23 de setembro de 2011
22 de setembro de 2011
Às vezes, lá calha...
«Em princípio, foi sempre mais simples aliviar a dor do que dar prazer ou felicidade. A zona de uma dor é sempre mais facilmente localizável. Com uma enorme excepção – a dor emocional da perda, a dor que despedaça o coração. É uma dor que preenche o espaço de uma vida inteira.»
(John Berger)
Nem sempre a lápis (212)
Ao fim da primeira tarde de praia, vinha da Cerca Nova e não me surpreendeu ler a oferta «Visitas Guiadas à Ilha do Pessegueiro», pintada numa placa de madeira. Entendi guiadas para não pisarem os ninhos de gralha, evitar que alguém tropece num calhau e vá ter ao mar a fazer tobogã nas rochas forradas com cracas minúsculas; a menos dolorosa das hipóteses. Sorri e pensei que era inevitável. Ainda estive para documentar o achado, mas a esfrega de talassoterapia desmotivou os passos de recuo para a encenação da surpresa. O que me chamou a atenção foi o traço naïve – proa de moliceiro, marinha de tasca, natureza morta de feira – a ficcionar o entulho da fortaleza, à vista desarmada. A tentação foi sempre grande, acampados em frente dela com canas espetadas na falésia para encher jarricans de água doce e banho tépido ao fim da tarde. Depois de jantar, era voz corrente nas tabernas que na ilha se dava um alho como não havia igual para temperar peixe; dizia-se que havia um túnel sob o mar que ligava a ilha à fortaleza, em terra; os neptunos de serviço apostavam minis em como na preia-mar se chegava até meia distância com água pelo tronco e depois, era só nadar, conhecendo as correntes; segredava-se que a ilha era um entreposto de contrabando para justificar o arrastar de caixotes na praia, ouvidos ou sonhados durante a noite; dizia-se também que se caçavam patos selvagens no lado oculto da ilha, pescados à linha e degolados no acto, abafado pela rebentação. Era apenas uma questão de tempo; restaurada a pincel, a ficção aconchegou-se à procura.
[refresh]
Papiro do dia (132)
«Apesar de tudo, ao andarem às voltas em torno de si mesmos, os deslocados preservam a sua identidade e improvisam um abrigo. Feito de quê? Feito de hábitos, penso eu, feito com a matéria bruta da repetição, assim transformada em abrigo. Os hábitos implicam palavras, piadas, opiniões, gestos, actos e até a maneira como se põe o boné na cabeça. Os objectos físicos e os lugares – uma peça de mobília, uma cama, o canto de uma sala, determinada taberna, a esquina de uma rua – dão enquadramento e cenário ao hábito; mas não são os objectos que protegem, o hábito sim. O betão que sustenta a casa-lar improvisada – até mesmo para uma criança – é a memória. Dentro dela ordenam-se as recordações visíveis e tangíveis – fotografias, troféus, lembranças – mas o tecto e as quatro paredes que constituem a salvaguarda da vida, essas, pertencem ao domínio do não-visível, do intangível, do biográfico.
Para os desfavorecidos, a casa-lar é representada menos pela habitação em si do que por uma prática ou conjunto de práticas. Cada pessoa possui as suas. Tais práticas, verdadeiramente escolhidas e não impostas, oferecem, na sua repetição e apesar do seu carácter efémero, mais permanência e abrigo do que qualquer tecto. A casa-lar já não é habitação mas a história não contada de uma vida que está a ser vivida. No limite, se quisermos ser ainda mais brutais, a casa-lar não representa mais do que o nome que cada um tem – sendo que a maioria das pessoas nem sequer nome tem.»
[John Berger, E os Nossos Rostos, Meu Amor, Fugazes como Fotografias; trad. Helder Moura Pereira, Quasi, Janeiro 2008;
agulha]
agulha]
21 de setembro de 2011
«CINE MAR(A)VIL(H)A»
OLD SCHOOL#2 ANA VIDIGAL FALA DE CINE MAR(A)VIL(H)A from Susana Pomba on Vimeo.
