29 de junho de 2010
Porque a Net fornece um novo dia
Sábado, 10 de Julho, das 10 às 19h
no Largo da Achada
Uma feira de livros usados, muitos deles difíceis de encontrar, discos em vinil, cêdês vários, objectos com marcas de época de vários estilos. Uma feira onde será possível comprar obras de arte. Ver algumas aqui. Haverá mais serigrafias e desenhos.
Uma feira animada por jogos para grandes e pequenos, fotografias «à la minute» e outros fabricos.
Uma feira onde se poderá beber e comer. E conviver.
Tudo oferecido à Casa da Achada - Centro Mário Dionísio para angariação de fundos. Quem quiser oferecer mais coisas, ainda vem a tempo. Até 7 de Julho.
Durante a feira, haverá, na Casa da Achada:
- uma visita guiada por Eduarda Dionísio à exposição «50 anos de pintura e de desenho», com obras de Mário Dionísio e artistas seus amigos (Abel Salazar, Cunhal, Júlio, Pavia, Pomar, Portinari, Resende, Vieira da Silva, etc.), às 16h.
- uma sessão «Direis que não é poesia» com Elisabete Piecho, que brincará com poesia, a partir de textos de Mário Dionísio e outros, às 17h30.
A feira encerrará às 19h com o Coro da Achada a cantar no Largo da Achada.
À mão de ler (44)
«Os fotógrafos não entraram, mandaram Tita Recasens para a casa de banho, e o senhor Santiago Vilabrú Cabestany (dos Vilabrú-Comelles e dos Cabestany Roure) assinou tudo em pelota. O primeiro ponto do acordo referia-se à adopção, pelo casal Vilabrú e Vilabrú, de um menino chamado Marcel, de pais desconhecidos.
– Onde o foste desencantar?
– Não é da tua conta.
– Mas que história vem a ser esta?
– Tu assina aqui e cala-te.
Gasull deu-lhe a caneta e Santiago Vilabrú teve de utilizar a cama do amor e do pecado para assinar o papel onde expressava, em pêlo, o seu desejo de adoptar esse bebé.
– O que é que me estás a fazer?
– O que mesmo que me tens andado a fazer desde que voltámos. E ainda antes.
Bom, o segundo documento referia-se à beneficiária testamentária, a senhora Elisenda Vilabrú Ramis (dos Vilabrú de Torena e dos Ramis de Pilar Ramis de Tírvia, meia puta, meia melhor não falarmos nisso por respeito para com o pobre Anselm), da fortuna do senhor Santiago, avaliada em cinco casas de habitação em Barcelona, um considerável punhado de hectares no vale de Ássua e noutros lugares da comarca e um capital de aqui te espero, mas que diminuía, embora não de maneira alarmante, porque o senhor Santiago Vilabrú Cabestany (dos Vilabrú-Comelles e dos Cabestany Roure) tinha decidido que era mais cómodo viver das rendas. Assinado em El Nidito, no dia vinte de Novembro de mil e novecentos e quarenta e quatro.
Gasull pegou na caneta, como se temesse que ele a guardasse num lugar impossível.
– É melhor não voltares a pôr os pés em Torena – disse-lhe ela –. Se tiveres de lá ir, avisa-me.
– Tenho o direito de lá ir sempre que quiser – lembrou-se de repente, como se tivesse piada –. Para ver o meu filho, não?
– Comprei um andar em Barcelona. Tu deixa-te estar no apartamento de Sarrià e tenta nunca mais ires a Torena. Nem ver o meu filho.
– Vai receber uma cópia da acta notarial – informou o notário Carretero sem entusiasmo.
– Atiro-a ao lume.
– Pode fazê-lo à vontade. – Olhou-o nos olhos e, pela primeira vez durante a tarde toda, sorriu e abanou a cabeça –: Vai-o fazer sentir-se melhor. – Para Elisenda –: Por mim, estou pronto, senhora.
– Podem continuar – disse, amavelmente Elisenda –. Queres que te recorde onde é que iam?»
