A minha disposição para descascar um saco de favas, de ervilhas, uma terrina de grão-de-bico, foi sempre olhada com indisfarçável estranheza. E eu, «cheguem-me mais», a endireitar as costas. Em A Condição Humana, Hannah Arendt sossega eventuais preocupações, toleraradas como pancas zen.
22 de janeiro de 2012
Papiro do dia (176)
«O militar que cuspiu olha determinado e não vacila apesar de lhe doer a perna direita. A perna direita dói-lhe, assim que se aproxima uma coisa grande de mais para ser vista pelos olhos. Ele chama-lhe a perna adivinha. A este militar, a vida já tinha ensinado coisas suficientes para confiar na perna defeituosa, e não guardar ilusões no coração.»
21 de janeiro de 2012
20 de janeiro de 2012
Às vezes, lá calha...
«O leitor olha ou não olha, vai lê-lo ou não vai lê-lo, é uma coisa que só lhe diz respeito. Depois… acabou-se, só resta ao autor desaparecer.»
(Céline)
Nem sempre a lápis (254)
No meu país morrem poetas com menos de 40 anos.
De que morre um poeta com 39 anos?
Papiro do dia (175)
«A implosão das igrejas é outro passo certo dado em direcção a um estado social que não desperdiça. O reino da Igreja não é deste mundo. E, se ao mundo não pertence, nele não se deve edificar. Plantar raízes. A fé não nasce de um edifício nem se desenvolve nos volumes da arquitectura. É insensato ocupar desnecessariamente metros quadrados públicos com tais pretextos metafísicos. Metros que, usados de forma racional, podem ser rentabilizados noutras matérias. Pois, se existe a fé, e ela se mostra consistente perante a adversidade, então que Deus e o seu séquito ocupem apenas a carne daquele que nele acredita. Fora da carne, Deus perde compostura, ideias e emoção. É pernicioso e um claro sinal de desobediência, já para não falar numa alta arrogância, fundar alicerces metafísicos fora do único templo sagrado; do único templo que pode ser reconhecido como um espaço de fé, que é a carne de quem reza. É chegado o tempo, pois, de fazer implodir todos esses tijolos e frontispícios pretensiosamente divinos.»
[Sandro William Junqueira, Um piano para cavalos altos; Caminho, Dezembro 2011]
19 de janeiro de 2012
18 de janeiro de 2012
«É bom trabalhar nas Obras» (96)
«Inspirado na infância da autora, O Corpo Em Que Nasci é a história de uma menina que nasceu com um defeito num olho. A sua vida, durante os anos setenta, vê-se influenciada pela sua visão limitada, mas também pela ideologia dominante nessa época: o casamento aberto dos seus pais, as escolas activas, as comunas hippies, a liberdade sexual e o respectivo envolvimento. As diferenças físicas e psicológicas que a distinguem, fazem com que a protagonista se identifique com os seres que vivem à margem das modas e das convenções sociais.
Escrita em jeito de solilóquio no divã de um psicanalista, a narradora torna-nos cúmplices das suas recordações mais íntimas e das interpretações que faz da sua própria vida. Trata-se de uma história cheia de senso de humor, mas também de realismo, em que o mundo infantil se apresenta muito mais abominável do que parece à primeira vista.
Um romance de iniciação à vida e à literatura, um bildungsroman situado entre a América Latina e a Europa, nas suas facetas menos óbvias. O exílio sul-americano, a emigração magrebina, as prisões da Cidade do México, constituem parte do contexto deste comovente romance, que percorre o caminho de volta à dignidade e à aceitação de nós próprios.
Guadalupe Nettel confirma com este romance, o que a crítica saudou desde a sua estreia: que é uma das revelações em língua espanhola da última década.
O escritor colombiano Juan Gabriel Vasquez, por exemplo, afirmou: «Há muito tempo que não me encontrava, na literatura da minha geração, com um mundo tão pessoal e intransmissível como o de Guadalupe Nettel.»
[Guadalupe Nettel, O Corpo Em Que Nasci; em tradução para a Teodolito]
Papiro do dia (174)
«Aprender
Uma criança que ainda não sabe escrever diz que odeia os pais.
E quer escrever isso no papel: que odeia os pais.
