14 de junho de 2011

«É bom trabalhar nas Obras» (90)

«Ao cair da tarde, sem notícias da Villa Fondebrider e cansado de televisão e da minha escrita automática, decidi sair para dar um passeio e ver como era o centro da cidade. Pôr definitivamente em marcha uma expedição ao exterior, uma caminhada que projectei breve, porque estava a agradar-me cada vez mais a sensação de me encontrar em situação de espera no interior do meu próprio quarto de hotel. E não só, tinha começado a ver-me a mim mesmo dentro de um imaginário conto curto que se intitulava La espera. Era um conto que  assentavam-lhe melhor os interiores. E, enfim, comecei a ter a impressão de que tudo o que me sucedia fazia parte desse conto. E não vou esconder que esta era, no fundo, uma forma de combater a solidão. O caso é que, quando saí para as ruas de Lyon ao entardecer, fi-lo já convertido no protagonista do meu conto.
Agradava-me o nome por que era conhecida a zona de Lyon, onde me encontrava: presq’île (literalmente: a quase ilha), uma península no meio dos dois caudalosos rios, o Ródano e o Saône, que passam pelo centro da cidade. Agradava-me o nome e, além disso, evocava-me o título daquela narrativa curta de Gracq em que tinha estado a pensar não havia muito.
Saí para passear pela bela presq’île ao entardecer e fui caminhando, com passos lentos, quase tímidos, seguindo o curso de um dos seus rios até chegar a uma grande e bonita praça que tinha todo o aspecto de ser a mais importante da cidade. De repente, tomei consciência – se quisermos ridícula, porque deveria ter-me apercebido há muitos anos – da grande quantidade de rostos que há no mundo. De repente, senti-me desnorteado com a quantidade de caras de desconhecidos com que me ia cruzando na rua. E durante uns minutos a minha timidez natural atingiu uns píncaros quase impensáveis. Comecei a sentir a necessidade, para não me assustar mais, de que cada uma daquelas caras me recordasse alguém conhecido, pois a simples ideia de que todos os transeuntes fossem uns completos estranhos, provocava-me um certo receio ou pânico, como se estivesse num aldeamento zulu no meio de África.
A seguir perguntei-me – já mais calmo – quantos daqueles rostos daquela praça de Lyon estavam naquele momento à espera de algo. Aquela praça de Lyon era, na realidade, uma grande sala de espera? Recordei uma nota de Kafka: «Há perguntas que jamais conseguiremos deixar para trás se não estivermos libertos delas por natureza.» Não sabia muito bem o que Kafka tinha querido dizer com isto, mas serviu para me libertar da minha pergunta. E para me libertar de tudo. Era uma frase extraordinária, que ajudava. Talvez fosse, inclusive, a demonstração de que as frases que não entendemos podem ajudar-nos muito mais do que as que entendemos perfeitamente.»

[Enrique Vila-Matas, Perder Teorias; em tradução para a Teodolito;
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