26 de janeiro de 2012

«É bom trabalhar nas Obras» (97)

«Nasci com um sinal branco, ou o que os outros chamam uma marca de nascença, sobre a córnea do meu olho direito. Não teria tido nenhuma relevância se a mácula em questão não estivesse em cheio no centro da íris, quer dizer precisamente sobre a pupila por onde a luz deve entrar até ao fundo do cérebro. Nessa época, ainda não se praticavam os transplantes da córnea em crianças recém-nascidas: o sinal estava condenado a permanecer ali durante vários anos. A obstrução da pupila favoreceu o paulatino desenvolvimento de uma catarata, assim como um túnel sem ventilação se vai enchendo de bolor. O único consolo que os médicos puderam dar aos meus pais naquele momento, foi a espera. Seguramente, quando a sua filha terminasse de crescer, a medicina teria avançado o suficiente para oferecer a solução que então lhes faltava. Entretanto, aconselharam-nos a submeterem-me a uma série de exercícios fastidiosos para que desenvolvesse, na medida do possível, o olho deficiente. Isto era feito com movimentos oculares semelhantes aos propostos por Aldous Huxley em A arte de ver, mas também – e é o que recordo mais – recorrendo a um penso que me tapava o olho esquerdo durante metade do dia. Tratava-se de um pedaço de pano com as margens adesivas semelhantes às de uma decalcomania. O penso era cor de carne e ocultava desde a parte superior da pálpebra até ao princípio da face. À primeira vista, dava a impressão de que em vez de globo ocular só tinha uma superfície lisa. Andar com ele causava-me uma sensação opressiva e de injustiça. Era difícil aceitar que mo pusessem cada manhã e que não havia esconderijo ou pranto que pudesse libertar-me daquele suplício. Creio que não houve um único dia em que não oferecesse resistência. Teria sido tão fácil esperar que me deixassem à porta da escola para o tirar com um puxão, com o mesmo gesto despreocupado com que costumava arrancar as carepas dos joelhos. No entanto, por uma razão que ainda não consigo perceber, nunca tentei descolá-lo.»
[Guadalupe Nettel, O corpo em que nasci; em tradução para a Teodolito;

5 comentários:

Areia às Ondas disse...

Como dizia o outro, adorei, adorei, adorei. Vou fazer lá em casa em versão 'LER'! L para literatura, E para estudos e R para Rendas, os livros bordados, as jóias... e talvez lhe ponha uma outra romã pelo meio.

fallorca disse...

;)

Cristina Torrão disse...

As coisas que nos oprimiam ou que sentíamos injustas e que, por razões que não conseguimos perceber, nunca tentámos "descolar"...

fallorca disse...

:)

F disse...

Sempre que vejo crianças pequenas, com máscara, interrogo-me como deve ser a luta delas e de seus pais.

http://www.artesianmedia.com/blog/wp-content/uploads/2011/04/child-cancer-7.jpg