26 de junho de 2010

À mão de ler (41)


«Bikku, apesar da sua declarada necessidade da racionalidade ocidental, tornara-se um crente absoluto nos meandros do misticismo oriental. Pareceu-me que precisava de crer neles. Tal como Karma Chang Choub, também este sentira a necessidade de encontrar um mestre e fora procurá-lo muito longe. Queria-me parecer que ele se perdera um pouco nessas andanças e que agora lhe era impossível reencontrar o caminho para casa.»

[Tiziano Terzani, Disse-me Um Adivinho; trad. Margarida Periquito, Tinta-da-China, Novembro 2009]

Às vezes, lá calha...

«Se bem que continuasse a ler, pensava na inocência com que a estátua tinha de representar um personagem que ela mesma não compreenderia.»

25 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Começou ao meio-dia

Leitura integral, em voz alta, do romance

Porque a Net fornece um novo dia

Souvenirs (10)

Estou aflitinho de todo...

S’l’m aleikum!

Chiça, não via a hora deste sossego!

À mão de ler (40)

«(...) Foi no chat que comecei a trocar impressões com a minha BarCode, uma eventual psicóloga, de prováveis trinta anos, supostamente solteira e presumivelmente disponível para amar. A bem dizer, eu não procurava amor. A bem dizer, não procurava nada. Queria apenas experimentar uma nova aventura, um novo mundo, uma realidade diferente daquela em que vivia todos os dias, mas apercebi-me que não havia assim grande diferença entre os mundos ditos virtual e real. Eram ambos preenchidos por pessoas. Logo, eram ambos desinteressantes. Desagradava-me falar com alguém sem lhe ver os olhos, sem lhe sentir o odor dos sovacos. Sabia lá eu com quem estava a falar. Era como se estivesse a falar para uma parede com capacidade de resposta. Era como se as pessoas não fossem pessoas. E isso era agradável. Por outro lado, estimulava-me bastante e dava-me confiança falar com alguém que eu sabia exactamente nas mesmas condições que as minhas, ou seja, alguém que não me podia sentir o odor dos sovacos ou olhar-me olhos nos olhos. Sendo assim, não correria o risco que tantas vezes senti de não saber onde meter os olhos quando do outro lado estão olhos que nos olham como se nós não tivéssemos olhar. (...)»
[Nick a pregar no status]

Nem sempre a lápis (48)


Estimados leitores – futuramente perturbados com o que se espraia aos vossos olhos, se não virem gorado o esforço para chegarem ao fim desta linha –, recentemente chegada de Nova Iorque, onde se terá deslocado para colher formação que lhe permita entrevistar-me para uma conceituada revista internacional de arte (vírgula) solicita-me a minha amiga e ex-colega (eu sei que colegas são as putas, não te rales; distinguem-se cada vez menos, a crise…) do falecido Diário de Lisboa, publicação vespertina onde tínhamos um especial condão para nos pegarmos, em acertados e invariavelmente certeiros dias, prosseguindo o convívio estabelecido, saudosos anos antes, à mesa da entrada da Cervejaria da Trindade, no passadiço d’A Brasileira, abancados no 13 da rua do Norte; pede-me a Lourdinhas, na intimidade ortográfica do nome, que lhe bata uns dois mil narcisos à pala do Zé Povinho.
O Zé Povinho?, interrogou-se a minha incredulidade electrónica ao abrir o e-mail, prontamente socorrida por um busto de louça empoleirado atrás do balcão de uma tasca manhosa. Apreciei-lhe a espontaneidade do gesto, confesso. Não posso dizer que o pedido me estragou o dia, mas passei-o sentado a observar os exemplares do Museu de Antropologia atraídos até às esplanadas pela força do astro-rei, cada vez mais preocupado com a responsabilidade de satisfazer o pedido em tempo útil – três dias, frisou bem – a lavrar considerações sobre o Zé Povinho. Ah, polvinho à lagareiro, como tu marchavas aviado pelo labrego de suíças em barro modelado – ashes to ashes –, que terá satisfeito a sofreguidão criadora de Bordalo. Minha querida Lourdes Féria (posso chamar-te Lourdettes, só para te ver os olhos felinar um bocadinho?), lamento desapontar-te, esforcei-me, não consenti que nada – e tanta coisa havia – me desviasse a atenção, mas é como te digo: Zé Povinho, já não temos; deixou de se fabricar, possíveis normas comunitárias. Em contrapartida, talvez as tuas ausências no estrangeiro ainda não te tenham permitido confirmar, que, bafejados precisamente pelas normas comunitárias, passámos a dispor de uma vasta gama, colunável até à clonagem, do Zé Parvinho. Não sei se serve, mas foi tudo o que a realidade me ofereceu sobre o tema: o Zé Parvinho. Grato pela confiança generosamente depositada na minha modesta e, por ventura, discutível conclusão. Olha, depois não te esqueças de apresentar a livreira que te encomendou o desabafo.
[Lourdettes, pirei-me para Asilah e nunca mais me lembrei de dar a volta ao texto – ocultar o lado íntimo –, mas as saudades de viajar e de ti, ficam aqui firmemente repostas e o Zé Parvinho que se lixe. Até breve, ou… cioleiter.]