Sabe algumas letras, mas ainda não sabe escrever. Pergunta à mãe como se escreve o nome dela e o do pai. A mãe diz-lhe, soletra, explica. Depois o menino pergunta como se escreve odeio-vos. A mãe hesita, mas depois soletra, explica, ajuda a desenhar as letras.»
[Gonçalo M. Tavares, Short Movies; Caminho, Novembro 2011]
17 de janeiro de 2012
16 de janeiro de 2012
Nem sempre a lápis (253)
Anotados quatro capítulos desprevenido, recupero da recaída da intromissão de A mulher descalça. Fui à praia e os dias germinam, devagar; os cães conduzem o passeio pelo faro, não sou de levar a escrita à rua.
Papiro do dia (173)
«A sua memória deu-me muito que pensar. Os indícios que me permitiam julgá-la fizeram-me imaginar uma ginástica intelectual única no mundo. Não se tratava, nele, de faculdade excessiva – mas educada ou transformada. Vejam-se palavras suas: “Há vinte anos que não tenho livros. E também queimei os meus papéis. Agora risco directamente na carne-viva… Retenho o que quero. Mas difícil não é isso. É reter aquilo que amanhã vou querer!... Andei à procura de uma instintiva peneira…”
De tanto pensar nisto, acabei por concluir que o Sr. Teste descobrira leis do espírito que ignoramos. Por certo passara anos a investigá-las: e mais certo ainda era ter destinado outros, muitos anos, a amadurecer as invenções que tinha feito para fazer com elas os seus instintos. Encontrar, nada é. Difícil é acrescentar a nós próprios o que encontramos.
A delicada arte da duração, o tempo, como se distribui e o seu regime – como é gasto em coisas bem escolhidas para as alimentar, especialmente – era uma das grandes procuras do Sr. Teste, muito atento à repetição de certas ideias; fixava-lhes o número. Servia-lhe isto para tornar finalmente instintiva a aplicação dos seus estudos conscientes. Chegava a resumir esse trabalho. Era vulgar dizer: “Maturare!...”
Por certo a sua singular memória retinha pouco mais do que essa parte das nossas impressões que a imaginação não pôde, sozinha, construir. Se imaginarmos uma viagem de balão, com sagacidade e força podemos produzir muitas sensações prováveis do aeronauta; mas na ascensão qualquer coisa há-de haver, no entanto, que é individual e cuja diferença perante o nosso devaneio exprime o valor dos métodos de um Edmond Teste.
Bem cedo este homem soube a importância daquilo a que podemos chamar plasticidade humana. Investigara-lhe os limites e o mecanismo. Como ele devia pensar na sua própria maleabilidade!
Eu vislumbrava sentimentos que me faziam estremecer, uma obstinação terrível em experiências inebriantes. Ele era o ser absorvido na sua variação, aquele que se transforma no seu próprio sistema, o que se entrega inteiro à disciplina assustadora do espírito livre e mata com as suas próprias alegrias as alegrias que tem, a mais fraca com a mais forte – a mais suave, a temporal, a do instante e da hora começada, com a fundamental – com a esperança da fundamental.
E sentia-o senhor do seu pensamento: escrevo aqui este absurdo. A expressão de um sentimento é sempre absurda.
O Sr. Teste não tinha opiniões. Julgo que se apaixonava como queria, e para atingir determinado fim. O que fizera da personalidade? Ele próprio não se via?... Nunca ria, no seu rosto nunca havia um ar de infortúnio. Tinha ódio à melancolia.»
[Paul Valéry, O Senhor Teste; trad. Aníbal Fernandes, Relógio d’Água, 1985]
15 de janeiro de 2012
14 de janeiro de 2012
Às vezes, lá calha...
«Imagina, por favor, duas pessoas baptistas a flutuarem pelo Mississípi abaixo sem nada vestido a não ser umas ceroulas. És capaz de os visualizar a provocar um fervor molhado sobre o Antigo Testamento?»
(Henry Miller)
Nem sempre a lápis (252)
Vim a casa umas quantas vezes e cheguei a ir ao Porto; Portimão tem sido a minha base, nos últimos tempos. Dou por mim sentado na aviadora, com os cães ao colo a fazer os deveres. Olho lá para fora e o Sol é o mesmo que bate no sofá, lá em baixo; outra, a luz.
[luz]
Papiro do dia (172)
«A tolice não é o meu forte. Vi muitos indivíduos; visitei várias nações; tomei parte em cometimentos vários de que não gostei; quase todos dias comi; e de mulheres também tenho que contar. Revejo agora as centenas de caras, dois ou três espectáculos, e talvez a substância de vinte livros. Não retive o melhor nem o pior das coisas: ficou como pôde.