Logo, às 22hno Espaço Teatro Praga (Poço do Bispo), Lisboa
(em loop) *One night only*
Segunda sessão OLD SCHOOL, desta vez com a apresentação de “CINE MAR(A)VIL(H)A” de ANA VIDIGAL, one night only, dia 21 de Setembro, às 22h. Sessão especial de projecção em loop de vídeos feitos pela artista para o facebook e youtube. Lembramos também que na mesma noite, ali mesmo ao lado em rua paralela, a Galeria Baginski inaugura também a exposição “Estilo Queen Anne” de Ana Vidigal, às 22h. Dose dupla de Vidigal em Marvila, Poço do Bispo.
20 de setembro de 2011
Às vezes, lá calha...
«Um nome e duas datas, a segunda tão precisa que inclui até o dia. É isto apenas o que fica registado. Acerca do que aconteceu entre as duas datas, para lá do mero facto da sobrevivência, nem uma palavra.»
(John Berger)
Nem sempre a lápis (211)
Não li e não escrevi uma linha e o sinal da Net era fraco, em Porto Covo; mais forte o do Sol e do mar e o da Lua, que te trouxeram. Mais tarde, li na bloga que «Lisboa tem uma polifonia assinalável de sotaques no metropolitano, nos quais reparo pois a simples audição é um passaporte para os mais diversos locais.» Vindo deles, ao longo da Costa Vicentina e pelo rodapé do Barlavento, descansei um pouco mais adiante, a ler: «Sou atraída pela diferença, e esta praia não fazia parte do meu léxico de mar e sol.»
Papiro do dia (131)
As inscrições não se dirigem aos vivos. Os que já sabem recordar os mortos não precisam que lhos lembrem. O que se inscreve é uma forma de identificação, dirigida, como qualquer identificação, a terceiros. As pedras tumulares são cartas de recomendação para os mortos, escritas na esperança de que não seja atribuído outro nome aos recentemente partidos.
Do cemitério tu e eu olhávamos para lá dos canais, para o mar, para o céu acima do mar, para as colinas de fetos. A linha da costa corta em declive como a fazer a passagem para algo que nasce ainda mais longe – na direcção do imenso Atlântico. É para este lugar de nascimento que os mortos viajam. Todos a uma distância que lhes permite ouvirem-se uns aos outros. Os vivos não conhecem essa língua. As nossas histórias não são lidas pelos mortos.»
[John Berger, E os Nossos Rostos, Meu Amor, Fugazes como Fotografias; trad. Helder Moura Pereira, Quasi, Janeiro 2008]
19 de setembro de 2011
18 de setembro de 2011
Às vezes, lá calha...
«Os que nos lêem e ouvem as nossas histórias vêem tudo através de uma lupa. A sua lente é o segredo de toda e qualquer narrativa, um segredo sempre renovado em cada história que nasce, um território entre o temporal e o intemporal.»
(John Berger)
Nem sempre a lápis (210)
Se alguma coisa aprendi com o Vitor, foi a gostar da vida dos livros e a fazê-los; para que se façam, uns aos outros. Olho para as estantes e caixotes e sorrio ao ver a quantidade de edições da Ulisseia que me acompanham; mandava-as vir pelo Correio, pagas com selos fanados no escritório do meu pai. Creio ter descoberto o método com a aquisição de Pela Estrada Fora, embora me pareça pouco provável que me tenha feito a ela em 1960; tinha onze anos. Vivo de traduções, do comércio dos livros, numa sólida relação de convívio. Olho para os livros que me editaram e, a haver reparos, a culpa é minha; irrepreensível, o objecto com título. Desprezado o preconceito da auto-edição, reencontro nela a cumplicidade tipográfica perdida. Antes dos jornais, quando lia e escrevia em cafés de província, fui seduzido pelo cheiro da tinta e dos caracteres de chumbo, a caminho do colégio. É provável que a minha vocação minimalista me tenha desocupado das folhas que mandava imprimir só pelo prazer de as ver compor; imaginado o livro. Recuperado algum dinheiro empregue e não gasto, na minha primeira edição, invisto-o num segundo título, para que as duas tornem possível a seguinte.Papiro do dia (130)
«O polegar na boca e o sono a chegar. O sabor do nosso próprio corpo a envolver-nos, tal e qual como no sono. O nosso próprio corpo não pode fazer-nos mal.
