinhas, na intimidade ortográfica do nome, que lhe bata uns dois mil narcisos à pala do Zé Povinho.
O Zé Povinho?, interrogou-se a minha incredulidade electrónica ao abrir o e-mail, prontamente socorrida por um busto de louça empoleirado atrás do balcão de uma tasca manhosa. Apreciei-lhe a espontaneidade do gesto, confesso. Não posso dizer que o pedido me estragou o dia, mas passei-o sentado a observar os exemplares do Museu de Antropologia atraídos até às esplanadas pela força do astro-rei, cada vez mais preocupado com a responsabilidade de satisfazer o pedido em tempo útil – três dias, frisou bem – a lavrar considerações sobre o Zé Povinho. Ah, polvinho à lagareiro, como tu marchavas aviado pelo labrego de suíças em barro modelado – ashes to ashes –, que terá satisfeito a sofreguidão criadora de Bordalo. Minha querida Lourdes Féria (posso chamar-te Lourdettes, só para te ver os olhos felinar um bocadinho?), lamento desapontar-te, esforcei-me, não consenti que nada – e tanta coisa havia – me desviasse a atenção, mas é como te digo: Zé Povinho, já não temos; deixou de se fabricar, possíveis normas comunitárias. Em contrapartida, talvez as tuas ausências no estrangeiro ainda não te tenham permitido confirmar, que, bafejados precisamente pelas normas comunitárias, passámos a dispor de uma vasta gama, colunável até à clonagem, do Zé Parvinho. Não sei se serve, mas foi tudo o que a realidade me ofereceu sobre o tema: o Zé Parvinho. Grato pela confiança generosamente depositada na minha modesta e, por ventura, discutível conclusão. Olha, depois não te esqueças de apresentar a livreira que te encomendou o desabafo.
[Lourdettes, pirei-me para Asilah e nunca mais me lembrei de dar a volta ao texto – ocultar o lado íntimo –, mas as saudades de viajar e de ti, ficam aqui firmemente repostas e o Zé Parvinho que se lixe. Até breve, ou… cioleiter.]

Às vezes, lá calha...

«Elas já me tinham dado uma ideia dos seus costumes e quando eu via que um capricho meu iria mais além do permitido, calava-me; então procurava realizá-lo às escondidas; e em último caso, conformava-me a imaginar que o cumpria; assim, as pessoas adultas iriam por um lado, eu por outro, e estaríamos todos em paz.»

24 de junho de 2010

Breve interlúdio musical