Às vezes, lá calha...

«Elas já me tinham dado uma ideia dos seus costumes e quando eu via que um capricho meu iria mais além do permitido, calava-me; então procurava realizá-lo às escondidas; e em último caso, conformava-me a imaginar que o cumpria; assim, as pessoas adultas iriam por um lado, eu por outro, e estaríamos todos em paz.»

24 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

«Esta gente enoja-me: o tipo que demoliu a casa do Garrett foi nomeado presidente do Conselho de Administração da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva»

Souvenirs (9)

Cheguei agora, naquele ferry... Ora mostra lá a cena, ó djin desatinado;
mas lembra-te que venho do Gharb e estamos na Place de Faro
O quê?, 20 € por isto?! Já andaste a beber, sacana...
Olha, dou-te 10 dirhams (1€) e só porque ainda se consegue conversar contigo...
Vês, nem foi preciso recorrer ao tinhoso do interprete...
[reportagem de Nico]

À mão de ler (39)

[Sintonizado algures na bloga, o emissor que se identifique]

Nem sempre a lápis (47)

Um dia destes, se a BT me mandar parar e manifestar curiosidade em ver a espaçosa bagageira da carrinha, ainda me convidam a soprar no balão. A mim, que não molho o bico fez vinte e dois anos em Maio; aproveitei a solidariedade do dia e trespassei a adega aos trabalhadores, assim o afirmava, à maneira dele, Salazar: «Beber, é dar de comer a um milhão de portugueses»; ele há datas que nunca mais se esquecem. Encaldeirei-me talvez por ter ido a Lisboa levar as provas, revistas pelo revisor, de Um Pai de Filme – e não Um Pai Ausente, assim o decidiu à última da hora Antonio Skármeta e, em princípio, o autor é que sabe – e aproveitar a deslocação para assistir à apresentação do DVD & etc., de Cláudia Clemente, na fnac. Cada vez que ouço o Paulo da Costa Domingos dizer, triste e carinhoso, «o Vitor não deve aparecer, já está velhinho», envelheço de uma forma brutal, ainda privado do diminutivo. Calcorreei as ruas e avenidas com pisar flâneur recuperado no Sul e em Asilah, a ver a cidade ao telemóvel, secretária febril de sms, embandeirada, estridente, plasmada em plasmas, suja, desleixada, pretensiosa, linda de se morrer, a pé e de sandálias, invadida de mochilas e de ténis e de botas radicais e insuportáveis, dissecada e aberta no plano, no mapa, na radiografia, segura por mãos indecisas, e eu a ver, trocando o olhar pela curiosidade de quem me olhou, alguém sugeriremos a quem nos sugere; um dia destes, lembrava eu, a BT ainda me manda soprar no balão, apenas porque não há meio de trazer para casa uma chapa esmaltada, um reclame, dos Vinhos Abel Pereira da Fonseca, com um Sol que vi estampado nas bandeiras da Argentina; ocupação selvagem do marketing. Parece que havia futebol, mas nenhum pombo me cagou em cima enquanto bebi um café, caríssimo, na esplanada do Nicola, a fazer de conta que estava em Barcelona, talvez por causa das barras azuis das bandeiras; daltónico quanto convém. Como não gosto de televisão, não posso dizer mal da programação; obrigado Cossery, vieste mesmo a calhar. Vim para casa, onde me encontro; a noite está serena, as mariazinhas crescem no vaso, entre as pedras. É o meu Rif, em miniatura; iluminura.

