7 de fevereiro de 2014

Hoje é dia de pai

7 de Fevereiro, 1977, 11h00

5 de fevereiro de 2014

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Nunca vou esquecer o sexo que vivi contigo,
mas não foi só por isso que te amei.»
(Teolinda Gersão)

(Nem sempre a lápis (484)

Memória descritiva
Silêncio
Creio que o vislumbrei através do espaço dos castigos:
o sótão, a parede, a sala vazia das escolas e colégios.
E também as igrejas e o quartel, que eram outras formas de punição.
Devo ter-me portado muito mal - como diz quem se porta bem - para a minha formação lhes ter merecido tantas atenções.
Depois aprendi outros silêncios:
a vastidão das fazendas, em Salgueirais, a solidão dos montes alentejanos, a parada do quartel, em Santa Margarida.
Quando comecei a fugir, às vezes parava o carro e saía para ouvir a noite.
Mas a única vez que me senti perto do silêncio, foi em Aragão, no meio dos Montblancs.
Ao contrário do que me disseram, ou julgava ter ouvido, a morte é a coisa menos silenciosa.
Pelo menos, a avaliar pelos vivos.
Dizem, ou melhor, acusam-me cada vez com mais frequência, que estou a ficar descompreendido.
Se calhar, julgam eles, para me pouparem o desgosto de estar a ensurdecer.
Quem me conhece, sabe como cultivo essa espécie de autismo, onde julgo encontrar-me com o silêncio.
Mas, embora silenciosa, não creio que a surdez seja a via do silêncio.

Papiro do dia (434)

«Ama-se alguém porque sim, e não há nada que explicar. O grande equívoco da pornografia é acreditar que o sexo pode ser visível. Porque não é: faz-se, sente-se, vive-se, fica na pele, no corpo, na alma, na memória, mas está para além do que os olhos podem alcançar. O sexo é invisível. Contá-lo é como contar uma viagem de barco a partir da margem, analisando as oscilações da água e as posições do navio, sem ter embarcado. Quando a única coisa real era a viagem. Só depois se podia, sempre de modo imperfeito e aproximado, falar dela. É verdade que comecei por admirar o teu rosto e desejar o teu corpo. Notava a maneira como te vestias, que nunca era ostensiva nem provocante, era pelo contrário discreta, levemente sofisticada. No entanto a forma como te vestias despertava-me o desejo de despir-te.»
[Teolinda Gersão, A cidade de Ulisses; Sextante, 3.ª ed. Outubro 2012]
 

3 de fevereiro de 2014

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

«Rapprocher le travail de l'ecrivain et celui de la danseuse est une métaphore,
ce n'est pas un jeu de mots.»

Às vezes lá calha...

 

«Já cheguei a um acordo perfeito com o mundo:
em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silêncio.»
(Raduan Nassar)
 

Nem sempre a lápis (483)

Memória descritiva
Salto
Pertenço a uma geração que antecipou os pátrios êxitos no atletismo.
Pouco dado aos desportos, os estádios, balneários, a destreza de lançamento do botão ou do pião, colheram sempre a minha incompreensível indiferença.
Embora algumas cabeças me reconhecessem uma inesperada pontaria.
Ou vocação para as abrir à pedrada.
Nesse tempo era assim, ainda não tinha aprendido outras armas.
Porque existem muitas e desvairadas formas de se abrir uma cabeça.
A minha aversão aos desportos, era proporcional à obrigação da ginástica e moral.
Disciplinas determinantes para nos inculcarem uma vontade enorme de desobediência.
Pelo menos, falo por mim.
E já não é pouco.
Começámos a treinar à frente do sarrafo do guarda da serração.
Do feitor que nos contrariava o apetite frutícola.
Dos choques que nos zurziam nas cidades universitárias.
Era ainda o atletismo, uns quantos metros barreiras, a maior parte das vezes consagrados no hospital e na prisão.
Desporto de elites, como se depreende, até pelo desvelo com que o regime unificou as duas instituições.
O salto era reservado à mão-de-obra barata, sem perigo de qualificação, e lucro garantido.

Papiro do dia (433)

«Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo se repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo “ciao” ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiverem em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado), e se agache depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.»
[Raduan Nassar, Menina a caminho; Cotovia, Outubro 2000]

30 de janeiro de 2014

Breve (comovente) interlúdio musical


Porque a Saúde não é uma opção política


Às vezes, lá calha...