Esta aritmética poupa-me o espanto de envelhecer. Poderia igualmente contar os vitoriosos momentos do meu espírito, imaginá-los juntos e isolados, a formarem uma vida feliz… No entanto, estou em crer que me julguei sempre bem julgado. Raramente me perdi de vista; detestei-me, adorei-me; – depois envelhecemos juntos.
Supus muitas vezes que tudo estivesse acabado para mim, eu estivesse a terminar-me com todas as forças, ansioso por esgotar, esclarecer, qualquer dolorosa situação. Fez-me isto saber que apreciamos muito excessivamente o nosso pensamento, segundo a expressão do pensamento alheio! Desde aí, os biliões de palavras que andaram a zumbir-me nos ouvidos muito raro me abalaram por aquilo que se queria fazê-las dizer; e as que eu próprio disse a outros senti sempre que se faziam distintas, todas, do meu pensamento; – por ficarem invariáveis.
Decidisse eu como decide a maior parte dos homens, e não só haveria de julgar-me como parecer-me superior a eles. Preferi-me. Ser superior chamam eles a um ser que se enganou. Para nos causar espanto há que vê-lo – e para ser visto tem de se mostrar. E mostra-me então que é invadido pela mania simplória do seu próprio nome. Por isto, cada grande homem fica maculado com um erro. Todo o espírito que achamos forte começa pelo erro que o revela. Em troca da gorjeta pública concede o necessário tempo para se fazer perceptível, transmitir-se a energia dissipada e preparar a satisfação alheia. Chega ao ponto de comparar os informes jogos da glória com a alegria de sentir-se único – grande, singular volúpia.
Divertia-me apagar a história conhecida por baixo dos anais do anonimato. Invisíveis na sua vida límpida, quem sabia sempre antes dos outros eram pessoas solitárias. Parecia-me que duplicavam, triplicavam, multiplicavam na escuridão cada pessoa célebre – elas, desdenhosas de revelarem a sua boa sorte e os particulares resultados que tinham obtido. Ao que sinto, teriam recusado tomar-se por outra coisa que não coisas…
Estas ideias vinham-me à cabeça em Outubro de 93, nos momentos de ócio em que o pensamento se entretém, apenas, a existir.
Eu já começava a não magicar muito nisto quando conheci o Sr. Teste.
[Paul Valéry, O Senhor Teste; trad. Aníbal Fernandes, Relógio d’Água, 1985]
13 de janeiro de 2012
Quatro
«A grande ligação desta exposição e do grupo de pintores é o facto de estarmos perante artistas de diferentes e contíguas gerações, com explícitas relevâncias na arte portuguesa, que têm a pintura como centro da sua actividade. Nos anos de 1950 em que a arte abstracta se afirmava em Portugal, Nikias Skapinakis já estava presente na defesa de uma figuração moderna. Na década seguinte Jorge Martins estava presente desde o início e, na segunda metade aparecia Manuel Casimiro , numa altura em que se apregoava a falência da pintura. Sofia Areal aparecia entre os anos 70 e 80, já mais próxima do regresso da pintura que esta última década explorava em situação dita pós-moderna. (...) São, por isso, exemplos entre outros, que nos provam que a morte da pintura foi uma mera eloquência de necessidade teórica desfasada da produção prática.»
(Fernando Rosa Dias)
QUATRO
Sofia Areal, Manuel Casimiro, Jorge Martins, Nikias Skapinakis
Centro Cultural de Cascais
(até 29 de Janeiro - 3ª a Dom, 10h00 às 18h00)
12 de janeiro de 2012
Porque a Net fornece um novo dia
«A sociedade contemporânea parece capaz de conter a transformação social - a transformação qualitativa que estabeleceria instituições essencialmente diferentes, uma nova direcção do processo produtivo e novos modos de existência humana. Esta contenção da transformação social talvez seja o resultado mais singular da sociedade industrial avançada; a aceitação geral do interesse nacional, o quadro político bipartidário, o declínio do pluralismo, a coligação do capital e do trabalho no interior de um Estado forte dão testemunho da integração dos contrários que é o resultado bem como o pré-requisito do referido resultado.»