Às vezes, lá calha...

«O vento Norte brandinho
faz andar o mar picado»
(Tradicional da ilha Terceira, Açores)

23 de junho de 2010

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Souvenirs (8)

Deixózir... Incrível, precisão de ferry!,
e uma horinha metida ao bolso, fiufiu...

À mão de ler (38)

«Raramente a humanidade se encontrou, como hoje, privada de figuras inspiradoras, de faróis orientadores. Onde está um grande filósofo, um grande pintor, um grande escritor, um grande escultor? Os poucos que nos vêm à mente são sobretudo fenómenos de publicidade e de marketing
[Tiziano Terzani, Disse-me Um Adivinho; trad. Margarida Periquito, Tinta-da-China, Novembro 2009;
foto: sugestões do manuel]

Nem sempre a lápis (46)

À medida que vou esgotando as anotações escritas na casa de ninguém, é curioso verificar como cheguei a Asilah num pulo e acabei por não fazer nada do que parecia ter planeado; não tenho jeito para programas. Não fosse uma foto desmentir-me, diria que me sentei no terraço em frente do quarto para fumar e pintar de cabeça e sentir a Torre de Menagem nas minhas costas e ouvir as rolas na açoteia ao lado e ver o movimento na rua paralela à muralha, até lá acima, até onde a vista alcança e o coração continua; só ele conhecia. Não abri um livro; Terzani serviu de altura para o portátil respirar enquanto descarregava fotos ou ouvia música; abri o bloco lá fora para desentorpecer a lapiseira e guardar bilhetes de autocarro para outras leituras; não parei em Tânger no regresso, fui da gare para o porto de petit-taxi; a Librairie des Colones estava fechada para obras e inventariação de fundos e em Sevilha, era domingo. Passei o tempo a passear pela Medina, sentado nas esplanadas dos café au kif, numas a ver e noutras a jantar; o dente recusou-se a deixar atirá-lo ao mar do terraço da antiga mesquita; comprei um chapéu de palha do Rif por um euro e meio, ao teu cuidado; uns tinhosos de uns putos foram por trás de mim e atiram-me a garrafa de água ao chão, e tu riste-te; deixei pendurado o velhote que foi a casa cortar kif «do dele», por uns míseros dois euros, sentado a fumar sebsis oferecidos pelo impaciente comunicativo Abdo, no passeio acima do mercado. Na última noite, deu-me a fraqueza por volta da uma da manhã e subi a rua com mais de metade das esplanadas cheias de filósofos; entrei num local aberto e tirei uma mesa de cima de outras para beber um café com leite, a ver um combate de boxe parecido com um concerto, com o que deve ser um rock in rio; agradeci com um sorriso um sebsi discreto que já não aceitei, oferecido por uns putos que me fizeram lembrar Terzani: «Adoro estes personagens. Um bocado exibicionistas, um bocado velhacos e gabarolas, mas ao fim e ao cabo também calorosos.» Desta vez trouxe comigo Bartleby & Companhia; aproxima-se a vez de copiar Dublinesca, de voltar a escrever a meias com Vila-Matas.