os músculos preparam, meticulosamente, a própria derrota.»
(Gonçalo M. Tavares)
«De uma maneira geral, os livros sabem ao cheiro do café» Sam Savage
«Da mão direita à outra do mesmo homem vai por vezes uma distância obscura. Não se trata de uma parte esconder intenções ou até acções. É outra coisa.
«Na próxima sexta-feira, dia 17, Dia Internacional de Luta contra a Homofobia e Transfobia, o Parlamento vai discutir diplomas do BE e do PS. (...) Em Fevereiro do ano passado, idêntico projecto-lei do Bloco foi chumbado, embora 58 deputados tivessem votado a favor: 38 do PS, 9 do PSD, 8 do BE, 2 dos Verdes e 1 do CDS-PP (mas nenhum do PCP).»
«... pediu ao balcão o livro do último prémio Leya. Andaram por ali, largando comentários sobre a essencialidade da literatura nas suas vidas e mostrando a sua relação íntima com os livros. Até que a mais gorda, arrebitando a crista, abanando o pelancame vermelho da barbela, olhou em redor e cacarejou assim ”Eu, se pudesse, levava a livraria toda!”. Saí, claro está. Fui enfiar-me numa loja chinesa a comprar collants. São mais baratos, a qualidade do fio é a mesma e as cores têm nomes bonitos: muskade, duna, tropical.»
«Ele pensa calmamente: “Eu não deveria ter perdido o hábito de rezar.” Depois já não ouve os passos. Agora ouve unicamente os numerosos e intermináveis insectos, encostado à janela, respirando o cheiro quente e ricamente maculado da terra, pensando em como ele tinha amado a escuridão enquanto era jovem, um jovem que andava ou ficava sentado sozinho entre árvores, à noite. Depois o solo, as cascas das árvores, tornaram-se verdadeiros, selvagens, repletos, evocativos, estranhos e desgostosos meios prazeres e meios horrores. Tinha medo disso. Temia; amava tendo medo. Depois, um dia no seminário, descobriu que já não tinha medo. Era como se uma porta se tivesse fechado algures. Já não tinha medo da escuridão. Simplesmente a odiava; costumava fugir dela para a proximidade de paredes, para a luz artificial. “Pois é”, pensa ele, “eu nunca deveria ter perdido o hábito de rezar.” Afasta-se da janela. Uma das paredes do escritório está forrada de livros. Pára em frente a eles, procurando até encontrar aquele que procura. É de Tennyson. Está deformado por um uso abundante. Tem-no desde o tempo do seminário. Senta-se debaixo do candeeiro e abre-o. Não demora muito. Em breve a linguagem fina e galopante, o definhar desvitalizado repleto de árvores sem seiva e luxúrias desidratadas começa a pairar meloso, veloz e pacífico. É melhor do que rezar, sem se dar ao trabalho de pensar em voz alta. É como ela não tivesse estado à espera de fazer tanto barulho ao falar.»
Descia eu esse demorado percurso – que me separava da agreste incompatibilidade com a realidade para me entregar progressivamente na imensidão do devaneio ao entardecer, como jovem poeta que era – quando, percorridas talvez centenas de vezes o mesmo irrepetível percurso; quando terminado o pano de casas onde a rua cede o nome ao jardim, dei com o tronco levemente tombado e as raízes mais ansiosas pela secular autonomia a aflorarem o chão, num esforço irreprimível que levantava a calçada do passeio. Possivelmente, esperei que os automobilistas desrespeitassem a prioridade dos peões, admitindo que me tenha dado jeito prolongar o sabor da chegada, como os passageiros aguardam que o navio atraque e encostem a escada ao portaló; a manga seja acoplada à fuselagem do avião; o comboio pare e as portas se abram com um silvo pneumático, e só depois percorri os poucos metros de asfalto listado para me sentar no banco vazio que me aguardava sob a copa de uma árvore enorme do Príncipe Real.
«A consciência, não o sofrimento, traz-lhe à memória milhares de ruas solitárias e abandonadas. Elas começaram a correr desde aquela noite em que estava estendido no chão quando ouviu o último passo e depois a última batida da porta (eles nem sequer apagaram as luzes), e depois ficou deitado, calmamente, de costas, com os olhos abertos enquanto por cima o globo suspenso ardia com um brilho fixo e doloroso, como a luz de uma casa onde toda a gente tivesse morrido. Não sabia há quanto tempo se encontrava ali. Não pensava de todo, nem sofria. Talvez tivesse consciência de que algures, no seu íntimo, os dois terminais desunidos dos fios da vontade e da sensibilidade, agora sem contacto, esperavam restabelecê-lo, unir-se de novo para que ele pudesse mover-se. Enquanto acabavam os seus preparativos para partirem, os outros passavam de vez em quando por cima dele, como pessoas que estando prestes a deixar uma casa para sempre passam por cima de um objecto qualquer que tencionam deixar para trás.