18 de maio de 2013

Às vezes, lá calha...

«Sem a presença visível de adversários,
os músculos preparam, meticulosamente, a própria derrota.»
(Gonçalo M. Tavares)

Nem sempre a lápis (368)

até Jajouka
(2006)
28. Esta manhã, creio ter feito as coisas como devem ser feitas: deixei a Olga em Portimão, vim pelo Parchal – bebi outra bica, enquanto enrolava quatro cigarros – e levantei cem euros no Multibanco; passei no cruzamento de Porches para o Monte Alto caladinho que nem um rato e entrei naturalmente na Via do Infante, em Alcantarilha, sem ser assediado pelas habituais ruminações se tivesse entrado em Lagoa e, com o mar azul a brilhar à minha direita, percorri bonacheironamente os cento e cinquenta quilómetros até Huelva, apenas atento ao manómetro do gasóleo e da temperatura deste jipe a que ainda não me habituei – e tive de largar dois mil e quinhentos euros para substituir a Azulinha, a Volvo 245; só lhe faltava falar, caraças – e não faço a menor ideia de quanto tempo precisarei, nem de quanto dinheiro que não tenho para gastar com a educação deste Cherokee teenager, nome e cor de xarroco. Verifiquei, surpreendido e simultaneamente incrédulo, que o arco à entrada da ponte sobre o Guadiana foi finalmente substituído por um fundo marítimo, mais cúmplice com o que encontrou quem sai do Algarve, do que o prepotente relvado que ali permaneceu dois anos, se não estou em erro, substituindo a discutível e crescente realidade dos campos de golfe por um interminável estádio de futebol a que parecem querer condicionar-nos; em cada casa e em cada carro, bandeiras ao vento. Mantendo a velocidade que me permite divagar sem perigo, cheguei a Huelva sem sobressaltos – além da habitual rajada de mensagens no telemóvel, onde o big brother, a pretexto de me fornecer não sei que espécie de informações não solicitadas, está pura e revoltantemente a controlar-me e a dizer «Com que então, em Espanha, seu maroto…» –, confirmando o preço mais baixo do gasóleo, e estacionei, como habitualmente, no parque Damas – embora duvide que se possa estabelecer qualquer analogia entre o nome da empresa de autocarros e o livro do Mário Zambujal, Primeiro as Damas –, depois de ter subido o silo até ao sexto piso, onde arrumei logo à primeira, sem me debater com a natural preguiça para fazer manobras. Enganei-me no elevador e saí para a rua do lado oposto à que me convinha e conduz directamente à Librería Saltés, parando primeiro numa loja de artigos fotográficos, onde também não tinham um rolo para a instamatic (quando precisei dela, verifiquei que a tinha deixado no jipe) e entrei na tabacaria ao lado onde, feitas as contas, poupei em dez onças de tabaco o suficiente para o parque de estacionamento e o almoço, a encaminhar-me determinado e transpirado para a livraria, a fumar o quarto e último cigarro enrolado no Parchal (bem me parecia que bastam quatro para fazer o percurso), onde entrei com o dedinho espetado que (sem dificuldade de monta) retirou do expositor o ambicionado Entre paréntesis de Bolaño, e aproveitei para encomendar La ciudad ausente de Piglia – evitando, assim, o confronto do Land-Rover com o trânsito sevilhano quando por lá passar a caminho de Jajouka –, garantindo à morenaça que me atendeu que não tinha pressa e pode comunicar a chegada durante o mês de Setembro, como prometeu. Livros para traduzir não me faltam, até Dezembro e, no intervalo, leitura de sobra por conta de Bolaño, como não tardaria a verificar. Saí para a rua ocupada por viveiros de pernocas douradas (claro que olhei) que mais pareciam apeadas de cartazes a anunciar as virtudes do ozono da Isla Canela, e sebes de pernões de moças da minha geração empoleiradas em cima de chinelas periclitantes e com aquele ar meio atarantado da menopausa, creio, e atalhando pela rua pedonal para não cair na tentação de me sentar numa esplanada a folhear o Bolaño, dirigi-me ao mercado por vielas coloridas, com os olhos a cobiçarem dois ocres revelados por uma demolição e a luz do meio-dia (hora de Portugal), e entrei no mercado pelo lado oposto ao habitual, dando rédea solta ao olfacto atordoado pela bordoada das frutas e dos legumes, os sacos de cominhos e açafrão, evitando as bancas de peixe vivo que não podia trazer, mas comprei lombos altos de bacalhau de fazer crescer água na boca, e estava com uma sede que nem vos conto, figos, pimentos e cebolinho a um euro o quilo, o tomate a sessenta cêntimos, saindo pela porta habitual para me sentar no Alba e poisar os sacos que me cortavam as mãos, enquanto pedia uma tapa de pescada frita fresquíssima, com um quarto de limão e meio litro de água, entretendo-me finalmente a abrir Entre paréntesis, lida a contracapa e escolhido o texto que dá o título ao livro, «El narrador en la intimidad», onde li «A minha forja [cocina, no original] literária é, frequentemente, uma divisão vazia, onde nem sequer há janelas. (…) Confrontado com estes dilemas, geralmente faço o que faz toda a gente: perco o equilíbrio e penso que sou imortal. Não quero dizer imortal literariamente falando, porque isto só pode sê-lo um imbecil e não sou homem para tanto, mas literalmente imortal, como os cães e as crianças e os bons cidadãos que ainda não adoeceram.» Saboreada a pescadinha, e porque o Alba faz questão de só servir café durante as horas que lhe justificam o nome, fui tomá-lo, servido num eterno copo de vidro, sentado à janela de um café decorado com cabeças de dois supostos Miuras e uma exposição antológica de cartazes de touradas, de Huelva e das redondezas, uns mais recentes e outros a tresandarem à Espanha do pós-guerra, onde fui abordado por dois ciganos muito interessados na minha caixa de enrolar cigarros, dizendo-me que era uma maravilha para enrolar porros, joé! (charros, não vá o leitor não saber), como quem diz, «E que tal uma troca?», mas o que eles sabem já eu me esqueci, e informei-os que as vendiam na tabacaria onde antes comprei o tabaco (saindo-me o parque de estacionamento e o almocinho de borla, mas creio já ter dito isto, desculpem), insistindo o mais teimoso – com o cabelo encaracolado à trolha (sem ofensa) a brilhar como se o tivesse penteado com azeite (de Jaén?) – em vender-me um espampanante cachucho dourado, ao que respondi esticando a singela anilha de prata que me caracteriza o dedo mindinho e, finalmente enrolados quatro cigarros (está mais que visto que são os necessários) e bebido o café, bebido o portuguesíssimo vício da bica, dirigi-me ao parque recusando-me terminantemente a ver a tal parede que só me apeteceu assinar, eu que raramente assino o que pinto, desci e abasteci o Xarroco na estação de serviço à saída de Huelva, decidido a chegar a casa e escrever este texto que transcrevo praticamente de cor.

