30 de novembro de 2013
Às vezes, lá calha...
«O desgosto é uma condição humana e não médica e, se há comprimidos para nos ajudar a esquecê-lo – e tudo o resto – não há comprimidos para o curar.»
(Julian Barnes)
Nem sempre a lápis (458)
Memória descritiva
Laranja
A estrada para o Caramulo acendia-se de laranjas.
A berma ladeava-se de cestas traiçoeiras, que desafiavam a atenção dos condutores e atiçavam discussões familiares.
A que lhes era alheio o sabor e o preço.
Pelo caminho ficavam as confidências das meninas.
Seios à dimensão de uma laranja, revelados em aulas improvisadas pela curiosidade.
Os gomos adocicavam-nos o tacto, sem que os dedos se quebrassem na expectativa.
Miller fez-me correr pomares à procura das laranjas de Hieronymus.
Mas tudo quanto vi foram as cascas deixadas por Al-Mu’tamid, junto ao sabor uniformizado pela Europa.
Uma vez, o vento atirou-me uma azahar para dentro do chá, em Tânger.
Finalmente, a flor da laranjeira sossegava-me a cabeça no regaço das estradas.
Papiro do dia (418)
«Depressa percebi que o desgosto seleciona e reorganiza os que estão à volta de quem sofre; que alguns passam e outros reprovam. Velhas amizades podem intensificar-se através da dor partilhada; ou revelar-se de repente superficiais. Os novos são melhores que os de meia-idade; as mulheres são melhores que os homens. Não devia ser surpresa, mas é. Afinal, esperávamos que os mais próximos em idade e sexo e estado civil percebessem melhor. Que ingenuidade. Lembro-me de uma “conversa, à mesa de jantar” de um restaurante, com três amigos casados que tinham aproximadamente a minha idade. Todos a conheciam há muitos anos – talvez oitenta ou noventa, no total – e todos teriam dito, se lhes perguntassem, que gostavam muito dela. Mencionei o seu nome; ninguém deu resposta. Voltei a fazê-lo e nada. À terceira, talvez eu estivesse deliberadamente a tentar provocar, irritado com o que me parecia não boas maneiras, mas cobardia. Receosos de tocar no nome dela, três vezes a negaram e, por isso fiquei com a pior ideia acerca deles. Há a questão da raiva. Alguns ficam zangados com a pessoa que morreu, que os abandonou, que os traiu ao perder a vida. Há coisa mais irracional do que isto? Poucos morrem por vontade, até a maior parte dos suicidas. Alguns dos que são atingidos pelo desgosto ficam zangados com Deus, mas, se Ele não existe, também isso é irracional. Há os que ficam zangados com o universo por deixar que as coisas aconteçam, que sejam inevitáveis e irreversíveis. Não senti propriamente isso, mas, durante aquele Outono de 2008, li os jornais e segui os acontecimentos na televisão com uma indiferença avassaladora. Por alguma razão dei muita importância a que Obama fosse eleito, mas muito pouca ao resto do mundo. Diziam que todo o sistema financeiro podia estar à beira de cair e se despenhar, mas isso não me incomodava. O dinheiro não podia salvá-la, então para que servia o dinheiro e para quê salvar-lhe a pele? Diziam que o clima mundial atingira um ponto sem retorn, mas podia atingir esse ponto e continuar, que para mim era igual. Eu voltava do hospital para casa, de carro; e num dado lugar da estrada, mesmo antes de uma ponte ferroviária, vieram-me à ideia estas palavras que repeti em voz alta: “É simplesmente o universo a fazer o seu trabalho.”»
[Julian Barnes, Os níveis da vida; trad. Helena Cardoso, Quetzal, Novembro 2013;
can you hear me now?]
can you hear me now?]
29 de novembro de 2013
28 de novembro de 2013
27 de novembro de 2013
25 de novembro de 2013
Às vezes, lá calha...
«O desgosto reconfigura o tempo, a sua extensão, a sua textura, a sua função: se um dia não significa mais do que o seguinte, então porque foram destacados e receberam nomes separados?»
(Julian Barnes)
Nem sempre a lápis (457)
Memória descritiva
Jogo
Aspirei atmosferas de fumo, ingeri consideráveis gramas de lisérgicos, e naufraguei em oceanos de álcool.
Durante anos, fiz questão de nunca comer em jejum.
E essa tão aplaudida atitude, fez-me perder o apetite.
Comecei a passar-me na tropa, celebrando a peluda e, imediatamente, o 25 de Abril, com LSD e tudo o mais prescrito pelas vanguardas escancaradas.
Onde insistia em incorporar-me.
Pouco depois, no imenso balcão da Rádio Comercial, aderi à tasca.
Acompanhando as suas vozes mais invejadas e carismáticas.