[Herbert Marcuse, O Homem Unidimensional. Sobre a Ideologia da Sociedade Industrial Avançada, Letra Livre, Lisboa, 2011]
Às vezes, lá calha...
«Não mataste porque o leste. Leste-o porque querias matar. É tudo. Se ele fosse vivo, acusava-te de plágio!»
(Atiq Rahimi)
Nem sempre a lápis (251)
«Desceu numa estação portuária. Na margem mais firme do sapal, onde se levantou a cidade do Sul. Afastou-se até encontrar uma residencial familiar. Arredou a cortina da janela do quarto. Dava para o logradouro, para a harpa de roupa estendida nas cordas; de parede, a parede. Velhas e riscadas pelo trânsito da humidade.
De um lado, viam-se gatos; do outro, árvores.
E um céu de chuva, comum a todos.
Antes, percorreu todos os sentidos de autocarro. Agora, sentia-se ali: nas ruas e ruelas que desembocavam no rio, no comboio que ouviu chegar na ponte vazia.
E pôs-se a caminhar. Leitor curioso do empedrado das ruas, deu em leitor compulsivo do rumo das calçadas. Levava um falcão no bolso, um lápis afiado.»
[estação]
[estação]
Papiro do dia (171)
«Infelizmente prosseguiu Moloch –, para a maioria de nós a Índia não tem mais realidade do que um sonho de ópio. Quando o débil Mahatma se lança no seu miado com uma barrigada de revelações estatísticas, provoca no mundo um choque distinto. Quem é que quer saber dos milhões de Intocáveis, das quarenta e nove seitas e línguas antagónicas, do interminável esquema de castas e faquires, de sujas cavernas e templos de devassidão? Não, o prefere acreditar que a Índia não é apenas uma terra, noventa por cento de cuja população está continuamente à beira da inanição, uma terra assolada pela cólera e pelo escorbuto, mas algo mais, algo que está bem para além da confusão de massacres, vício, legislação e ignorância crassa. Quando os inchados bois brancos castrados de Shiva se tiverem sumido, quando as panças dos brâmanes, retesadas como tambores, tiverem desaparecido, juntamente com os seus eruditos tractos nos órgãos digestivos, o que restar da Índia continuará a constituir, quer-me parecer, um teatro-piolho de mistério, horror e fanatismo. A Índia será sempre o lugar onde a religião constitui o primordial constituinte diário do homem. Os filhos da Índia nunca permitirão que a religião se torne a coisa reles e fraccionada com a qual os europeus se satisfazem. Nas suas mãos manter-se-á sempre um singular e intangível produto da terra, algo que sobreviverá às nossas “quadrigas de luta” e “coches de vento”, ao altifalante e ao fórceps. Daqui a dez anos mil anos, quando o mundo estiver doente e seguro para a democracia, e todo o Manel tiver a sua Maria, o alvorecer continuará a erguer-se como um trovão vindo da China pela baía fora. E pelos flancos virgens do Monte Evareste correrão riachos de safiras! Quanto a isso, os vossos mandriões cósmicos acertaram na profecia. Nessa altura poderemos efectivamente passar sem automóveis urbanos e Grande Ópera, sem elevadores e metropolitanos, sem fábricas de cimento e arquitectura babilónica, sem quartetos vocais masculinos e anticoncepcionais que não anticoncepcionam… Palavra de honra, não restará nada deste mundo moderno a não ser um fedor.»
[Henry Miller, Moloch; trad. J. Teixeira de Aguillar, jornal “Público”, Colecção Mil Folhas, Março 2004]
11 de janeiro de 2012
10 de janeiro de 2012
Nem sempre a lápis (250)
Fazendo-se de novas, a Nico ofereceu-me um novo formato, imediatamente legível. Mais pequeno que uma A4 deitada, escrevo na palma da mão sem ler as linhas. Três anos depois de um bloco feito com folhas de toalha de mesa, espero o bom proveito de andar com a escrita na mochila; ao sabor dos percursos.
Papiro do dia (170)
«Ronald Burns era músico e literato. Ao longo de três meses tinha compartilhado as glórias da existência com Dion Moloch e a mulher. O seu regresso ao Dakota do Norte deixara esses dois indivíduos onde os encontrara: nos baixios de lodo do matrimónio. Por uns tempos tinham baloiçado ditosamente na profunda e veloz maré da companhia; depois a maré tinha baixado e haviam ficado no lodo, presos como chatas.
