27 de abril de 2013

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Tirou do bolso um pedaço de papel sujo e um coto de lápis roído e, inclinado sobre a berma da varanda, onde ele escreve, penosa e apressadamente, enquanto a negra o observa.»
(William Faulkner)

Nem sempre a lápis (362)

até Jajouka
(2006)
22. Alguns velhos barcos de madeira – os poucos que não agonizam como peças decorativas nos relvados das villas e varados no shopping da Guia – voltaram a fazer-se à beira-mar com um letreiro esgalhado à trincha numa chapa de contraplacado: «Besucht die grotten». Andam por ali a desafiar os turistas, com a simplicidade da silhueta colorida em flagrante contraste com a modernidade plastificada das barulhentas e poluentes motos de água e embarcações de recreio que, a partir de agora e durante uns dois meses, sulcam a baía de Armação em ritmo de auto-estrada. (...) Estávamos na praia e estranhei ver o velho barco de madeira tão longe da praia – creio que mais distanciado pela crise do que pela dimensão da concorrência. Quando vi o desespero do pescador para pôr o motor a trabalhar, lembrei-me da Margot, da carrinha, que não acabou rebocada por um barco, mas terá tido um final tão misterioso como o que para mim continua a envolver o da Margot; o barco que eu tripulava sentado à mesa de uma esplanada que já não frequento.

Papiro do dia (404)

«Quando Brown sai da floresta, desembocando na via-férrea, está ofegante. Não é devido ao cansaço, embora a distância que percorreu em vinte minutos tenha sido de quase dois quilómetros, e o terreno tinha sido difícil. Mais que isso, era a respiração rosnadora e malévola de um animal em fuga: enquanto ele pára a fim de olhar em ambas as direcções da via-férrea deserta, a sua cara, a sua expressão, é a de um animal que foge sozinho, sem desejar a ajuda de um companheiro, agarrado à sua confiança solitária e exclusiva nos seus próprios músculos e que, ao parar para cobrar fôlego, odeia qualquer árvore, uma folha de erva que veja como se fossem inimigos vivos, odeia mesmo a terra sobre a qual repousa e até o próprio ar que precisa para respirar.»
[William Faulkner, Luz em Agosto; trad. Jorge Telles de Menezes, Bibliotex, 2003]

25 de abril de 2013

 
 
(...)

23 de abril de 2013

Dia do livre (de "favores" e de facturação e de calotes e da...)



estes e o que aí vier,
só por aqui

[10€ ou 15€ dois títulos, portes incluídos]

21 de abril de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Não que haja muitas ideias, naturalmente, porque você não se atreve a pensar. Faz seja lá o que for para não pensar.»
(Aldous Huxley)

Nem sempre a lápis (361)

até Jajouka
(2006)
21. A ansiedade que antecede a partida só é comparável à do regresso. À medida que preparo as coisas e anseio por ir até Jajouka, não estarei apenas ansioso por regressar ao Monte Alto? (...) Entre as melhores maneiras de regressar, não duvido de que uma delas é, com toda a certeza, a partir de um livro que se descobriu ou relê com emoção; entregarmo-nos à escrita sem que ela pressuponha necessariamente um livro. Ou, precisamente porque o não pressupõe, muito menos ainda a necessidade de outro destinatário.
«A tarde está calma
porque sob esse ângulo – o de enriquecer o esquecimento –, os nomes são iguais.»

Papiro do dia (403)

«Queres decifrar o teu pensamento antigo, mas, para isso, à tua disposição só tens os teus próprios pensamentos. E agora eles estão mais velhos, como que perderam dimensão física: altura, largura, comprimento; perderam ainda elasticidade, agilidade de salto, capacidade para, rastejando, ver o que está em cima e para, saltando, ver o que encontrou já o seu melhor lugar em baixo. De pernas trôpegas, o pensamento tenta perceber porque começou a correr, de onde veio o primeiro impulso, o impulso original, e para onde se dirigia esse movimento. Sem obterem resposta, os teus pensamentos esquecem o julgamento da sua própria biografia e, como prostitutas que há muito perderam vigor e capacidade de atracção, abandonam-se em cadeiras, desleixados. E em vez de escolherem o objecto da sua acção, aceitam ser escolhidos; e hoje, agora, como prostitutas num bordel decadente, os teus pensamentos já se contentam (e como!) quando um velho os escolhe.»
[Gonçalo M. Tavares, Breves notas sobre o medo; Relógio d’Água, Maio 2007;
respire fundo]

20 de abril de 2013

19 de abril de 2013

18 de abril de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia


 

Às vezes, lá calha...

 
 
«Já tivera momentos altos na vida. Uma vez, de noite, andando pelo parque à chuva no Outono. Uma outra, no deserto, sob as estrelas, quando rodei com a Terra em torno do seu eixo.»
(Ursula K. Le Guin)

Nem sempre a lápis (360)

até Jajouka
(2006)
20. A Nico chamou-me para vermos pela enésima vez, a Fallingwater, a célebre casa projectada por Frank Lloyd Wright no final dos anos 30, aceitando o desafio de construi-la não em frente nem ao lado da cascata, como seria previsível, mas em cima dela, complementando-se reciprocamente. Foi casa de fim-de-semana dos Kaufmann, entre 1937 e 1963, abrindo ao público no ano seguinte e recebido mais de dois milhões e setecentos mil visitantes, desde então. Segundo o mesmo site, a Fallingwater é a única casa de Wright que permanece intocável e conserva o mobiliário da época. (...) Enquanto os responsáveis pela dispendiosa conservação e manutenção da Fallingwater, a que não será alheia a abertura ao público, a impedem de uma existência futura destinada à ruína, pondero se não será a dispendiosa remoção da casa de Salgueirais que a continua a preservar de se converter numa ruína, prevalecendo como memória indelével de um passado irremediavelmente arruinado à mercê da predação pública, que fotografei emocionado como se pronunciasse a palavra casa.

Papiro do dia (402)