Raiva. A encher de choro uma caverna de medo e ira. O choro flutua no ar como folhas vermelhas, já desprendido de quem chorava mas caindo sobre o seu rosto, provocando mais choro ainda.
Consolação depois do choro. O estômago deixa de andar às voltas. Uma calma doçura, como se fosse mel, espalha-se pelo peito. Só o céu-da-boca permanece seco. As causas inexplicáveis desapareceram misteriosamente.
A incapacidade de recordar pode ser, em si mesma, uma memória. Pode ter-se já vivido com a experiência do inominado: havia certas forças elementares que eram reconhecíveis – o calor, o frio, a dor, a doçura. E também algumas pessoas. Mas não havia verbos nem substantivos. Mesmo a primeira pessoa do singular correspondia mais a uma convicção que se ia desenvolvendo do que a um facto concreto. Devido a esta ausência, não podia haver recordações (consideradas como distintas de outras funções da memória).
Outrora viveu-se no universo sem costura do inominado. O inominado implica que tudo seja contínuo. O sonho de uma língua universal que tudo dissesse em simultâneo talvez provenha da recordação de um tempo em que não havia recordações.»
[John Berger, E os Nossos Rostos, Meu Amor, Fugazes como Fotografias; trad. Helder Moura Pereira, Quasi, Janeiro 2008]
17 de setembro de 2011
16 de setembro de 2011
Porque a Net fornece um novo dia
«A 16 de Setembro estreamos em Viseu, no Teatro Viriato, NÃO SE BRINCA COM O AMOR de Alfred de Musset e durante um mês andaremos por Almada, Coimbra, Guimarães. Para, a 19 de Outubro pelas 19h00, abrirmos as portas do novo Teatro da Politécnica, com essa peça impossível (só representada 70 anos depois de escrita) e a exposição de esculturas de Ângelo de Sousa.»
Às vezes, lá calha...
«Querem, a todo o custo, fazer alguma coisa, pois têm medo de descobrir que estão sós. Agir em comum torna-os solidários, e provavelmente nada como uma acção em comum – se sai do habitual – é capaz de criar esse sentimento de unidade. É esse o mal deles.»
(Siegfried Lenz)
«É bom trabalhar nas Obras» (100)
«No estúdio da produtora de cinema Filmo Centro, foram convocados os voluntários que queriam prestar o seu testemunho como estavam a sofrer a ditadura: mães com filhos desaparecidos, mulheres violadas, adolescentes torturados, operários com os rins moídos à pancada, idosos surdos, desempregados sem lar, estudantes expulsos da universidade, pianistas com os pulsos fracturados, mamilos mordidos por cães, empregados de escritório com o olhar perdido, crianças com fome. Uma mulher de cinquenta anos aproximou-se de Bettini acompanhada por um guitarrista. - Uma cueca, vem a calhar – disse o publicitário. – É uma coisa alegre.
- Este jovem é meu filho, Daniel. É guitarrista.
- Olá, Daniel. - É uma cueca dedicada ao meu marido. Detido e desaparecido.
- Com quem a vai dançar?
- Com ele, cavalheiro. Com o meu marido.
Tirou um lenço branco do peito e agitou-o delicadamente entre o indicador e o polegar da mão direita. O rapaz fez os rasgados preliminares e com voz aguda introduziu o primeiro verso: "Minha vida, em tempos fui feliz…"
O facto da mulher reagir aos passos de dança do seu desaparecido, com uma dignidade sem ênfase, tornava a sua dança ainda mais demolidora.
Bettini desculpou-se com uma expressão vaga e foi à casa de banho.
