22 de maio de 2010

«É bom trabalhar nas Obras» (11)

«No mesmo instante do relato, não só me dei conta de que ela pertencia ao marido, assim como eu tinha pensado demasiado nela; e às vezes, de uma maneira culpável. Então, parecia que era eu quem escondia os pensamentos entre as plantas. Mas desde o momento em que a senhora Margarita começou a falar, senti uma angústia como se o corpo se afundasse numa água que me arrastasse também; os meus pensamentos culpáveis apareceram de uma maneira fugaz e com a ideia de que não havia tempo nem valia a pena pensar neles; e à medida que o relato avançava, a água ia-se apresentando como o espírito de uma religião que nos surpreendesse de formas diferentes, e os pecados, nessa água, tinham outro sentido e o seu significado não tinha tanta importância. O sentimento de uma religião da água era cada vez mais forte. Embora a senhora Margarita e eu fossemos os únicos fiéis de carne e osso, as recordações de água que eu recebia na minha própria vida, nas intermitências do relato, também me pareciam fiéis dessa religião; chegavam com lentidão, como se tivessem empreendido a viagem havia muito tempo e apenas cometido um grande pecado.
De repente dei-me conta de que da minha própria alma me nascia outra nova e que eu seguiria a senhora Margarita não só na água, como também na ideia do seu marido. E quando ela terminou de falar e eu subi a escada de cimento armado, pensei que nos dias em que caía água do céu havia reuniões de fiéis.»
[Felisberto Hernández, Contos Reunidos; em tradução para a Colecção Ovelha Negra / Oficina do Livro]

Nem sempre a lápis (31)

Esta manhã, bastante apreensivo com o esforço das plantas para se agarrarem ao Sol fingido que entra pela janela da cozinha, trouxe-as para a marquise antes que danifiquem mais a coluna; as vértebras por onde se ramificam. Devolvi-as ao território que lhes pertence – fechada, mas varanda – sem pretender transformá-las em plantas de companhia; ainda não cheguei a tanto. Mas a verdade, é que me tenho apanhado a olhá-las, levantado o olhar do trabalho atraído pela surpresa da cor vegetal dada sobre o soalho de árvores abatidas; súbito oásis brotado por entre pedras de praias. Contaminado pela tradução de Hernández, é possível que não a acabe sem lhes inventar um nome; a acreditar que me pretendem dizer qualquer coisa quando a brisa lhes agita os pés raquíticos; a responder aos sons e palavras que lhes digo, em segredo, e desconhecem que escrevi.

Às vezes, lá calha...

«De doutrina literária, nada tenho a formular;
nunca achei comestível a cozinha dos químicos.»

21 de maio de 2010

Meditação na tabacaria

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia...

«Independente remete-me, justamente, para o lado contrário. Creio que esta, a minha, e outras, de gente por quem tenho admiração ou amizade ou estima ou simpatia, são livrarias dependentes. Pela simples razão de que dependem dos livros.»

À mão de ler (25)

«SUDÁRIO
Estas mãos, que são minhas.
Apenas o seu íntimo calor
Poderá dar guarida
À minha dor.
Sobre um rosto magoado de vergonha
- Da presente vergonha de viver -,
Não há outra mortalha que se ponha,
Além de algum pudor
Que se tiver.»
[Miguel Torga, Diário V (3.ª ed. revista, 1949); Coimbra, 1974.
Ilustração: M. C. Escher]

Nem sempre a lápis (30)

Um dia destes tenho de ir à velha Barata na avenida de Roma, aproveitando para contrariar a semana. Só me chateia o trajecto de feira popular da linha de metro, embora me deixe quase à porta das tartes de maçã do Frutalmeidas, como se viesse do bairro de São Miguel – do quarto com vista para as favas, em casa da senhora dona Todicas (Fruta da Época) – e preparasse o físico para ir curtir um maningue naice com os meus e as minhas, então à porta do Tique-Taque, do Roma, do Pote, da Munique. Durante essa moca, há muito ressacada, frequentava pouco a Barata; era mais interessante atravessar a avenida para revolver as estantes da Sinfonia, antes ou depois de aviar um pires de pipis na Alga, afogados com uma caneca de cerveja preta; marca corrente, como a água de casa. Quis o acaso que, enquanto fazia tempo para a apresentação de Santa Maria do Circo, os meus olhos se encontrassem com uma banca cheia de Miguel Torga, com os cadernos por abrir, a euro e meio cada Diário; dei por mim em Coimbra, a ver a montra da editora homónima. Como é sempre em frente até ao largo da Portagem, lá voltei a ser assaltado pela incredulidade infantil por o médico que operou a minha prima, um dia viesse a recorrer a outro nome para escrever um poema sobre uma videira – de que não me recordo e tenho tão presente como se a lesse na Selecta Literária – e para comparar o mar do Sul com o Mediterrâneo, chamando-lhes um charco; a ambos os dois. Em qual das dezenas de Diários que o doutor Adolfo Rocha ditou ao escritor Miguel Torga, é coisa para verificar; e depressa, antes que a gerência se aborreça por ter aquela área eternamente ocupada por um autor com os cadernos por abrir.