Quando passei a ponte sobre o Guadiana, fui saudado pelo cartaz que anuncia o Algarve e, imediatamente a seguir, insultado pelo cartaz – primeiro os fogos, depois os projectos de prevenção e reflorestação – com que me entretive a calcular os milhares de euros gastos com a abertura do concurso, publicação, análise de propostas, impressão, distribuição e colocação, à medida que o mar, agora à minha esquerda, se apresentava mais baço e o piso da estrada mais trepidante, como se estivesse preocupado em despertar-me da modorra que se ia apoderando de mim, até que finalmente saí na rotunda de Alcantarilha, aquela que normalmente uso e está visto que devo usar sempre, e parei lá em baixo, no poço, para abrir a caixa do correio – onde me esperava um livrinho (mais uma tradução, mas do mal o menos) –, subi todo contente a pequena colina até ao Monte Alto e arrumei o jipe sob o coberto das buganvílias sem que os canitos dessem por mim, até chegar à porta e saltarem-me em cima como se não me vissem há uma eternidade, e satisfeitas as merecidas e devidas atenções e mudada a água dos bebedouros, arrumei rapidamente as compras, decidido a fazer uma surpresa à Olga quando chegar a casa, com um jantarinho debaixo do telheiro para lhe contar ainda mais histórias, absolutamente convicto de que, embora hoje não tenha traduzido a ponta de um corno (também preciso de descansar de vez em quando), sinto-me absolutamente convicto de que hoje, finalmente, fiz a coisa como deve ser feita.