Deixou correr a água na nuca sem se importar que salpicasse a camisa. E esfregou o rosto debaixo do jorro como se quisesse que lhe pulverizasse a palidez.
E foi dessa maneira que também as suas lágrimas se dissolveram no lavatório.
* Abreviatura de zamacueca, dança popular chilena.»
Papiro do dia (129)
«- Não sei ao certo, comandante. Assustar-se-ia se soubesse como o compreendo e como nos defrontamos tão de perto. A sua vida, comandante, seria a única que eu poderia ter vivido, se não me tivesse já decidido pela minha vida, ou melhor, pelas minhas três vidas. Já lhe contei a primeira, em que fiquei com o escritório de advogado do meu irmão. Ora bem, a segunda vida resultou da primeira: ao exercer a profissão de advogado cheguei rapidamente à conclusão de que, desde que se queira, é sempre possível provocar a existência de um passado de culpa em cada ser humano. Todos, sem excepção, podem servir de réus: ricos e pobres, viúvas e órfãos: escolha qualquer pessoa ao acaso, e garanto-lhe que se conseguirá descobrir uma falta que lhe valeria bem dois anos de prisão de acordo com as leis em vigor, mesmo sem aplicar o código penal de forma draconiana. Que a Terra inteira ainda não se tenha tornado num imenso tribunal deve-se ao excesso de trabalho dos juízes e ao facto de não ter ainda aparecido alguém que os acusasse a eles. Está a ver, foi assim que encontrei uma nova vida: queria saber qual era o limite, quantos crimes era possível cometer sem que isso se visse na cara ou atraísse a atenção dos tribunais. Foi assim que, a par da minha vida de advogado, levei uma vida – sim, tenho de confessar –, uma vida de bandido em liberdade. Sob o nome de um conhecido empresário, montei a maior empresa de justiça – chamaria a isso chantagem – que jamais existiu na Alemanha Ocidental. Especializei-me em investigar a vida de pessoas muito conhecidas e aparentemente honradas e em comunicar-lhes os resultados dos meus esforços… acompanhados por uma conta. Não quero deixar de reconhecer que devo o meu êxito ao facto de vivermos hoje na era dos juristas, em que qualquer patrãozinho pede um parecer jurídico sobre as eventuais consequências de dormir com a secretária. Obtive, ainda assim, com a minha segunda vida, um êxito que nunca poderia ter conseguido com a minha vida de advogado. Finalmente, a minha terceira vida, que pude financiar graças à segunda, fez de mim um modesto construtor naval: recordado da morte do meu irmão, especializei-me, no meu estaleiro, na construção de barcos salva-vidas insubmersíveis – para vapores, barcos de pesca, em resumo, para toda a espécie de naufrágios possíveis. O barco onde nos encontrou é, aliás, produzido por mim, um protótipo antigo.»
[Siegfried Lenz, O Barco-Farol; trad. Inês Madeira de Andrade, Fragmentos, Setembro 1987;
15 de setembro de 2011
14 de setembro de 2011
Às vezes, lá calha...
«Não diga nada do que lhe interessa, como acontece com uma boa narrativa. Não é preciso compreender tudo e têm de se aceitar certas incertezas.»
(Siegfried Lenz)
«É bom trabalhar nas Obras» (99)
«O capitão Carrasco ficou a abanar ritmicamente a queixada como que contagiado pela rima do texto. Bettini sentiu que a palidez do seu rosto era agora substituída por um fogacho de rubor. Ouvir o seu texto para aquela canção que seria emitida precisamente no último dia da campanha, foi o mesmo que escutar uma sentença de fuzilamento. Pareceu-lhe horrorosa, cada imagem daquelas estrofes que ainda umas horas antes – antes de todos os desastres – lhe pareciam luminosas, linhas que seriam interpretadas pelos chilenos de todas as idades, os amantes do mar e das montanhas, os apolíticos e os indecisos. Porque é que tinha sucumbido à irresponsabilidade adolescente da sua filha, quando tentou convencê-lo de que era preciso cantar «é tão bom dizer não», a ele, que nunca na sua vida tinha usado como todos os jovens chilenos, nem sequer a infalível muleta “ké kaxam?” para perguntar se os tinham compreendido?
