14 de dezembro de 2010

Nem sempre a lápis (111)

No relógio da torre da igreja da freguesia do Sobral, concelho de Mortágua, acabam de se esganiçar as ave-marias electrónicas que antecederam a informação das vinte e uma horas. Fiz-me à estrada no Dia da Mãe – «O 8 de Dezembro é que é», ensinou-me ela –, mas não a vi; não quis importunar a relação íntima com o doutor Alzheimer. Hospedei-me nesta imitação de motel chamado Aldeia Sol, sem sinais do astro-rei e com os néones em regime de poupança; deixei-me guiar pela luz molhada dos salgueiros, nas várzeas. Mas isso, foi durante e até chegar; enganei-me no acesso à CREL e julgo ter passado ao pé do posto de Comandos da Amadora – «Aqui, Jaime Neves; escuto» –, se é que ainda existem, mas lá consegui apontar a mira para o Norte e chegar à Beira. O aquecimento incluído ao telefone e na recepção, começa a cheirar no ar, encostado à janela; parece uma floreira e facilitou mais a instalação, compreendo. Anoto o que não tinha a quem ditar, ao meu lado, nem motivo para recorrer às áreas de serviço, de frente para o espelho de uma mesa encurralada num canto. É objecto que deve dar por todos os nomes e vocação para enregelar o mais acolhedor dos ambientes. Feia, envernizada, na idade do armário. Ontem, sem perceber porquê, lembro-me que adormeci com a boca a saber a leitão; o corpo pedia-me estrada. Amanhã trato do assunto, entre outros adiados até à espontânea vontade de vir à terra com a documentação para abater o trauma daquele estampanço, há quase um ano. Trouxe o mínimo indispensável, coube tudo na mala do portátil: um par de óculos – vejo cada vez pior e muito pior a conduzir à chuva –, a revisão de Felisberto Hernández e John Fante, a medicação nocturna. Como o «café ao lado da Câmara» estava fechado, bebi-o em frente do prédio que me acolheu quatro meses nas águas-furtadas, parece que foi ontem, passei irreconhecível pelo supermercado e abasteci-me do necessário para já não sair. Sabia-me bem uma lareira, eu sei, mas enrolo as pernas numa manta para verificar o carregamento da pen, desintoxicar um pouco da blogosfera, guardar mais um sabonete, sem que ninguém saiba de mim. Gosto de viver às escondidas, de pernoitar em luras impensáveis, de ir às laranjas e ós dióspiros e às romãs; todos os pretextos me assentam bem, quando se trata de dar à sola.

4 comentários:

MCS disse...

Adoro estes seus textos "on the road". Era uma boa ideia para um livro (digo eu).

Claudia Sousa Dias disse...

gostei particularmente de "ir ós dióspiros".

:-)


csd

lanchonete disse...

à minha confissão de que adoro muito de viajar respondeu um amigo com a pergunta sobre o tipo de viagem: globetrotter, coleccionador de milhas, descobridor de locais exóticos?
respondi que não. gosto de viajar, ponto. sem rumo, não me interessa o destino. para Badajoz, Freixo de Espada à Cinta ou até Mortágua. o bom é o processo...

fallorca disse...

MCS há títulos com outros incluídos, publicados pela Teorema: «Entre Chipiona e Tarifa» e «Al-Khaïma»

Cláudia, estavam uma delícia, orvalhados, a desfazerem-se na mão de maduros, e com aquele sabor incomparável de serem «roubados» no quintal do vizinho

Pedro, por isso é que os meus carros têm sempre meio depósito; se abasteço antes de arrancar (dar à sola) começo a pensar para onde vou e estraga-se tudo