Nem sempre a lápis (49)
Desde que activei o blogue, há dois meses e pouco, fui-me afastando do espírito anotador de citações; não por acaso, comecei o ano a braços com a então gravidade de não dispor de uma citação que lhe abrisse o mês. Quando nada me faz tropeçar durante a tradução ou a leitura em mãos, recorro às que fui coleccionando ao longo de ano meio em O Cheiro dos Livros, como abertura de cada edição da minha revista, da minha presença electrónica; chamemos-lhe editorial: às vezes, lá calha... E calha ocorrer-me o desinteresse conquistado pela work in progress – o meu livro póstumo, na intimidade apaparicada da solidão –, não anotando citações publicadas no blogue para não falsear a sequência cronológica e tão somente mensal da coisa destinada à impressão doméstica. Ganhará um, outro perderá, é a lei natural das coisas; a natureza intrínseca da permuta, enquanto comunicante. Terminada a minuciosa revisão de Hernández, o suficientemente para a entregar ao cuidado e à impiedade do revisor, arquivado o original fotocopiado e o da tradução, passei o fim-de-semana refugiado na toca a navegar até me doerem os olhos; fui pôr a carrinha a trabalhar, parada há duas semanas; ocupei o lugar vazio de Contos Reunidos com as folhas fotocopiadas de Dublinesca (Vila-Matas) para preparar a tradução. Comecei por fazer o trabalho da praxe: abrir a página de rosto, badanas, contracapa, dedicatória e citação se a houver, para no dia seguinte me entregar ao miolo. Mas foi mais forte a tentação de copiar o primeiro período, também começado em Maio, para corrigi-lo no espaço público do blogue, onde se encontra agendado após o ciclo dedicado ao encontro sobre a tradução de As Vozes do Rio Pamano (Jaume Cabré), integrado numa curiosa parceria entre a Pó dos Livros e Catalunya Apresenta. E foi deitado, a esmifrar a vertiginosa aproximação do final de Disse-me Um Adivinho, que guardei para mim esta comovente citação de Tiziano Terzani: «À noite – não sei se o sonhei ou se o imaginei de olhos abertos – vi-me deitar fora um dicionário com que trabalhara até então e pegar noutro que só tinha palavras positivas.»
Às vezes, lá calha...
«Eu estava destinado a encontrar-me só com uma parte das pessoas, e ainda por cima por pouco tempo e como se eu fosse um viajante distraído que tão-pouco soubesse para onde ia.»
28 de junho de 2010
... e não só
«Entre 1967 e 1993, Alberto de Lacerda leccionou em universidades americanas, primeiro em Austin (no Texas), depois em Nova Iorque, por último em Boston, onde esteve a partir de 1972. Durante esses vinte e seis anos, passava um semestre de cada lado do Atlântico. Um dia, já depois do 25 de Abril, o dirigente máximo do organismo (o Instituto de Alta Cultura) que em Portugal garantia a logística dos docentes portugueses no estrangeiro, descobriu que Alberto de Lacerda não tinha habilitação própria, ou seja, licenciatura. E não hesitou: mandou rescindir o contrato. As autoridades académicas americanas não queriam acreditar que o “seu” professor de Poética fosse posto de lado por tal motivo. E fizeram o óbvio: contrataram-no directamente.»
À mão de ler (43)
«Gasull meteu a chave na fechadura e abriu. Entraram os três de repente no quarto. O senhor Santiago Vilabrú Cabestany (dos Vilabrú-Comelles e dos Cabestany Roure) estava a praticar um elaboradíssimo cunnilingus a uma mulher jovem e exuberante, que Elisenda reconheceu imediatamente como a puta assanhada da Recasens. Tita, a irmã de Pili, sim, a Milonga, como lhe chamavam.