Ké kaxam?
Nada, Adrián Bettini, santo pai dos ingénuos, disse para consigo. Não tinha ké kaxado nada! Se ouvir a letra da sua canção na boca de um polícia desembaraçado a dar ordens, mas lerdo a pronunciar metáforas, já o tinha sepultado na mais profunda das humilhações, não imaginou que o inferno tem sempre outro subsolo, outro circulozinho, companheiro de Dante, sob o qual se pode continuar a descer infinitamente.
Carrasco agora tão amável em subir ainda mais o volume do amplificador para que pudesse ouvir “ao vivo e em directo”, o comentário do próprio ministro do Interior aos seus versinhos. Que veio precedido por um riso despreocupado.
- Na verdade, material muito interessante, Carrasco.
- Sob o ponto de vista policial ou poético, senhor ministro?
- De ambos. Diga-me, capitão, como se chama esse Neruda que meteu dentro?
O oficial tapou o auscultador do telefone e levantando o queixo, dirigiu-se ao publicitário.
- Com’é que te chamas, artolas?
- Bettini, Adrián Bettini.
- Diz que se chama Adrián Bettini.
Do outro lado da linha fez-se silêncio e depois explodiu uma alegre gargalhada.
- Não me diga que tem aí o próprio Adrián Bettini!
- Quem é ele, senhor ministro?
- O chefe da campanha do “Não a Pinochet”.
- É perigoso?
- Qual quê! Com versinhos desses não vai aquecer ninguém.
- Embora aqui no panfleto fale de insurreição. Amanso-o um pouco?
- Não, homem. De maneira nenhuma. Não lhe toque nem com a pétala de uma rosa. Estamos em democracia. Bettini pode escrever os disparates que quiser.
- Mas, é contra o meu general!
- Mesmo que seja contra o nosso general. A democracia, capitão! Um simples exagero das estatísticas. Os votos dos cabeludos valem tanto como os nossos votos.
- E então?
- Devolva-lhe os seus papelinhos e ele que se vá embora.
- E o que é que fazemos com o automóvel dele? Enfiou uma bruta marrada no furgão da esquadra.
- Mande-o arranjar na oficina do grupo móvel na calle Cármen. Têm lá um bate-chapas que faz maravilhas.
- E a conta?
- Envie-a para o ministério, Carrasco. Diga a Bettini que é uma atenção da casa.»
[Antonio Skármeta, Os dias do arco-íris; em breve na Teodolito]
Papiro do dia (128)
«- Está a ver, comandante, como discordamos nisto: você não dá valor à insegurança e eu não tenho grande opinião da segurança: quanto mais pequenas forem as nossas probabilidades aos seus olhos, mais estarei disposto a apostar nelas. Até certas experiências o demonstram. Uma vez tive um contrabandista entre os meus clientes, um homem que continuou a exercer a sua profissão perigosa mesmo durante a guerra; e então procurava atravessar a fronteira sempre nos pontos da frente onde o fogo era mais intenso. Escapou sempre, enquanto o companheiro, que escolhia os pontos mais sossegados, foi morto a tiro por uma sentinela nervosa. Creio que nos entendemos como sempre, e agora suponho que você não está à espera de que vamos desistir de uma probabilidade cujo valor está justamente em ser tão pequena. Espero que mande consertar o seu barco imediatamente e que o ponha à nossa disposição.
Freytag tirou o cigarro apagado da boca, esmagou-o e triturou-o entre os dedos e depois perguntou:
- Foi advogado?
- Sou advogado entre outras coisas – disse o doutor Caspary e fez uma estranha e irónica vénia para Freytag.»
[Siegfried Lenz, O Barco-Farol; trad. Inês Madeira de Andrade, Fragmentos, Setembro 1987;
13 de setembro de 2011
12 de setembro de 2011
Porque a Net fornece um novo dia
Às vezes, lá calha...
