31 de março de 2012

30 de março de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Os escritores devem encontrar consolo no facto de não haver uma primeira história original nem uma história derradeira.»
(Alberto Manguel)

«É bom trabalhar nas Obras» (109)

«Essa tarde tinha combinado jantar em casa de Alejandro Zambra, escritor e meu amigo. Quando cheguei, contei-lhe a história e pedi-lhe que me acompanhasse ao apartamento daquela mulher. Não era longe de onde ele vivia e aceitou de bom grado. Quando a mãe de Ximena abriu a porta, vi o quadro na parede maior da sua sala. Tratava-se de uma pintura com um poder de atracção igual ao que pode ter um rosto com muito magnetismo. Pelo menos, foi esse o efeito que teve sobre mim. Era, efectivamente, um retrato da nossa árvore, se é que as árvores pertencem a alguém. Sobre as pedras vulcânicas, as silhuetas de algumas crianças sentadas de frente ou de costas, cujos rostos não se conseguiam ver com nitidez; crianças meditabundas que não brincavam, nem sozinhos nem entre si. Crianças como ela e como eu. A pintura emocionou-me até às lágrimas. De repente, revivi a sensação de desamparo constante daqueles anos, mas, tal como nesse tempo, em que o choro em frente dos outros era a última coisa que me permitia, contive-me. Os comportamentos adquiridos durante a infância acompanham-nos sempre, e embora tenhamos conseguido, à custa de uma grande vontade, mantê-los à margem, agachados num lugar tenebroso da memória, quando menos esperamos atiram-se-nos à cara como gatos enfurecidos. Entretive-me a olhar as outras pinturas que a mãe de Ximena me mostrava e a responder delicadamente às perguntas que me fazia. A conversa não foi longa. Creio que nenhuma das duas estava disposta a abrir a comporta das emoções com medo do caudal que teria caído em cima de cada uma; era mais como o assomar das pontas de dois icebergues em movimento submarino. Embora fosse o meu dia livre, estava em viagem de trabalho, e não queria entrar nessa zona de vulnerabilidade que se impõe cada vez que invoco com palavras todas essas recordações e da qual levo vários dias a sair. Também não desejava magoá-la e pô-la num estado semelhante. Naquela casa, Alejandro e eu tomámos um chá e falámos de literatura, deixámos o meu filho brincar com um tambor marroquino que havia por ali. Fiquei a saber que Paula, a sua outra filha, também tinha voltado para Santiago, que tinha sido mãe como eu e era fã de Manu Chao. Depois, fomos embora. Sem deixar mais rasto do que um chupão esquecido.»
[Guadalupe Nettel, O corpo em que nasci; em tradução para a Teodolito;

Papiro do dia (203)

«As alterações impostas à força na língua são concretizadas de forma muito mais subtil e gradual, através do uso deliberadamente erróneo de certas palavras desprovidas do seu sentido radical e também através do artifício dos slogans ao modo publicitário e da utilização inteligente de trocadilhos e segundos sentidos. Deste modo, a linguagem literária (ambígua, aberta, complexa, infinitamente passível de enriquecimento) pode ser suplantada pela da publicidade (breve, categórica, imperiosa, final), de forma que acabem por ser dadas respostas em vez de serem formuladas perguntas e a gratificação instantânea e superficial assuma o lugar da dificuldade e da profundidade.
Não são apenas os slogans publicitários e o discurso oficial que vão beber a este uso distorcido da língua. Há também um tipo de literatura que pode ser criado a partir deste vocabulário castrado – é fácil aos leitores e aos escritores serem seduzidos pela sua estética cómoda. Embora o efeito intrínseco de tal obra seja político, o seu objectivo ostensivo é simplesmente divertir: um “produto cultural”, como começou a ser chamado no século XX. O estado actual da indústria livreira é sintomático dos efeitos desta forma subtil de censura.»
[Alberto Manguel, A Cidade das Palavras; trad. Maria de Fátima Carmo, Gradiva, Junho 2011;
vocabulário]

28 de março de 2012

27 de março de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia


Às vezes, lá calha...

«Entre os Esquimós, os territórios da vigília e dos sonhos constituem a única geografia; a paisagem, por seu turno, não tem presença imaginativa. Foi muitas vezes observado que a noção de paisagem é uma concepção urbana e que os que vivem no exterior das cidades não fazem distinção entre uma natureza englobante e um pano de fundo para a acção humana.»
(Alberto Manguel)
[TGV

«É bom trabalhar nas Obras» (108)

