21 de maio de 2011

Nem sempre a lápis (166)

Dei o carmim, com trincha lenta e diluída, sobre um cartão recuperado. «Raramente se fez um tão estudioso elogio da preguiça intelectual» (Olivier Rolin). Hoje, já não devo dar o branco a envolver o território; sem marcos. Ontem, fartei-me de pintar de cabeça. Só sosseguei quando peguei em A Louca da Casa; acordado com óptimas notícias, da Teodolito. Sem surpresa minha, há mais de três anos que esperava, o meu editor literário regressa ao activo. Não se vai encontrar com Vila-Matas, por não estar, mas veremos se traz de Barcelona o que Samuel Riba, o seu colega de Dublinesca, não encontrou; uma coisa é certa, Perder Teorias. Foi uma decisão lenta, ao fim da tarde, que me reteve em casa a tirar os agrafos do cartão e a prepará-lo para exercitar a cor, sobre a mesa folgada da sala. Forrei-a com um saco para o lixo, demorei a encontrar os boiões de tinta e os pincéis, sempre os mesmos, a utilizar a curto prazo: carmim, verde, preto, branco; finalmente o branco, em branco, que te ofereço. Sem me dar conta, talvez as giestas húmidas, na colina em frente, estejam na origem da mudança de atitude enquanto apanhava a roupa; caídas as flores da amendoeira, vistas o ano passado. Ao contrário da escrita, a pintura não se grafita.

2 comentários:

ZMB disse...

"Ao contrário da escrita, a pintura não se grafita."

Não necessáriamente,
existe a poesia visual do João Vieira e acho que também da Ana Hatherly em Portugal.
Lá fora e noutro registo pessoas como Basquiat e Keith Haring.
Existe pintura feita no instante e há quem diga que o pintor almeja a criar num só instante a obra prima, aquela que muitas vezes diz não se recordar do processo de pintura. algo como: não mexas mais, está terminado, não toques que podes arruinar o quadro.

fallorca disse...

:)