«Freytag lembrou-se do mercado em Djibuti, onde duas pessoas que têm alguma coisa a resolver se retiram para debaixo de um pano preto e continuam em silêncio o que tinham começado a discutir com palavras.»
(Siegfried Lenz)
«É bom trabalhar nas Obras» (98)
«Sentiu familiaridade com o catálogo dos “detidos”. Um bêbado ao longo do banco de madeira, um estudante a sangrar vítima de uma bastonada, a vendedora ambulante sem licença, o dirigente sindical algemado.
Duas horas sem que nenhum funcionário desse início a qualquer tipo de diligência. De vez em quando, assomava um oficial, lançava uma vista de olhos ao grupo e desaparecia numa divisão traseira. A prisão era sempre assim. A sensação de um tempo infinito, inútil. Uma antessala para o incerto. Esse interlúdio que incha com a desolação. A humilhante espera. Tempo para se imaginar os entes queridos preocupados com a nossa ausência. O agente de serviço a teclar numa velha máquina Remington um relatório que, meses mais tarde, talvez um juiz local viesse a ler.
A última vez que o prenderam, quiseram dar-lhe uma tareia exemplar. Tinha participado num protesto de rua contra o aumento dos transportes, para resgatar uma jovem arrastada para o furgão policial por uns agentes à civil. Sem estar organicamente ligado a esse acto, seguiu o impulso do seu coração, e no interrogatório não soube dar o nome de contactos, nem a direcção dos revoltosos do movimento, simplesmente porque os ignorava.
Às vezes, o seu maldito coração fazia-o agir imprudentemente mais depressa do que a cabeça.
Outras vezes, a língua saía-lhe disparada com as verdades a arder na ponta. Dizia-as, mesmo sabendo que viria a sofrer as consequências. Em todas essas ocasiões tinha sido ele, somente o seu corpo quem estava em jogo. Mas agora tudo podia desembocar numa catástrofe que implicaria muita gente: se as imagens da campanha do “Não” chegassem às mãos do ministro do Interior, não só iria pôr em risco as pessoas que tinham emprestado os seus rostos para cantar e contestar o ditador, como denunciaria o carácter da sua campanha aos seus rivais do "Sim a Pinochet": iria dar-lhes tempo para desenharem um antídoto e criarem uma estratégia que anulasse as improváveis virtudes de comunicação que a sua ingénua obra pudesse ter.
Sentiu-se um traidor por ter bebido álcool na embaixada, sabendo que levava a fita U-Matic no automóvel.
Era compreensível, porque estava nervoso, irritado, inseguro. Ia mostrar pela primeira vez a sua obra-prima aos dirigentes políticos do "Não" e temia o seu veredicto. Tão brutalmente fora de training. Maldita a hora em que tinha sucumbido, contra toda a análise ou lógica, à vaidade de assumir a tentação de… salvar o Chile! Corrigiu esse pensamento patético. O Chile não tinha sido salvo pelos mártires dos movimentos de resistência, nem pelos militares disciplinados, nem pelas centenas de milhares de amantes da liberdade que, aqui e ali, enfrentavam a repressão, e ele, sumo pontífice dos néscios, tinha aceitado dirigir essa campanha que, em vez de o levar à glória, o iria conduzir ao inferno.
Carente de ideias, entregara-se aos delírios do meia-leca: o tal Raúl Alarcón, com a sua Valsa do Não. Agora o seu vídeo desastroso podia cair nas mãos do inimigo.
E o factor azar. Bateu. Mas bateu contra um furgão de carabineiros! Com um bocadinho de má vontade, ao inspeccionarem a sua ficha de detenções e invocando a sua incendiária Valsa do Não no vídeo, os carabineiros podiam entregá-lo aos agentes da secreta, que lhe aplicariam a Lei Anti-terrorista.
A outra clavícula.
Talvez o fémur.
E isto, com sorte.
Vindo da rua, entrou um oficial superior que fez soar as chaves do seu automóvel como castanholas.
- Bettini! – chamou.»