Às vezes, lá calha...

«Pareço um doido a correr esta pátria
e nem chego a saber por quê tanta peregrinação.»

20 de maio de 2010

Breve interlúdio musical

Surripiado aqui, fiufiu...

Porque a Net fornece um novo dia

À mão de ler (24)

«Vi Katsimbalis aproximar-se com um grande floreado de bengala. Trazia um amigo a reboque – chamar-lhe-ei Kyrios Ypsilon, para ser discreto. Descobri que Kyrios Ypsilon era um exilado político e tinha sido transferido para Spetsai, de qualquer outra ilha, por causa da sua saúde fraca. Gostei imediatamente dele, no momento em que lhe apertei a mão. Falava francês, por não saber nada de inglês, mas com sotaque alemão. Era tão grego quanto um grego pode ser, mas tinha sido educado na Alemanha. O que me agradou nele foi a sua natureza viva e entusiástica, a sua franqueza, a sua paixão por flores e metafísica. Acompanhou-nos ao seu quarto numa grande casa deserta, a mesma onde a famosa Bobolina tinha sido morta a tiro. Enquanto conversávamos, foi buscar uma banheira de folha e encheu-a de água quente para tomar banho. Numa prateleira perto da cama tinha uma série de livros. Dei uma vista de olhos aos títulos, que se apresentavam em cinco ou seis línguas. Encontravam-se ali A Divina Comédia, Fausto, Tom Jones, diversos volumes de Aristóteles, The Plumed Serpent, os Diálogos de Platão, dois ou três volumes de Shakespeare, etc. Uma excelente dieta para um cerco prolongado. “Sabe, então, um pouco de inglês?”, perguntei. Oh, sim, tinha-o estudado na Alemanha, mas não o sabia falar muito bem. “Gostaria de ler Walt Whitman, um dia”, acrescentou muito depressa. Estava sentado na banheira, a ensaboar-se e a esfregar-se vigorosamente. “É para manter o moral”, disse, embora nenhum de nós tivesse feito qualquer comentário a respeito do banho. “Precisamos de ter hábitos regulares”, continuou, “pois de contrário desmoronamo-nos. Ando muito, para conseguir dormir à noite. As noites são compridas, sabem, quando não somos livres.”
– É um tipo formidável – disse Katsimbalis, quando regressávamos a pé ao hotel. – As mulheres são loucas por ele. Tem uma teoria interessante acerca do amor… arranje maneira de ele lhe falar a esse respeito, em qualquer ocasião.
Falar de amor trouxe o nome de Bobolina à conversa.
– Por que será que não ouvimos falar mais de Bobolina? – perguntei. – Ela parece outra Joana d’Arc.
– Hmm – resmungou, parando repentinamente. – Que sabe você de Joana d’Arc? Sabe alguma coisa a respeito da sua vida amorosa?
Ignorou a minha resposta e continuou a falar de Bobolina. Contou-me uma história maravilhosa, e não duvido que verdadeira, na sua maior parte.
– Por que não escreve essa história pessoalmente? – perguntei-lhe de chofre. Alegou que não era escritor, que a sua missão era descobrir pessoas e apresentá-las ao mundo. – Mas eu nunca conheci nenhum homem capaz de contar uma história como você – insisti. – Por que não tenta contar as suas histórias em voz alta, deixar alguém anotá-las enquanto as conta? Não é capaz de fazer isso, pelo menos?
– Para contar uma boa história – respondeu – é preciso ter um bom ouvinte. Não sou capaz de contar uma história a um autómato que escreve em estenografia. Além disso, as melhores histórias são aquelas que não queremos preservar. Se temos algum arrière-pensée, a história está perdida. Tem de ser uma dádiva pura… temos de atirá-las aos cães… Eu não sou escritor – explicou –, sou um tipo improvisador. Gosto de me ouvir a mim próprio falar. Falo demasiado: é um vício. – E depois acrescentou, pensativamente: – Para que serviria ser escritor, um escritor grego? Ninguém lê grego. Aqui, se um homem consegue ter mil leitores, está cheio de sorte. Os gregos instruídos não lêem os seus próprios escritores, preferem ler livros alemães, ingleses, franceses. Um escritor não tem hipótese nenhuma na Grécia.
– Mas a sua obra podia ser traduzida para outras línguas – sugeri.
– Não há nenhuma língua que possa transmitir o sabor e a beleza do grego moderno – respondeu-me. – O francês é rígido, inflexível, eivado de lógica, demasiado preciso; o inglês é demasiado monótono, demasiado prosaico… vocês não sabem fazer verbos em inglês. – Continuou a brandir irritadamente a bengala. Começou a recitar um dos poemas de Seferíades, em grego. – Ouviu? O simples som é maravilhoso, não acha? O que é que me pode dar em inglês capaz de lhe equivaler em pura beleza de ressonância? – E, de súbito, entoou um versículo da Bíblia. – Isto está mais em conformidade – declarou. – Mas vocês já não usam esta linguagem, agora é uma língua morta. A língua, hoje, não tem entranhas. Vocês estão todos castrados, tornaram-se homens de negócios, engenheiros, técnicos. Soa a dinheiro de madeira a cair num esgoto. Nós temos uma língua… ainda estamos a fazê-la. É uma língua para poetas, não para lojistas. Escute isto…»
[Henry Miller, O Colosso de Maroussi; trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Livros do Brasil, Lisboa 1996]