Papiro do dia (410)

«Da mão direita à outra do mesmo homem vai por vezes uma distância obscura. Não se trata de uma parte esconder intenções ou até acções. É outra coisa.
Quando, para receberes alguém, abres os braços, a referida distância aumenta e a mão, em cada ponta, assinala um certo modo com que o teu corpo se dispersa. Quando o abraço se concretiza e nas costas do outro as mãos finalmente se reencontram, formalizam um símbolo ao mesmo tempo desolador e esperançoso: é que só nas costas do outro as tuas duas partes se unem com uma energia digna de admiração. Experimenta, sem outro corpo no meio, unir com força, com violência até, as tuas mãos, e verás o ridículo, perceberás a diferença de intensidade.
Mas por vezes – como bem sabes – não há outro corpo.»
[Gonçalo M. Tavares, Breves notas sobre o medo; Relógio d’Água, Maio 2007]

16 de maio de 2013

Apanha malhas
«... pediu ao balcão o livro do último prémio Leya. Andaram por ali, largando comentários sobre a essencialidade da literatura nas suas vidas e mostrando a sua relação íntima com os livros. Até que a mais gorda, arrebitando a crista, abanando o pelancame vermelho da barbela, olhou em redor e cacarejou assim ”Eu, se pudesse, levava a livraria toda!”. Saí, claro está. Fui enfiar-me numa loja chinesa a comprar collants. São mais baratos, a qualidade do fio é a mesma e as cores têm nomes bonitos: muskade, duna, tropical.»
 

14 de maio de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia


Às vezes, lá calha...

«A sua voz é repentina e grave, quase rude mas não muito alta. É como se ela não tivesse estado à espera de fazer tanto barulho ao falar.»
(William Faulkner)
[oh...]

Nem sempre a lápis (367)