Tive mestres entre a fina-flor radialista, e os mais solicitados marginais deste beco intelectual.
Um dia, apercebi-me de que só bebia porque queria.
E apercebi-me também, que não queria deixar de querer.
Confrontado com este dilema, habituei-me ao show off do internamento, na expectativa das saídas para me empitrolar.
Andei nisto, meses.
Ao terceiro internamento, cansei-me do ritual e decidi nunca mais beber.
Como antes decidira não me janar mais.
Ou talvez o álcool transportado pela euforia da Comercial se tivesse sobreposto à actualidade da passa e dos ácidos.
Andei mais de um ano assustado com autênticos buracos negros na memória, enfeitados pela mania da perseguição.
Sobressaltava-me a ideia de ser acusado por ter feito qualquer coisa - péssima, claro - de que não tinha a menor ideia.
Com o tempo, esqueci-me.
Como me tenho esquecido de tantas outras coisas.
Só me recordo, quando algum drogado ou algum alcoólico, me chama careta.
Papiro do dia (417)
«Às vezes queremos continuar a amar a dor. E depois, para além disto, aparece outra questão bem delineada sobre a nuvem: o sucesso na dor, no luto, na mágoa é uma realização ou uma simples e dada condição que agora é nova? Porque aqui a noção de livre-arbítrio parece irrelevante; a atribuição de virtude e finalidade – a ideia de recompensa pelo luto – parece deslocada. Pode ser que desta vez a analogia com a doença seja válida. Estudos de doentes com cancro mostram que a atitude de espírito tem muito pouco efeito no resultado clínico. Podemos dizer que estamos a combater o cancro, mas é o cancro que simplesmente nos combate; podemos pensar que o derrotámos, e ele retirou-se para se reorganizar. É só o universo a fazer o seu trabalho e nós somos o trabalho de que ele é feito. E talvez seja igual com a dor. Imaginamos que lutámos contra ela, que fomos resolutos, que superámos a mágoa, raspámos a ferrugem da nossa alma, mas o que aconteceu foi que a dor se mudou para outro lado, ganhou novo interesse.»[Julian Barnes, Os níveis da vida; trad. Helena Cardoso, Quetzal, Novembro 2013]
23 de novembro de 2013
Às vezes, lá calha...
«Os escritores acreditam nos padrões que as suas palavras formam, e esperam e confiam que elas produzam ideias, verdades, histórias. É sempre essa a sua salvação, com ou sem dor.»
(Julian Barnes)
Nem sempre a lápis (456)
Memória descritiva
Ilha
Alcancei-a do ar, ao fim de Maio.
Como um Ícaro fundido pelo lusco-fusco do verde, estatelava-me irremediavelmente no arquipélago.
Um pé numa rua de Coimbra, homónima, outro algures nos Açores.
Durante anos, a palavra ilha serviu-me de argumento para as mais desconcertantes desculpas.
A poesia ainda hoje é uma boa desculpa, e as minhas tentativas de aproximação à ilha, até se manifestavam nas opções do tabaco.
Essa pequena Ilíada.
Finalmente, eu tinha uma ilha sob os meus pés, e não sabia o que fazer com ela.
Nem vislumbrar-lhe os limites do mar, encandeado pelas decorações do Divino Espírito Santo.
Só no dia seguinte, quando a cabeça de uma vaca se intrometeu entre a janela aberta do quarto e o mar, eu percebi que estava entregue à sorte dos mistérios, no Atlântico.
Desci aos Fenais da Luz para apanhar a carreira, e não descortinei atlantes entre os rostos basálticos da taberna.
Em contrapartida, a carreira foi arrebanhando estudantes saídos das canadas, acompanhada sempre pelo voo rápido dos canários, que desviavam o curso à vista da cidade.
Permanecem iletrados, suponho.
Papiro do dia (416)
«Deus morreu e já não está lá a ver-nos. Por isso temos nós de nos ver. E Nadar deu-nos a distância, a altitude para o fazermos. Deu-nos a distância de Deus, a visão do olhar de Deus. E onde chegou (até agora) foi ao Nascer da Terra e àquelas fotografias tiradas da órbita lunar, nas quais o nosso planeta parece praticamente igual a outro planeta qualquer (exceto para um astrónomo): silencioso, rotativo, lindo, morto, irrelevante. Que pode ter sido como Deus nos viu e a razão pela qual se ausentou. É claro que não acredito no Deus Ausente, mas uma história assim é um belo paradigma.
Quando matámos (ou exilámos) Deus, matámo-nos também. Demos realmente por isso, na altura? Nem Deus, nem vida depois da morte, nem nós. Fizemos bem em matá-lo, é claro, ao nosso amigo imaginário de longa data. Também não íamos ter vida nenhuma depois da morte. Mas serrámos o ramo onde estávamos sentados. E a vista de lá, daquela altura – ainda que fosse uma vista ilusória – não era assim tão má.»