O senhor Santiago, nu e com o sexo a postos, voltou-se assustado. Empalideceu quando viu a sua querida esposa, que havia já um par de meses ou mais que não visitava, tirar o véu do rosto e avançar em direcção a ele e Tita Recasens, que nesse momento fechava as pernas, ainda desorientada. Santiago Vilabrú tapou o sexo decrescente com as duas mãos, enquanto Tita saltava da cama com a intenção de desaparecer.
– Tu não te mexas – disse Elisenda, autoritária.
O casal furtivo estava tão surpreendido que não fazia a menor ideia como contra-atacar. Tita não se mexeu e Santiago manteve-se de pé, pálido, vermelho, verde, desejoso de estar noutro sítio.
– Agora – disse Elisenda – vais assinar umas quantas coisas.
– O que é que se passa? O que é que queres?
– O senhor Carretero – anunciou apontando para o homem gordo – está a lavrar a acta notarial da situação.
– Queres chantagear-me…
– Não sei. – Para Tita Recasens –: O meu marido vem aqui duas vezes por semana. Uma vez contigo e a outra com uma prostituta. – Com um sorriso amável –: Tem cuidado não te tenha pegado alguma doença, porque gosta de bacanais.
– És uma…
– Sim. Queres que te diga o que é que tu és?
– Um momento, que me vou vestir.
– Não. Tu ficas aqui e quieto.
– Nem pensar.
– Muito bem. – Elisenda para Tita Recasens –: A tua maquilhagem aguentou-se, rainha? – E num tom seco, para Gasull –: Os fotógrafos que entrem.»
foto: Jaume Cabré com Yuri Jívago um dos protagonistas de As Vozes Do Rio Pamano]
27 de junho de 2010
À mão de ler (42)
«Madame Corine (Pilar Mengual, fora do trabalho) olhou para a mulher e os seus dois acompanhantes com os olhos inquietos. Não distinguiu o rosto da senhora porque levava um véu escuro que lhe cobria as feições.
– Estão conscientes de que se aceito, perderei um cliente?
– Estou-me nas tintas para os seus problemas laborais – disse, pálido, o advogado Gasull enquanto depositava um pouco de cinza no pires.
– Mas eu, não. – Levantando a voz –: Mas o senhor julga que…?
– Se se recusar – interrompeu-a Gasull com suavidade, sem a olhar nos olhos e dando uma fumaça –, só avisaremos a polícia, dizemos-lhe que El Nidito existe, apesar das proibições explícitas do Caudilho, e damos-lhe a direcção. Provavelmente, a primeira coisa que irão fazer será mandar-lhe um pelotão de falangistas indignados para que destruam tudo, e só depois chegará a polícia demasiado tarde e, quando aqui estiverem, contamos-lhes o se passou no Natal com aquela rapariga galega. – Tirou um fio de tabaco e sorriu para a madama –: É a nossa contraproposta.
A madama, pálida de raiva, levantou-se, dirigiu-se a um pequeno armário, abriu a porta com uma chave que tinha com ela e tirou outra chave. Brilhava uma etiqueta com o número quinze e o coração de Elisenda deu-lhe um baque.
– Segundo andar. – Gasull quase lha arrancou dos dedos –. E por amor de Deus, não façam barulho.
O homem gordo piscou o olho choroso de modo quase imperceptível à senhora do rosto velado e os três abandonaram a sala do Nidito rumo à escada que conduzia ao segundo andar.
– Estou-me a cagar para as senhoras que são mais putas do que as putas – resmungou a madama, enquanto os convidados abandonavam a sala. Pararam os três de repente.
– O que é que disse? – perguntou o homem gordo com um tom de ameaça bem forte.
– Também me vão proibir de barafustar? – A madama tinha levantado a voz, sem se intimidar.
– Deixem-na – ordenou a senhora Elisenda dirigindo-se para a escada. Os dois homens seguiram-na, depois de olharem para a madame Corine com o pior olhar que tinham no catálogo.»
Às vezes, lá calha...
Arrumo os livros; desfaço o saco, penduro a roupa nas costas das cadeiras. Um roupeiro é muito tempo.
26 de junho de 2010
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