até Jajouka
(2006)
27. O início do quarto crescente – com a Lua resumida a uma unha roída pendurada no lusco-fusco, a anteceder o gradual e perturbante esplendor da lua cheia – é um dos motivos mais estimulantes para pegar na cadeira de tabua e sentar-me lá fora para me esvaziar do esforço de ter cumprido mais um dia. Os outros são os infindáveis crepúsculos vistos daqui.
Partilho, como toda a gente, memórias inesquecíveis de crepúsculos e luas cheias que me colheram nos sítios e situações mais inesperadas. Para não falar dos que procurei, chegando a percorrer quilómetros, como tanta gente, para me sentar numa praia, numa falésia, no cimo de um cabeço, com a mesma ansiedade e entusiasmo de quem se desloca a um espectáculo, a um concerto único e intransmissível. Estou a lembrar-me, por exemplo, dos Police no estádio do Belenenses quando, um pouco antes do espectáculo começar, toda a gente viu uma rulote de bifanas descer a avenida levada em ombros pela torrente humana literalmente, walking on, walking on the moon e, já sentado nas bancadas de frente para o rio, vi, como toda a gente viu a Lua cheia poisar sobre o palco, ao mesmo tempo que passava um cargueiro, na mais fantástica, real e inesquecível montagem; com uma precisão que nenhum espectáculo multimédia, como então começava a estar em voga e hoje julgo repetirem-se até à exaustão dos efeitos especiais, jamais se poderia dar à vulgaridade de sincronizar.
Mas, se nesta situação as testemunhas, felizmente, abundam e é (era) frequente encontrar pessoas com quem, a meio da conversa, nos sentíamos subitamente ligados pela mesma corrente que electrizou o estádio do Belenenses, infelizmente, tive de me aguentar sozinho com as labaredas de uma lua cheia que pareciam incendiar o montado à volta de Terena, quando regressava a Reguengos de Monsaraz depois de jantar no Alandroal e ter ido até Badajoz só para passar o tempo. Inconscientemente, começava a sentir-me manifestamente incapaz de continuar a fingir que me interessava o tipo de convívio, a que então me forçava a actividade como responsável pelo gabinete de imprensa da prova alentejana de todo-o-terreno.
Sim, também passei por essas; entre outras.
A Lua surgiu-me inesperadamente ao nível do chão calcinado do montado; que eu quase jurava ter visto revolto e empoeirado pela surpresa, revelando as árvores espectrais no contraluz avermelhado de uma incomensurável câmara escura. Só tive tempo de corrigir a trajectória para não ir parar à valeta, enquanto me debatia com uma inexplicável (para mim) falta de rede das operadoras nacionais, abafadas pelas suas potentes e úteis congéneres espanholas, que me impediu de tentar partilhar o espanto, a surpresa com a Olga que, àquela hora, devia dormir absolutamente alheia às minhas habituais e imprevisíveis digressões nocturnas de antanho.
Não senti a ausência de um ou dois anos antes, quando despertei e dei por mim com o carro a trabalhar, à beira da estrada entre Saragoça e Barcelona, em plenos Mons Blancs. Ainda hoje, não me lembro do motivo que me levou a atirar com o carro para a valeta, e muito menos quanto tempo assim estive, até voltar a sentar-me ao volante e percorrer os restantes quilómetros que me separavam de Barcelona, entretido a brincar às escondidas com a Lua, que não me lembro se estava cheia ou se se esvaziava, como eu mais tarde comecei a desconfiar que me esvaziava de um determinado tipo de vida. Demorei alguns anos a contar este episódio à Olga, talvez porque «ninguém sabe explicar ao certo o que se passa connosco quando se abrem as portas que escondem os terrores da nossa infância», se é que Austerlitz não se enganou, e o mesmo se pode dizer de quaisquer portas da nossa existência, presente ou futura.
Saímos do Monte Alto com a melhor das intenções de irmos ver a Lua a Sines, decididos a não perder o Festival de Músicas do Mundo – agora já não havia desculpa, com ou sem os Master Musician of Jajouka –, percorrendo a velha estrada litoral a partir de Lagos, fazendo o percurso inverso ao que me revelou o reino do Al-Gharb, há cerca de trinta e cinco anos, sem que eu pudesse adivinhar que viria a viver exactamente a meia dúzia de quilómetros do Carvoeiro, que serviu de pretexto para arrancar de madrugada de Coimbra, rumo ao Sul. Enquanto a Olga sorria, a ver-me guardar o bloco e o lápis e a instamatic na mochila, para o que desse e viesse, prudentemente foi arrumando as toalhas e uma garrafa de água para o que veio: duas horinhas de praia na Amoreira, a catar pedras e a reviver histórias, a dar banho à nossa rotina.
Quando chegámos a Sines, estacionei sem dificuldade atrás do palco montado na marginal sob a falésia, onde se degrada, entregue ao vazio ou à indecisão tão habitual entre nós dos herdeiros, não sei, a casa que conheço como sendo a do avô do Al Berto. Sem me deixar abalar pelo medo das janelas vazias a olharem desorbitadas o entardecer, lembrei-me, inevitavelmente, de ali termos estado quase todos os que deram corpo às primeiras folhas volantes frenesi, então expostas no Centro Emmerico Nunes, onde fui ter com eles como jornalista do Diário de Lisboa limitado a meia dúzia de bytes. E enquanto ouvia a electrizada e electrizante saharauí Mariem Hassan, os meus olhos deliciaram-se a ver os netos que não tenho e os filhos que não tive, juntamente com os companheiros que fui perdendo pelo caminho, ou nos separámos na encruzilhada onde enveredámos por outro caminho, reconhecendo-nos na cumplicidade de um olhar onde já não há lugar para o medo.
E a Lua?
A Lua espreitava-nos por entre o cotão de curvas desde o Cercal até à entrada de Odeceixe, como se viajássemos dentro deste velho texto, escrito na Hermes 2000 que herdei do meu avô:

«Tenho uma visão (a cores) para António Reis:
sigo por um caminho velho, sob um azul forte. Ao longe, há uma povoação dos meus contos infantis e, indistintamente, de uma gravura antiga. O pó levanta-se atrás de mim, para onde vejo, e ouve-se o malhão. Se parar, cessará imediatamente, sei-o de um pavor anterior à visão. Nesse silêncio, ouvir-se-á o matraquear da Hermes 2000, que vem de cima e está fora de campo, embora se ouça ininterruptamente. O azul vai-se pondo, e quando regresso - trôpego, com a madrugada - mantém-se ao longe o arraial para onde vou.»*

A Lua espreitava-nos por entre os cerros do Cercal ate à entrada de Odeceixe, onde ainda subsistem, heróicas e feridas – o presente dedica-se a correr o passado à pedrada – as placas que insistem em indicar as desactualizadas distâncias que já não me separam do Algarve.

