17 de setembro de 2010

Nem sempre a lápis (82)

(...) Quando abri o Google para procurar Jajouka, a minha ideia resumia-se apenas a confirmar a localização, lida algures, da divulgadíssima aldeia do sudoeste do Rif, mas que já não faz parte do Pays Jebala. Provavelmente, folheada numa dessas revistas que acabaram por transformar os quiosques numa espécie de baús de viagem perdidos, remendados com autocolantes de hotéis e termas, aviões parados no ar, praias idílicas, onde não se ouve a rebentação; praias que perderam a voz nas agências de viagens.
Jajouka entrou para o imaginário de sucessivas e cada vez mais incansáveis gerações de papa-léguas, a partir do longínquo dia em que Brion Gysin teve a peregrina ideia de contar a Paul Bowles (ou terá sido o contrário?) a existência de uma tribo sufi, que, por sua vez, a transmitiu a William Burroughs. Como o exótico achado terá chegado ao conhecimento dos Rolling Stones já faz parte da lenda. Lenda que se tornaria ainda mais lendária com a morte de Brian Jones, e se manifesta irrequieta em relação à data da gravação do célebre disco The Master Musician of Jajouka, saltitando como um dervixe rodopiante entre o ano de 1968 e 1971, se também eu não estou em erro e a contribuir, involuntariamente, com mais uma data.

A primeira vez que ouvi Apocalypse across the sky foi em finais de Setembro de 1971, copiado para uma K7 que o Sony M 1001, curricularmente guardado aqui na gaveta, reproduziu até mastigar incontáveis cópias que acabariam por lhe derreter, irrecuperavelmente, as cabeças. Durante anos, pensei ou, se calhar, fui acabando por decidir que Jajouka era o nome do grupo musical, nunca me ocorrendo que pudesse ser apenas o nome de uma aldeia, onde uma irmandade sufi viveria da catarse polifónica ministrada aos sábados de manhã aos doentes mentais. Ou melhor, aos possuídos das redondezas. (...)
[A não perder a ementa no final do videoclip]

2 comentários:

ZMB disse...

[Eu] o tóxico-místico [não confundir com a tosta-mista que não prefiro à torrada] ouço Diamanda Galás e fumo como um sufi.
Atinjo a leveza, dou piruetas no ar.
[Uma voz canta:]
"Daddy's coming! Come to daddy!
Yeah, he's a bit of a control freak!"
[Uma voz raciocina:]
Deixei tudo, tive oportunidades, fodí tudo, desperdicei tudo por causa, conheci quem dissesse que se estava ali por causa do teatro.
E onde estou eu agora?
E onde estaria se tivesse sido famoso?
[... Incomodado por jornalistas,
ai ai... a obdiência a alguém para expiar culpas de ter traído, ai ai...]
Não importa a data das coisas, assim elas permanecem em memória para sempre.

fallorca disse...

Exacto