Estaria Blanche apaixonada por Burns? Moloch estava pronto a acreditar que sim. estaria Burns apaixonado por Blanche? Isso era o mais importante. O que acontecesse entre eles os dois não lhe importava, desde que a sua amizade não fosse destruída. Se Burns desejava a sua mulher… excelente! Que viesse buscá-la! Não podia imaginar solução mais feliz para as suas dificuldades. Mas, se Burns a queria, porque tinha então regressado ao Dakota do Norte? Teria medo de enfrentar a verdade? Teria medo de o magoar a ele? Não teriam olhos na cara, aqueles dois? Não viam que ele se tinha retirado do caminho para lhes dar espaço livre?
As anotações marginais e a longa lista de palavras empilhadas na contracapa de cada livro que Hari Das descobriu ao folhear a magra colecção de Moloch suscitaram uma série de apreciações críticas que dissiparam as retrospecções de Moloch.
De repente Hari Das soltou uma sonora exclamação de alegria e espanto. Com dedos reverentes, agarrou num gasto volume e enfiou-o debaixo do nariz de Moloch.
- Agora – bradou –, agora sei que o senhor não pode ser um patife completo!
“Então ele tinha-me já aceitado como um patife?”, pensou Moloch, um tanto ou quanto acalmado pela efusividade do outro.»
[Henry Miller, Moloch; trad. J. Teixeira de Aguillar, jornal “Público”, Colecção Mil Folhas, Março 2004]
9 de janeiro de 2012
8 de janeiro de 2012
Às vezes, lá calha...
«Quando lhe perguntei se ele sabia italiano, ele disse: “Não, mas gosto de o ler mesmo assim: faz-me sentir melhor.”»
(Henry Miller)
Nem sempre a lápis (249)
Rostos, revoadas de expressões, culturas, origens, destinos. Os que esperam, os que partem e os que chegam, os que se despedem e os que os esperam. Um só colectivo: a viagem.
Subir ao Norte, à janela da berma litoral. Descer pela interior, até o olhar desaguar na lezíria; uma várzea grande.
Trocou, abateu o vale de compra de roupa. Viajava mais leve. Renovava-se, em cada muda nas residenciais.
Trocou, abateu o vale de compra de roupa. Viajava mais leve. Renovava-se, em cada muda nas residenciais.
Às vezes, escrevia a ler um filme de Godard.
Papiro do dia (169)
«Dave tinha sempre uma folha de trabalho na frente, na qual praticava a arte da caligrafia. Estas folhas constituíam um registo cronológico dos acontecimentos quotidianos no departamento dos boletineiros. No canto superior da folha desenhava à régua um pequeno quadrado, onde elaborava em fiel boletim do estado do tempo. A inclusão do boletim meteorológico não era uma simples idiossincrasia de Dave. Era o grande álibi do departamento dos boletineiros… Dave considerava estas folhas com o mesmo fervor com que um lama venera a sua caixa de orações.
Outro curioso hábito de Dave era o seu costume, logo que chegava de manhã, de afiar os seus lápis. Por mais chamadas que viessem pela linha, Dave tinha de afiar primeiro os seus lápis. O seu argumento era que, se adiasse essa importante tarefa, os lápis nunca seriam afiados. E, na ideia de Dave, inscrever os seus caracteres numa delicada, legível e ornamentada caligrafia era uma questão da maior importância. Tratava-se da sua orgulhosa contribuição para o serviço dos boletineiros, o registo que permaneceria depois de ele se ir embora, a atestar em símbolos doirados a sua indústria e meticulosidade.
Alguns dos boletineiros eram mulheres. A estas, submetia-as a um rígido escrutínio quando se candidatavam a emprego. Guardava as moradas das bonitas numa agenda. Quando as coisas ficavam monótonas, consultava essas moradas e começava a telefonar-lhes – primeiro às que tinham uma estrela a seguir ao nome.
Registava os resultados destas observações e experiências com elaborados e diligentes esforços num diário de folhas soltas que guardava no gabinete. Este diário continha também excertos dactilografados das obras dos autores que admirava com um fervor quase idolátrico. Confiava à secretária o trabalho de transcrever esse material. Não se podia propriamente dizer que não se apercebesse do efeito que essas revelações provocavam na mente da esperta e lasciva virgem que lhe servia de secretária. Ela aceitava a tarefa com a serenidade de um censor. Moloch contemplava-a com o interesse que um criador poderia dedicar a uma novilha premiada.»