Nem sempre a lápis (29)

Quando apaguei as luzes da sala para me deitar, deixei-me fiquei a olhar para o candeeiro very british – «verde land-rover» também não lhe assenta nada mal – que trouxe a primeira vez que fui ao Sul. Esqueci-me dele aceso e, no meio da escuridão que seria de esperar, vi-o adaptar-se à nova realidade do espaço a que pertenceu sempre; por muito campo que lhe desse a condizer com o abat-jour Laura Ashley, creio eu. Foi uma etapa bem divertida, há uns vinte e tal anos; é certo que não iluminava nada a área de trabalho anichada na estante, mas gostava de o ver aceso e, se possível, só ele. Mergulhados no conforto cálido da penumbra, retomámo-nos com um sorriso esquecido: ele, a apreciar os cartões que pintei, talvez enquanto nos esperávamos; eu, a salivar por uma aviadora para ler ao lado dele e levantar os olhos e ver os cartões e ver as pedras espalhadas na marquise, ver só. Mas não está bom para Cioran; intimidada a generosidade do mês, a luz de que disponho só me concede tempo para ler Terzani e McCarthy, por enquanto.

Às vezes, lá calha...

«O mais seguro de tudo é que eu não sei como faço os meus contos, porque cada um deles tem a sua vida estranha e própria. Mas também sei que vivem a lutar com a consciência para evitar os estrangeiros que ela lhes recomenda.»

19 de maio de 2010

Breve interlúdio musical

[Não faço ideia quem seja a Alexandra, mas reconheço-lhe o bom gosto]

Ora vamos lá a pôr a agulha nas espiras...

«Julgo azado o momento de me desvincular – quanto historicamente possível – de um autor, Ian Curtis, que deu notório contributo para o ressurgimento de ideias nazis e rácicas.»

... e depois, se vos apraz, repimpem-se com a masturbação necrófila.

Porque a Net fornece um novo dia...

[foto: João Belard]

À mão de ler (23)

«Era hora do jantar na pequena cidade. Nas divisões quadradas que serviam de habitação e de loja, com os cães na soleira, viam-se as famílias a sentar-se à mesa e os candeeiros a petróleo projectarem grandes sombras nas paredes salpicadas de fotografias, calendários, imagens sacras. Nas ruas não havia trânsito e no ar pairava aquele bulício sereno do anoitecer, feito de vozes isoladas e de chamamentos longínquos.
Agora todos procedem desta maneira. Até os chineses! Também eles, que antes se orgulhavam de serem herdeiros de uma "cultura com quatro mil anos", o que os convencia de serem espiritualmente superiores a todos, cederam, e, sintomaticamente, já começam a sentir-se pouco à-vontade por ainda comerem com pauzinhos.
Até já se consideram mais apresentáveis com um garfo e uma faca na mão; parece-lhes mesmo que são mais elegantes se vestirem casaco e gravata. A gravata! Originalmente uma invenção dos mongóis para arrastarem os prisioneiros, amarrados ao arção da sela... exactamente, com uma corda ao pescoço.»
[Tiziano Terzani, Disse-me Um Adivinho; trad. Margarida Periquito, Tinta-da-China, Novembro de 2009]

Nem sempre a lápis (28)

Não creio que o tempo se esclareça o suficiente para me repimpar com um pires de caracóis com orégãos e tomilho, na esplanada de passeio onde os há. No preciso momento em que me arranjava para «ir ver a tarde antes que se faça noite», ribombou um relâmpago que se desfez num aguaceiro; aprecio muito estas coincidências que, por algum motivo, me retêm em casa.

Às vezes, lá calha...

«Não haverá nada pior para um “escritor” sem talento, do que ceder ao impulso irresistível da inspiração. É como sentir uma repentina e dolorosa cólica, correr para a privada mais próxima, deixar a imaginação livre e, só depois, aperceber-se de que não há papel para registar a sua obra.»