Papiro do dia (409)

«Ele pensa calmamente: “Eu não deveria ter perdido o hábito de rezar.” Depois já não ouve os passos. Agora ouve unicamente os numerosos e intermináveis insectos, encostado à janela, respirando o cheiro quente e ricamente maculado da terra, pensando em como ele tinha amado a escuridão enquanto era jovem, um jovem que andava ou ficava sentado sozinho entre árvores, à noite. Depois o solo, as cascas das árvores, tornaram-se verdadeiros, selvagens, repletos, evocativos, estranhos e desgostosos meios prazeres e meios horrores. Tinha medo disso. Temia; amava tendo medo. Depois, um dia no seminário, descobriu que já não tinha medo. Era como se uma porta se tivesse fechado algures. Já não tinha medo da escuridão. Simplesmente a odiava; costumava fugir dela para a proximidade de paredes, para a luz artificial. “Pois é”, pensa ele, “eu nunca deveria ter perdido o hábito de rezar.” Afasta-se da janela. Uma das paredes do escritório está forrada de livros. Pára em frente a eles, procurando até encontrar aquele que procura. É de Tennyson. Está deformado por um uso abundante. Tem-no desde o tempo do seminário. Senta-se debaixo do candeeiro e abre-o. Não demora muito. Em breve a linguagem fina e galopante, o definhar desvitalizado repleto de árvores sem seiva e luxúrias desidratadas começa a pairar meloso, veloz e pacífico. É melhor do que rezar, sem se dar ao trabalho de pensar em voz alta. É como ela não tivesse estado à espera de fazer tanto barulho ao falar.»
[William Faulkner, Luz em Agosto; trad. Jorge Telles de Menezes, Bibliotex, 2003]

13 de maio de 2013

C'os pés prá cova, alguém lá iria

Pelo cano


12 de maio de 2013

11 de maio de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

edição reguila na Guilherme Cossoul
(ontem e hoje e porque não, sempre?)

Às vezes, lá calha...

«E a memória sabe isto: vinte anos depois, a memória acredita: “Foi naquele dia que me tornei um homem.”»
(William Faulkner)

Nem sempre a lápis (366)

até Jajouka
(2006)
 