«Ximena pintava a óleo. Tinha-a visto umas duas vezes concentrada em frente do seu cavalete, naquele quarto que se me revelava em parte, graças ao limitado aumento dos meus binóculos. Que relação tinha com a sua família?, em que colégio andava e como de dava com os seus companheiros de aulas? Esta e outra dezena de perguntas eram as que me ocorriam à noite, enquanto a via do meu quarto. Também gostava de encontrar afinidades entre nós as duas, para além da localização das nossas janelas, como a cor do nosso cabelo e o facto de, para nenhuma das duas, a infância ser um mar de rosas.
Uma tarde, em que me sentia especialmente triste e necessitava com urgência de me encontrar com ela, assomei à janela antes da hora, para ver se a via por acaso, nem que fosse de passagem, atrás das cortinas do quarto. Então, notei que havia fogo no apartamento dela. Abri de repente a porta do meu quarto e gritei à minha avó para chamar os bombeiros. Recordo que saí a correr para a rua e subi ao montículo sobre o qual estava a árvore e esperei que chegassem. Então dei-me conta: a imagem não era a de um incêndio habitual com o fogo a sair pelas janelas, mas um espectáculo muito mais discreto. As chamas formavam uma silhueta semelhante à de uma árvore de natal. Depois de um tempo insuportavelmente longo, ouviram-se as sirenes e com elas vimos aparecer o camião dos bombeiros. Também chegou uma ambulância que retirou Ximena numa maca. Soubemos depois, que ela própria se tinha banhado com dissolvente para óleo e se chegou o fogo no quarto. A notícia saiu em todos os jornais. Alguém pronunciou a palavra 2esquizofrenia”. Para mim, a explicação era simples: Ximena tinha resolvido fugir, de uma vez por todas, do cativeiro da sua vida.»
[Guadalupe Nettel, O corpo em que nasci; em tradução para a Teodolito;
lolita]

Papiro do dia (202)

«A 12 de Setembro de 1918, Franz Kafka, de trinta e cinco anos, padecente há muito da tuberculose que acabaria por condená-lo, recusou-se a dar entrada no sanatório ao qual os médicos o queriam confinar e, em vez disso, partiu para a aldeia de Zürau, onde vivia a sua irmã Ottla. Um mês após a sua chegada, recomeçou a escrever: não contos nem um novo romance, mas reflexões, fragmentos de pensamentos e aforismos que seriam publicados em 1931, sete anos volvidos sobre a sua morte, pelo seu amigo Max Brod, sob o título Meditações sobre o Pecado, o Sofrimento e a Esperança. Entre esses fragmentos, dois em particular parecem complementar-se e quase contradizer-se. O primero, com o número 18, afirma: “Se tivesse sido possível construir a Torre de Babel sem a subir, ela teria sido permitida.” O segundo é o número 48: “Acreditar no progresso não significa acreditar no progresso já feito. Isso não seria crença.” O primeiro aforismo parece considerar que não foi a construção da Torre de Babel que desencadeou a ira divina, mas o desejo de atingir logo o Céu, no presente dos construtores; este desejo (uma forma de crença, sugere o segundo aforismo) está condenado a ser enunciado no tempo futuro. Nas palavras de Kafka, para ser eficaz, a linguagem em que enunciamos as nossas crenças tem de nos levar em frente, na direcção de algo ainda não realizado.»
[Alberto Manguel, A Cidade das Palavras; trad. Maria de Fátima Carmo, Gradiva, Junho 2011;
viajar]

26 de março de 2012

25 de março de 2012

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...




«Ler é um trabalho de memória que nos permite, através das histórias, desfrutar da experiência passada de outros como se fosse nossa.»
(Alberto Manguel)

Nem sempre a lápis (269)

Já tinha calcorreado seca e meca quando os meus passos deram com este sentido único, indicado pela bloga: «Como se as pernas tivessem sido feitas para nos sentarmos em cima delas, e não estarmos de pé ou a andar.» Prossegui o caminho, agora no encalço do título de Thoreau, convicto de que há livros que fazem bem. Espreguiçado o reconhecimento dos trilhos da infância e da juventude – confinados à vila de Mortágua e à tentação de me apear nas Amoreiras e desembocar no Príncipe Real –, a velhice viria a revelar-me bairros insondáveis de Portimão, vielas de Lagoa com gatos à porta de locais com ardósia, valetas de Porches entupidas com pétalas de amendoeira e o campo que o prazer de caminhar descobre, animado pelos cães. E, aventurando cada vez mais o olhar, seguido pela surpresa dos passos, marco ramos podados e deitados abaixo pelo tempo que arrasto até casa ou serro no local, entretido a andar à lenha. Aguardo a todo o momento o livro na caixa do Correio, se o volume da embalagem calibrado pelo olhar motorizado do carteiro, não decretar que vá ao posto local do outro lado da estrada, onde caminhar é uma atitude suicida. «Levava um aviso para levantar um livro no bolso da camisa», digamos assim.

Papiro do dia (201)

«“Porque estamos juntos?”, a sua resposta foi: “Qual é a alternativa?” Claro que não há alternativa. Para o melhor e para o pior, somos animais gregários, condenados ou abençoados a vivermos juntos. A minha pergunta não implica a existência de uma alternativa; ao invés, procura saber quais os benefícios e males dessa união e como conseguimos traduzir esta imaginação de união por palavras.
Descobri que, com o passar dos anos, a minha ignorância em incontáveis áreas – antropologia, etnologia, sociologia, economia, ciência política e muitas outras – se foi aperfeiçoando enquanto, ao mesmo tempo, a prática de uma vida de leituras aleatórias me legou uma espécie de lugares-comuns em cujas páginas encontro os meus pensamentos nas palavras de outros. No reino das histórias sinto-me um pouco mais à-vontade e, uma vez que as histórias, ao contrário das formulações científicas, não esperam (na verdade, rejeitam) respostas claras, posso deambular neste território sem me sentir forçado a fornecer soluções ou conselhos.»
[Alberto Manguel, A Cidade das Palavras; trad. Maria de Fátima Carmo, Gradiva, Junho 2011;
foi-se a luz]

24 de março de 2012

Não se faz...

23 de março de 2012