«As cigarras cantavam suavemente nas copas das árvores; até mesmo os pardais eram menos estridentes que os da aldeia. Porque seria que todas as pessoas e animais pareciam muito mais mansos no exército?»
(Ha Jin)

Nem sempre a lápis (482)

Memória descritiva
Rua
A minha rua era uma estrada, e nacional.
Delimitada por uma curva e uma ponte, obrigava-nos a olhar à esquerda e à direita, antes de nos lançarmos à conquista daquele espaço inferior a um quilómetro.
Tinha um marco azul e branco, onde se lia que a estrada era a 345, com destino fixo em Nelas, vindo da Mealhada.
Nunca nos ocorreu outro sentido que não este, em flagrante contradição com as regras da leitura.
Outros marcos mais pequenos marcavam-lhe as centenas, com o número bem gravado na superfície branca, ligeiramente biselada para facilitar a leitura dos condutores.
Era a minha rua, aquele pequeno troço da EN 345.
A partir da ponte, ou da curva que a limitava à esquerda da minha abordagem, era o Infinito.
Quando tinha acesso a um mapa, procurava logo a minha rua.
Nem todos se podiam orgulhar de ver a sua rua no mapa, e entretinha-me a imaginar o trânsito e a minha presença no emaranhado da rede viária, como uma impressão digital.
Um dia chegou a minha vez de a percorrer.
Ceder à tentação de me perder no labirinto proposto pelo mapa.
Esgotei-o depressa demais, e dei por mim junto à abstracção defendida com armas das fronteiras.
Contornei-a pelo lado mais humano, que era um caminho anónimo, paralelo à linha-férrea.
E nunca mais parei.
Nem para me voltar para trás, e ver que a minha estrada tinha desaparecido do mapa, e conquistava finalmente a dimensão de uma rua.

Papiro do dia (432)

«Ao longo de toda a manhã, sempre que não estava ocupado com um paciente, dava por si a pensar no encontro de Manna com o comissário Wei. Sentia-se muito inquieto, porque tinha ouvido histórias horríveis acerca da vida privada dos oficiais superiores e receava que Manna pudesse tornar-se uma das suas vítimas. Falava-se muito do general-de-campo, o comandante Pengfan Hong, que costumava mudar de esposa de três em três ou de quatro em quatro anos, porque era demasiado selvagem na cama para que uma mulher normal o pudesse suportar durante muito tempo. Todas elas caíam doentes um ano após o casamento, acabando por morrer de uma doença renal. O Partido ia conseguindo arranjar-lhe novas esposas, mas, após a morte de diversas mulheres, o comandante foi finalmente persuadido a casar com uma grande mulher russa, a única que conseguiu permanecer ilesa após sete anos de vida em comum. Os receios de Lin agravaram-se quando lhe disseram que o comissário Wei era um homem corpulento.»
[Ha Jin, À espera; trad. Rui Pires Cabral, Gradiva, Agosto 2000]

22 de janeiro de 2014

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Um bom casamento estava cheio de momentos de discórdia. O casamento rotineiro, esse, sim, é que estava destinado ao desastre. Numa palavra, as diferenças entre marido e mulher só serviam para ajudar a consolidar um casamento.»
(Ha Jin)

Nem sempre a lápis (481)

Memória descritiva
Quadro
Terá sido preto, o primeiro de que me recordo.
Preto da ardósia enorme onde esboçávamos as primeiras letras a giz, e lhe acrescentava a surpresa figurativa.
Outros pairavam por perto.
Em suportes tão diferentes como o cartão onde vinham as camisas novas do meu pai, dos caixotes de óleo da oficina e a madeira indefesa da carteira.
Ou até a terra do quintal onde cresci.
Nunca as árvores.
Muito cedo me apercebi que antes de fazer um desenho, ou pintar, precisava de o situar num espaço.
Como uma janela, por onde olhava o mundo.
Ou tentava fixá-lo como um retrato interior.
Muitos outros suportes se lhes seguiram: desde os papeis, aos tecidos, dos metais, às madeiras e ao vidro.
Ultrapassada a alegria da terra, e o fascínio efémero da areia da praia, permanece a vontade do ar.
Como uma ausência.