[Henry Miller, Moloch; trad. J. Teixeira de Aguillar, jornal "Público", Colecção Mil Folhas, Março 2004]
6 de janeiro de 2012
Às vezes, lá calha...
«Foi um jorro vagueante e caótico de inanidade que se iniciou ao acaso e continuou como um relógio com corda para oito dias.»
(Henry Miller)
Nem sempre a lápis (248)
Levantou-se sem acender a luz e olhou pela janela. Trovejava no mar; forte e feio. Ele achava bonito. Fixava os olhos e sustinha a respiração, entre o relâmpago e o trovão. O céu estilhaçava-se, por instantes; ribombava no silêncio, fulminava o quarto.
Não eram cacos de um espelho. Neles, seria sempre visível. Um todo fragmentado. Era o vidro estilhaçado de uma montra. Um vestígio.
Papiro do dia (168)
«A Great American Telegraph Company alojava o seu departamento de recrutamento de boletineiros num atarracado edifício desengonçado sito na baixa da cidade. No andar de cima ficava um armazém de guarda-roupa; no andar de baixo um alfaiate, onde as fardas dos boletineiros postas de parte eram renovadas, limpas e passadas a ferro. O chefe dos alfaiates era o pau-para-toda-a-obra do vice-presidente. Deslocava-se por todo o território dos Estados Unidos, instruindo os seus subordinados na arte da economia, equipando postos com escovas de graxa preta, autorizando remendos, etc. escrevia também volumosos relatórios em inglês macarrónico, informando o vice-presidente de que o posto de Omaha, por exemplo, numa determinada manhã do ano ainda não tinha aberto às 8:15 da manhã; que em Denver tinha encontrado secretárias não equipadas de corrente e lápis; que o empregado da recepção em New Orleans tinha as unhas sujas e mascava tabaco. Por este tipo de informações recebia um belo ordenado. Naturalmente, onde quer que fosse era acolhido como um leproso.»
[Henry Miller, Moloch; trad. J. Teixeira de Aguillar, jornal Público, Colecção Mil Folhas, Março 2004]
5 de janeiro de 2012
4 de janeiro de 2012
Às vezes, lá calha...
«“A ideia de pretender ajudar-me – diz ironicamente o espírito errante e sem paz do caçador Graco – é uma doença que leva à cama”.»
(Walter Benjamin)
Nem sempre a lápis (247)
Llansol está certa, ao estabelecer a hierarquia; por que o é, é o lugar da analogia. Há quem leia, há leitores e há ledores.
Papiro do dia (167)
Esta história pode servir de introdução à economia do mundo de Kafka. Ninguém disse que as deformações que o Messias virá corrigir um dia, sejam apenas aleijões do nosso espaço. São-no também do nosso tempo. Kafka certamente que deve ter pensado nisso quando fez dizer ao seu avô: “A vida é extraordinariamente curta. É tal a sua brevidade na minha memória que não compreendo como é que um jovem, por exemplo, pode decidir ir a cavalo até à aldeia vizinha sem temer que – descontado qualquer desgraçado acidente – o lapso de uma vida normal e feliz possa ser demasiado breve para uma tal viagem”.
A porta da justiça é o estudo. E no entanto Kafka não se atreve a associar a este estudo as promessas que a tradição associava ao estudo da Tora. Os seus ajudantes são sacristães que ficaram sem paróquia; os seus estudantes, escolares sem escrita. Agora já nada pode detê-los na sua viagem “alegre e vazia”. Kafka, porém encontrou a lei da viagem dele: pelo menos uma vez conseguiu adaptar o seu ritmo trabalhoso a uma cadência épica, tal como durante toda a vida o procurou, confiando tal lei a um esboço que resultou no mais perfeito, e não só pelo seu carácter de interpretação.
“Sancho Pança nunca se gabou disso, mas com o passar dos ano, consumindo as noites a devorar histórias de cavalaria e aventuras, tanto conseguiu transtornar o seu demónio que o fez sair de si e lançar-se desenfreadamente nas empresas mais loucas. Acções, aliás, que não faziam mal a ninguém, à falta do objecto predestinado que deveria ter sido precisamente Sancho Pança. Mais tarde, deu a esse demónio o nome de Don Quixote e, movido por um sentimento de responsabilidade, seguiu-o calmamente nas suas correrias e desmandos, daí extraindo, até ao fim dos seus dias, grande alívio e útil distracção”.