26. Entretido à espera de arrancar até Jajouka, lembro-me que a imagem mais agradável – praticamente, única e indelével – que conservo da minha excessivamente longa permanência em Lisboa, é a de um vulgar entardecer, no final de Setembro ou princípio de Outubro de 74, com um banco sob a copa de uma árvore enorme, logo no começo do jardim do Príncipe Real, vindo do Rato.
Tinha um quarto ali perto. Enquanto pude, recusei ter uma casa e deambulei pelos mais variados quartos – de pensões, alugados, emprestados, vagamente partilhados, cheguei a dormir com a Nico no armazém da & etc., um antigo estábulo de fidalgos na rua da Emenda –, até à iminência do nascimento do Diogo. Só em Dezembro de 76 alugámos o opressivo e deprimente 7.º andar em Carnaxide, Praceta Gomes Leal, onde cheguei a alimentar a esperança de me sentir em casa; a compra, forçada, uns dois anos depois, gorou todas as possibilidades de me sentir em paz e integrado numa casa, como me sinto aqui, no Monte Alto.
Tinha um quarto ali perto, numa das ruas do quarteirão que delimita um outro jardim – o das Amoreiras, pelo qual não nutria especial simpatia, talvez pelo risco de tropeçar nos inteligentes que conspiravam num bar da zona –, e quando acabava o período de reclusão no edifício da antiga Emissora Nacional, no cruzamento da Duarte Pacheco com a Artilharia 1, gostava de descer a pé até à Livraria Opinião, à cervejaria da Trindade e, raras vezes, até à Brasileira do Chiado, a saborear uma Lisboa ainda semi-adormecida, mas com as paredes já irreversivelmente tatuadas pela fulgurante passagem da revolução.
Admito que possa ser uma mania minha, uma obsessão, uma perspectiva de lesa-majestade, por insistir em considerar que o 25 de Abril durou a estupefacção e explosão de alegria que decorreu entre essa manhã e a tarde do primeiro 1.º de Maio; a tarde em que a Revolução foi loteada, adeus ó vindima. Fui variadíssimas vezes ameaçado e apelidado de tudo e mais alguma coisa que, concedo, só o delírio febril que então se vivia poderá justificar. O futuro encarregou-se de comprovar, para mim foi inequivocamente revelador do verdadeiro íntimo das tais excrescências revolucionárias que, também elas, foram determinantes para os compadres da Alameda lhe lavrarem a certidão de óbito, oficializada e tornada pública com o tétrico e vagamente chileno 25 de Novembro. Vagamente, porque nos ficamos sempre e em tudo, apenas pela encenação, artesanal e barata, mais por amor à camisola do que verdadeiramente ao corpo que, como se sabe, deve ser quem mais ordena.
Eram caminhadas deliberadamente lentas – alheias a qualquer desconhecido pretensiosismo walseriano –, não só porque não sabia nem queria ter nada para fazer, mas sobretudo para saborear as montras das pequenas mercearias, cafés, drogarias, cabeleireiros, retrosarias e tascas que, a partir da tríade habitual, constituída por antiquários, lojas de decoração e a galeria de arte (muito dada aos surrealistas e onde vi desenhos de Michaux), começavam a transmitir vida vivida à rua. Ela ainda era percorrida pelo vaivém ronceiro dos eléctricos apinhados de gente e mãos-leves, para rabos e carteiras, com penduras nos estribos de um eléctrico que se prezasse, sem que o revisor jamais se atrevesse a repreender esses camaradas; revisores e penduras, encontravam-se todos, mas todos ao lado do povo. Essas caminhadas, quando saía com entrada condicionada, por me encontrar detido pelo trabalho na E. N. logo a seguir ao 25 de Abril, começavam, invariavelmente, por me abastecer com um copo, demorado e autista, sentado – quando não ocupada pelo casal residente, a Paula Almada Negreiros e o Álvaro Cabeça de Vaca – à mesa de pedra junto à janela da taberna na esquina do largo do Rato com a rua de São Mamede, entretanto travestida de não sei quê, porque fizemos sempre questão de manter a fachada.
Nessa tarde, a tarde em que me sentei num banco sob a copa de uma árvore enorme do jardim do Príncipe Real, sentia-me possivelmente radiante por ter apanhado o elevador para o refeitório e ter sido alvo de provocações de elementos do MRPP, ter subido do refeitório e ter sido alvo de provocações de elementos do PCP, sendo a ordem absolutamente arbitrária e entediantemente repetitiva sem que alguma vez me desse por achado. Encontrava-me ainda deslumbrado pela facilidade com que tinha chegado à cidade e arranjado um emprego vistoso, não os conhecia de lado nenhum e recusava-lhes qualquer espécie de proximidade, escolhendo cuidadosamente a mesa onde me sentava, preferencialmente sozinho, a almoçar. Nessa altura, e se é que ainda tinha dúvidas quanto à minha ocupação, o Vitor [Silva Tavares] ficou ao corrente até que ponto eu fazia de conta na E. N. Lembro-me que era sábado e me tinha calhado o castigo rotativo de ficar a olhar para os jornais e a olhar para a rua, empoleirado num estirador quatro andares acima do passeio da Duarte Pacheco, quando ele me telefonou, muito excitado, a perguntar se eu sabia alguma coisa sobre uma tal silenciosa Manifestação Silenciosa. Jurei-lhe, a pés juntos, não ter ouvido nada; absolutamente nada.
Descia eu esse demorado percurso – que me separava da agreste incompatibilidade com a realidade para me entregar progressivamente na imensidão do devaneio ao entardecer, como jovem poeta que era – quando, percorridas talvez centenas de vezes o mesmo irrepetível percurso; quando terminado o pano de casas onde a rua cede o nome ao jardim, dei com o tronco levemente tombado e as raízes mais ansiosas pela secular autonomia a aflorarem o chão, num esforço irreprimível que levantava a calçada do passeio. Possivelmente, esperei que os automobilistas desrespeitassem a prioridade dos peões, admitindo que me tenha dado jeito prolongar o sabor da chegada, como os passageiros aguardam que o navio atraque e encostem a escada ao portaló; a manga seja acoplada à fuselagem do avião; o comboio pare e as portas se abram com um silvo pneumático, e só depois percorri os poucos metros de asfalto listado para me sentar no banco vazio que me aguardava sob a copa de uma árvore enorme do Príncipe Real.
Era um velho banco com ripado de madeira, assente numa estrutura de ferro fundido pintada de verde ou alumínio, igual aos bancos que faziam parte do mobiliário urbano de uma Lisboa provinciana, onde se pretendia que os costumes eram brandos, mas o Império embravecido desmoronava-se a olhos vistos, sem necessidade de assomarmos à rua da Misericórdia para nos compadecermos com o vazio do rio. Aproximei-me dele como dois desconhecidos com encontro marcado se reconhecem à medida que entre eles diminui a distância e a reserva inicial, e sentei-me sensivelmente a meio, abrindo os braços como se avaliasse a dimensão do assento e os meus dedos procurassem decifrar nos veios de madeira descuidada, sinais ou memórias que o dourado do entardecer ajudasse a reconhecer, encaixilhadas para o futuro. Permaneci ali até o banco e eu darmos por terminado, saciado o tempo que, possivelmente, ambos necessitávamos, sem darmos pela diminuição do trânsito, das filas para o eléctrico e para o autocarro; sem nos apercebermos que o lento violeta dos candeeiros cedera ao amarelo coalhado que iluminava a noite; noite da tarde em que não desci até à Livraria Opinião, à cervejaria da Trindade, menos provável ainda à Brasileira do Chiado, como se, inconscientemente, antecipasse a leitura de um livro de John Berger, onde viria a compreender que, também eu, esperava que «dentro de uma ou duas semanas, África, que começa, digamos, na outra margem do Tejo, começasse a impor a sua presença, distante, mas palpável.»