[Julian Barnes, Os níveis da vida; trad. Helena Cardoso, Quetzal, Novembro 2013]
[Julian Barnes, Os níveis da vida; trad. Helena Cardoso, Quetzal, Novembro 2013]
22 de novembro de 2013
Dar a face...
«Tante Marie tinha uma relação problemática com os parisienses. Vivia numa pequena quinta em Cognac (sim, exactamente aí onde se destila a excelência francesa do mesmo nome), rodeada de galinhas, patos e coelhos, orgulhosa das suas couves e das suas cenouras. No quintal, lembro-me, havia uma árvore que dava dióspiros.
A partir de Novembro a lareira estava sempre acesa na sala de entrada da casa e Tante Marie aproveitava o lume para nos preparar deliciosas galletes à maneira bretã, exigindo-nos que as comêssemos, indiferente aos nossos protestos contra o presumível acréscimo de matéria adiposa que ela assegurava ser uma garantia contra a descida das temperaturas.
Em Cognac raramente nevava, mas, ainda assim, fazia muito frio. Condenadas ao Inverno, as nossas almas elevavam-se na melancolia dos entardeceres prematuros degustando patés, queijos e tartes e Bordeaux, tudo de primeiríssima qualidade.
Por vezes, quando se encontrava na horta debruçada sobre os vegetais, examinando-os com o rigor que se imagina Madame Curie poria nas suas anotações científicas, o barulho de um carro mais veloz interrompia a revista às cenouras e às couves e Tante Marie exclamava em tom reprovador: Ah! voilà les parisiens!
Até poderiam não o ser. Para aquela mulher pequena de aspecto frágil, capaz, todavia, de despachar numa só tarde dez ou mais coelhos de um golpe certeiro, parisien era tão-só sinónimo de urbano-ó-parvo. Sobre estes, tinha ideias tão definitivas como o gesto com que aviava os desafortunados albinos: pobres Bouvard e Pécuchet passeando-se pelos campos nomeando em voz alta os legumes: «Olha, cenouras! Ah, couves!», trocando sempre as referências.
Para Tante Marie, tratava-se da prova provada da idiotice urbana. Estivera em Paris apenas uma vez, logo após o seu casamento, já Hitler estiraçava os seus tentáculos pela Europa fora. Nessa altura, o mercado Les Halles não se convertera ainda no gigantesco centro comercial que o tempo haveria de provar ter sido une idée de merde, o pitoresco Marais não suspeitava sequer do seu futuro gay-chic nem a rive gauche da explosão do Maio de 68. La Defense, claro, não existia, e nem nos sonhos mais megalómanos de François Mitterand lhe passaria pela cabeça vir a ser o arquitecto de La Grande Arche, sem dúvida o melhor de La Defense, esquadria perfeita com o Arc-de-Triomphe que, esse sim, Tante Marie pôde visitar, garantindo no entanto a quem a quisesse ouvir que era bem mais bonito visto de longe.
Quanto à Torre Eiffel, apesar de se ter recusado a subir os 1 665 degraus que a teriam levado ao topo das suas 10 100 toneladas (contas feitas, 324 metros, incluída a antena), Tante Marie ainda agora recordava como se sentira esmagada pela vertigem daquele monstro de ferro.
De regresso a Cognac, comprada uma imagem da Notre Dame que os anos e o chauffage haveriam de amarelecer, pouco tempo depois os alemães fariam a sua entrada triunfal na Cidade das Luzes, para se retirarem cumprido o banho de sangue que não pouparia Tante Marie à morte de um sobrinho, alguns vizinhos e conhecidos. Nunca perdoou aos boches, a quem odiava ainda mais do que aos parisiens, e isso é já dizer tudo.
Mas nem os nazis ousaram reeditar a demência de Nero, o incendiador de Roma. Apesar da carnificina, Paris nunca chegou a arder.
Sabendo-se, pois, que Tante Marie nunca mais lá voltou, podemos – no momento em que me passeio, tantas décadas decorridas, pela gigantesca Feira da Ladra que são os Puces de Clignancourt em busca de um blusão de cabedal à Major Alvega – situá-la sem grande risco à la campagne, qual alquimista submersa em grandes panelas de ferro mexendo compotas que tardam a chegar ao ponto.
Estávamos no Outono e eu desesperava no meio de uma multidão mestiça por encontrar o «meu» blusão. O amigo que me acompanhava desesperava ainda mais do que eu.
Foi então que avistei uma tenda de chapéus. Milhares de chapéus. Chapéus de todas as formas e feitios, usáveis e menos usáveis, de colecção, de teatro, masculinos e ultrafemininos, de Verão e de Inverno, em bom ou mau estado... Enfim, uma tenda-paraíso para apreciadores dos ditos. É o meu caso. Eu adoro chapéus, ainda que reconheça que é difícil usá-los.