Louco pacífico e ajudante não ajudado, Sancho Pança mandou à frente o cavaleiro. Bucéfalo sobreviveu ao seu. Pouco monta distinguir entre homem e cavalo: o importante é tirar o peso de cima.»
3 de janeiro de 2012
E porque não lá mais para a Primavera e no Porto
O café estava cheio de gente apressada, à hora do almoço. A máquina resfolegava para satisfazer os pedidos e a empregada serpenteava por entre as mesas, feita uma barata tonta.
Desviava o olhar pela montra embaciada, e contornava a palmeira esfiapada pelo vento, à espera que atravessasses a rua.
Lembro-me que era uma e meia da tarde, e volto este livro ao contrário para não ser denunciado por outra capa.
Tânger fica-me cada vez mais distante. Soletro-a como um eco perdido, para não me sentir tão perdido pelas ruas de Tânger.
Tânger e outros lugares,
Primavera 2001/Primavera 2007
2 de janeiro de 2012
Às vezes, lá calha...
«A flor é o resultado de um desenvolvimento diferente do barco de papel que se ensina a fazer às crianças e se desdobra numa folha lisa. Este segundo desenvolvimento é o que se adequa à parábola, ao prazer do leitor em desdobrá-la até lhe encontrar um significado liso.»
(Walter Benjamin)
Nem sempre a lápis (246)
Digamos que fui à feira de Lagoa festejar o oitavo aniversário das botas com sola de pneu e a saborear a expectativa de ser reconhecido por uma cigana. A feira decorre durante a manhã do segundo domingo dos meses de Inverno. A facilidade de acesso à locomoção poluente – sobretudo, papa-reformas ou mata-velhos; grave lacuna no meu curriculum de condutor – tornou-a inútil e incapaz de enfrentar a fartura festiva da do Algoz, na segunda-feira seguinte; o ano inteiro. Não vi a cigana que me chamava «o maluco das calças», afiançando que perguntei o preço e as experimentei nas feiras mencionadas. Até naquelas onde (ainda) nunca pus os pés; onde não me sentei a comer uma sopa e a alimentar o olhar. Fui assediado por um cigano à saída, cabisbaixa, da feira, consentindo que medisse com o braço as que não queria, de olho posto nas que o levaram a ser franco: «Escute, eu sou honesto»; a segurar-me pelo braço, com firmeza. «Essas calças para si não servem. Ontem o meu neto pregou-lhes um prego.» E era verdade, foi honesto à cigano, o que me levou a comentar: Mas mal passado; a ver um furo só de um lado de uma perna. Passajado o percalço e subidas as bainhas, pelo-me por histórias de cinco euros; com as pernas esticadas e os cães ao colo.
Papiro do dia (166)
«O mundo de Kafka é um Teatro Universal. Para ele, o homem encontra-se naturalmente em cena. E a prova é que todos são aceites no teatro natural de Oklahoma. É impossível compreender os critérios que regulam as admissões. À aptidão declamatória que em princípio poderia parecer importante, não se atribui qualquer importância: só se pede aos candidatos que representem o papel de si próprios. Que possam ser seriamente o que dizem ser, é coisa que sai do campo do possível. Os actores com os seus papéis procuram asilo no teatro natural, tal como as seis personagens de Pirandello procuram um autor. Em ambos os casos, o que procuram é o refúgio derradeiro, e isso não exclui que esse lugar seja a redenção. A redenção não é um prémio atribuído à vida: é antes o último refúgio de um homem que, como dizia Kafka, tem “o caminho bloqueado pelo seu próprio osso frontal”. A lei deste teatro está contida numa frase da Comunicação a uma academia: “Imitava-os porque procurava uma saída; por nenhuma outra razão”. Um presságio de tudo isto parece aflorar em K. antes do fim do seu processo. Volta-se imprevistamente para os dois senhores de chapéu alto que vêm buscá-lo e pergunta-lhes: “Em que teatro trabalham?” – “Teatro?”, admira-se um deles, enquanto se volta para o outro, como que a pedir-lhe conselho. Depois ficam ambos mudos. Não respondem à pergunta, mas tudo leva a crer que os deixou impressionados.»
1 de janeiro de 2012
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