Papiro do dia (127)
«- O barco é velho mas é de confiança – disse Freytag. – Passou por mais tempestades do que qualquer outro barco que eu conheça.
- Mas está amarrado – disse o doutor Caspary. – Está fundeado e não se consegue libertar, e fica aqui no Verão e no Inverno enquanto os outros navegam. Mas um barco tem de estar a caminho entre os portos, tem de estar ausente e regressar, tem de ter alguma coisa para contar. Com um barco tem de se encontrar o desconhecido. Este barco foi, desde o princípio, concebido para a amarra, construído para ser um prisioneiro responsável para quem todos os portos estão fechados.
- Como alguém condenado a prisão perpétua – disse o gigante.
- Os outros estão a caminho e o senhor está seguro à amarra – disse o doutor Caspary. – Talvez seja por causa disso que os seus antecessores têm caras tão tristes: este cativeiro sob o mesmo horizonte, na mesma costa.
- Os prisioneiros também têm algum poder – disse Freytag. – Os carcereiros dependem muito mais dos seus prisioneiros do que os prisioneiros dos seus carcereiros: se não fossemos nós, haveria aqui um cemitério de barcos bem cuidado, e poderiam ver-se por toda a parte da costa os ferros de barcos afundados, como pregos numa tábua de faquir. A costa inteira estaria cheia de cascos de navios, e lá fora, onde havia zonas minadas, estariam ao lado uns dos outros, ou então mesmo uns em cima dos outros. Os outros só podem navegar porque nós estamos seguros à amarra e podem ter confiança nos sinais de luz que emitimos. Onde há um barco-farol significa que se passa alguma coisa. Eles sabem isso e prestam atenção assim que dão por nós.
- Mas os outros são livres – disse o doutor Caspary.
- Os outros dependem de nós – disse Freytag. – Dominamo-los e, se quisermos, podemos mandá-los para os bancos de areia ou para as zonas minadas, ou então para um canal onde, passada uma noite, ficam com o valor de sucata. É assim – disse Freytag – e não de outra maneira.»
[Siegfried Lenz, O Barco-Farol; trad. Inês Madeira de Andrade, Fragmentos, Setembro 1987]
11 de setembro de 2011
10 de setembro de 2011
Às vezes, lá calha...
«Escrever sobre tudo, tudo ao mesmo tempo, é não escrever. Não é nada. E é uma leitura insustentável, do mesmo modo que uma publicidade.»
(Marguerite Duras)
«É bom trabalhar nas Obras» (97)
«Ao chegar à esquina, levou instintivamente a mão ao nariz para tapar o espirro. Bastou esse segundo para o seu automóvel se enfaixar contra o veículo da frente. Não tinha sido grande coisa, apenas mais uma ferida no velho Fiat, mais um rasgão na sua vida, nada comparável com a amolgadela maior que lhe ia na alma.
Saltou da resignação fatalista para o pânico quando descobriu que o veículo contra o qual se tinha enfaixado, era um furgão de carabineiros. Num lampejo de lucidez, escondeu a fita U-matic com a campanha do "Não" debaixo do assento do condutor e, resignadamente, accionou o manípulo que a abria a janela do lado dele.
As buzinadelas dos condutores, impacientes com este novo engarrafamento, aumentou através da janela aberta. Faziam-lhe ranger os nervos, precisamente neste momento em que necessitava de calma, delicadeza, esperteza. Moderação. Bom ânimo.
Ali estava agora o carabineiro e o seu característico excesso de formalidade a ordenar-lhe com azedume:
- Os seus documentos.
Quando enterrou a mão no bolso, veio junto com a carteira o convite para o acto cultural da embaixada da Argentina. Sentiu que havia ali a possibilidade de um refúgio, um breve estratagema para amortecer a pancada que viria a seguir.
Estendeu-lhe o convite com o escudo transandino. Depois de o olhar sem interesse, o polícia devolveu-lho, indiferente.
- Os seus documentos, senhor.