A mulher atrás do improvisado balcão aproximou-se de mim naquele jeito nonchalance que só as temíveis consièrges parisienses parecem não praticar. Explico-lhe que vim à procura de um blusão de cabedal e que não posso agora trocá-lo por um objecto tão inversamente delicado como um chapéu. A resposta saiu-lhe pronta: "Ah, mais justement, ça serait très féminin!"
A incoerência convence-me. Regresso de Clignancourt com um chapéu negro de amazona de véu comprido a flutuar ao vento que não fazia...
Nessa noite, ao entrar no Le Mazet, bar que então frequentávamos no Quartier Latin (mesmo ao lado do Le Procope, o café mais antigo de Paris, eleito de Rousseau e Voltaire, só para não ir mais longe), onde nos deliciávamos com balões aquecidos de Cognac que nos provocavam arroubos de nostalgia à lembrança de Tante Marie, o dono precipita-se do balcão e dirige-se-me de braços abertos: "Mademoiselle, vous êtes ravissante!"
Em que outra cidade do mundo nos acolheriam desta forma, só por trazermos na cabeça um despropositado chapéu visivelmente encombrant?
E outra pergunta. Poderá o Canal Saint-Martin, anacronismo perfeito de uma cidade frenética, precipitar uma declaração de amor?
Foi precisamente aí, numa das suas margens, que Flaubert marcou o encontro decisivo entre os dois manga-de-alpaca (Tiens: des carottes! Ah! Des choux!), aquele que os levaria depois à comunhão suspirosa de quão bem estariam no campo!
Quanto a nós, há já alguns parágrafos que abandonámos Tante Marie, rendidos à beleza desta cidade que guarda, para além dos imensos boulevards rasgados por Haussmann, recantos como este, onde o tempo se submete ao ritmo lentíssimo do escoar das águas pelas comportas abertas, fazendo-nos recuar a essa tarde novecentista em que Bouvard e Pécuchet iniciam o mais maravilhoso de todos os livros inacabados.
Paris. Decididamente burguesa. Ostentatória. Por vezes arrogante e demasiado formal. Cidade onde até o garçon de café se crê herói da Comuna, isto sem demérito para os garçons nem excessiva admiração por aquela, que, como se sabe, fez bastante mais vítimas para além de Antonieta, rainha que terá subido ao cadafalso na que hoje se chama Place de la Concorde sem perceber sequer o que lhe acontecia. Cidade onde já foi o tempo em que «as coisas não acontecem de todo se não acontecem em Paris». Mas caramba! Mesmo enterrada a boémia que caracterizou durante anos esta capital, quem não se comover com o we always have Paris! que mande este texto às urtigas.
Porque eu só queria contar isto: era uma tarde de Primavera num jardim de que esqueci o nome. Dois namorados aproximam-se e, o tempo de acender o meu Bastos legère sans filtre (um marca entretanto desaparecida), sentam-se no banco em frente ao meu. Lia um livro (não, não era Proust), e quando voltei a página já eles se confundiam, beijando-se, abraçando-se e escorregando gravitacionalmente para a posição horizontal, cegos aos olhares que, diga-se em abono da verdade do que agora escrevo, se mostravam bastante complacentes para com a efusividade primaveril do jovem casal.
Foi então que fez a sua aparição o clochard, encarnação perfeita de Michel Simon em Boudu Sauvé des Eaux.
Isto passa-se, portanto, no tempo em que ainda existiam Bastos legère sans filtre e vagabundos por conta própria. O homem dirige-se para os corpos confundidos. Toca nas costas do rapaz. Não há resposta. Toca de novo. Nada. Abana-o já com algum vigor quando um rosto ruborizado e de cabelos desgrenhados se destaca no meio da confusão de braços e pernas.
"Oui?" "Tens um cigarro?" O rapaz está de pé e revista os bolsos enquanto a namorada compõe a blusa. "Não tinhas deixado de fumar?", diz-lhe ela. "Ah! Mais oui, mais oui", responde-lhe ele às voltas com as mãos inúteis. O clochard encolhe os ombros e segue. Passa por mim. Eu estou ainda a fumar. "Tu as vu les amoureux?", confidencia-me en passant. Não repara sequer que lhe estendo o maço.
Paris, uma punhalada no coração, escreveu Jack Kerouac que era um viajante solitário e nunca conheceu Tante Marie.»
[... pelo book de outros]
[... pelo book de outros]
20 de novembro de 2013
«Percebi que estava a viver um dos grandes momentos da vida, quando sentimos, sem patetismo ou sentimentalismo excessivo, a alma a encher-se da sensação maravilhosa do estado de graça.»
(Sándor Márai)
[destino]
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