Papiro do dia (408)

«A consciência, não o sofrimento, traz-lhe à memória milhares de ruas solitárias e abandonadas. Elas começaram a correr desde aquela noite em que estava estendido no chão quando ouviu o último passo e depois a última batida da porta (eles nem sequer apagaram as luzes), e depois ficou deitado, calmamente, de costas, com os olhos abertos enquanto por cima o globo suspenso ardia com um brilho fixo e doloroso, como a luz de uma casa onde toda a gente tivesse morrido. Não sabia há quanto tempo se encontrava ali. Não pensava de todo, nem sofria. Talvez tivesse consciência de que algures, no seu íntimo, os dois terminais desunidos dos fios da vontade e da sensibilidade, agora sem contacto, esperavam restabelecê-lo, unir-se de novo para que ele pudesse mover-se. Enquanto acabavam os seus preparativos para partirem, os outros passavam de vez em quando por cima dele, como pessoas que estando prestes a deixar uma casa para sempre passam por cima de um objecto qualquer que tencionam deixar para trás.
Depois, desapareceram: o passo final, a porta final. Depois ele ouviu o carro abafar o ruído dos insectos, pairar por cima dele, baixando depois de nível, ficando mais baixo do que o nível dos insectos, de forma que por fim ele só ouvia os insectos. Estava ali deitado por baixo da luz. Ainda não se podia mexer, do mesmo modo que podia olhar sem ver, ouvir sem ter consciência; os dois terminais ainda desunidos enquanto ele estava estirado calmamente, lambendo de vez em quando os lábios, como fazem as crianças.»
[William Faulkner, Luz em Agosto; trad. Jorge Telles de Menezes, Bibliotex, 2003;
por vezes um puro é apenas um charuto]

10 de maio de 2013

Puxar a brasa à sarda

 
[lá para Setembro, se correr bem]

8 de maio de 2013

Breve interlúdio musical