5 de dezembro de 2010

É sempre bom lembrar: Perfil do idiota

«O idiota é geralmente competente, moralmente irrepreensível e socialmente necessário. Faz o que tem a fazer sem dúvidas ou hesitações, respeita as hierarquias, toma sempre o partido do bem e acredita religiosamente nas grandes ficções sociais.
O idiota é todo liberdades.
A idiotia também faz bem às artes, principalmente às audiovisuais. A concentração do idiota numa ideia fixa, torna-o especialmente receptivo às músicas de ritmo simples e batida forte, o que facilita extraordinariamente o comércio discográfico, com todas as vantagens que daí advêm para producers e performers, enfim, para o tecido social. No que diz respeito às artes plásticas, tudo é mais fecundo se não houver interferências entre os olhos e as mãos. As ideias perturbam, turvam o olhar, atrapalham o gesto e, nos casos de ideologite aguda, daltonizam as cores. Sem imagens, uma cabeça vazia endoidece.
O idiota puro é o idiota jovem. Com o tempo, torna-se cínico, adquire hábitos esquisitos, sempre à procura do que lhe serve ou lhe rende, em busca de técnicas para obter sucesso e se sentir bem, sereno, de boa saúde e belo aspecto: cristianismo, ioga, dieta macrobiótica, drogas, parapsicologia, psicanálise, etc.
Entre os idiotas, também começa a manifestar-se, se bem que de modo caricatural, algo que recorda o hedonismo e o utilitarismo da aristocracia de outrora: o gosto de ser servido, de se distinguir do "vulgar". Como única crítica a filmes, espectáculos, livros, etc., é frequente ouvi-los dizer: "Mas que mau gosto!"
Os idiotas andam sempre juntos: consomem os mesmos produtos, frequentam os mesmos locais, lêem os mesmos livros e jornais, e têm uma habilidade notável para descobrir e evitar quem não é idiota. Graças a Deus! A política, porém, unifica o conjunto da sociedade sob o signo da idiotia: pessoas estimáveis, notáveis até nos diversos domínios do saber e da cultura, quando chegam à política tornam-se idiotas. Triunfam, quer-se dizer. Tornaram-se, enfim, públicas.»
[Ernesto Sampaio (Lisboa, 10 de Dezembro de 1935 - 5 de Dezembro de 2001)]

9 comentários:

maria disse...

grande pourra dét a pulítica, in mai maind iz a nouble pablique thingue, became an idióte práivate thingue.

merda thingue, ai say.

MCS disse...

Maravilhoso!
(assobiando para o ar e colocando no bolso)

Beatrix Kiddo disse...

é sempre bom ser lembrado do perfil do idiota

Kássia Kiss disse...

É sempre bom lembrar, sim senhora.

manuel a. domingos disse...

grande livro!

fallorca disse...

;)

Marta disse...

assalto em vias de ser efectuado.

fallorca disse...

Levai «e dá-lhes trabalho» (J. C. Monteiro, in "Recordações da Casa Amarela")

Claudia Sousa Dias disse...

Farpa!


CSD