- Sim, sim, meu tenente – disse Bettini, a procurar na carteira. Enquanto o fazia, como se exibisse um absurdo salvo-conduto, acrescentou –: Fique o senhor a saber que venho de uma recepção na embaixada da Argentina. Perto daqui. A dois quarteirões. Em Vicuña Mackenna. Uma recepção do senhor embaixador. O agente pegou nos documentos protegendo-os da morrinha com a mão esquerda.
- O seu nome é Adrián Bettini?
- Sim, meu tenente. Venho de uma recepção na embaixada da Argentina. A embaixada da irmã República Argentina.
- Desligue o motor e saia.
- Com muito gosto. Não sei como aconteceu este lamentável acidente. O asfalto molhado…
- O asfalto está molhado para todos. Só o senhor é que se estampa.
- Sim, meu oficial. É que eu vinha de uma recepção da embaixada da Argentina…
- Consumiu álcool?
Absurdamente, agora procurou tapar o hálito. Absurdamente também, respondeu:
Absurdamente, agora procurou tapar o hálito. Absurdamente também, respondeu:
- Não me parece.
- Vai ter de me acompanhar à esquadra, cavalheiro. O seu colega desviou o trânsito para um lado e indicou a Bettini que estacionasse o automóvel em cima do passeio.
- Vai dentro. Condução sob o efeito de álcool e danos num veículo oficial das Forças Armadas e da Ordem.
Assim que deixou o automóvel à beira de um plátano oriental, Bettini desceu do veículo e, depois de o fechar, quis guardar as chaves no bolso. O carabineiro segurou-lhe o pulso.
- Eu fico com as chaves.
- É que… - É que, o quê?... Acha que os carabineiros lhe vão roubar o seu automóvel?
Não podia dizer que o quê.
Estava ali a campanha do "Não", que dentro de poucos dias ia ser apresentada diante do Chile inteiro. Para sua humilhação. Para seu funeral. O seu apocalipse.
Para quê dizer, nada?
- Venho de uma recepção na embaixada da Argentina…»
Papiro do dia (126)
«Escrevia todas as manhãs. Mas sem nenhum horário. Nunca. A não ser para a cozinha. Eu sabia quando era preciso vir para que isto fervesse ou aquilo não se queimasse. E para os livros também o sabia. Juro. Tudo, juro. Nunca menti num livro. Nem mesmo na minha vida. Excepto aos homens. Nunca. E isto porque a minha mão me tinha metido medo com a mentira que matava os meninos mentirosos.
Creio que é isso que eu censuro aos livros em geral: o facto de não serem livres. Vemo-los através da escrita: são fabricados, são organizados, regulamentados, poderíamos dizer, conformes. Uma função de revisão que o escritor tem muitas vezes em relação a si próprio. O escritor, então, torna-se no seu próprio chui. Quero dizer com isso a procura da boa forma, quer dizer, da forma mais corrente, mais clara e mais inofensiva. Há ainda gerações de mortos que fazem livros pudibundos. Mesmo os jovens: livros encantadores, sem qualquer prolongamento, sem noite. Sem silêncio. Por outras palavras: ser verdadeiro autor. Livros diurnos, de passatempo, de viagem. Mas não livros que se incrustem no pensamento e que digam o luto negro de todas as vidas, o lugar-comum de todos os passatempos.
O outro trabalho, para os escritores, é aquele que por vezes envergonha, aquele que provoca, a maior parte do tempo, o mais violento remorso de natureza política. Sei que permanecemos inconsoláveis. E que nos tornamos maus como os cães da sua polícia.
O alívio dá-se quando a noite começa a instalar-se. Quando o trabalho cessa lá fora. Resta o luxo que temos, nós, de podermos escrever de noite. Nós podemos escrever a qualquer hora. Não somos sancionados por ordens, horários, chefes, armas, multas, insultos, chuis, chefes e mais chefes. E das galinhas-chocas dos fascismo de amanhã.»
[Marguerite Duras, escrever; trad. Vanda Anastácio, Difel, Outubro 2001;
9 de setembro de 2011
8 de setembro de 2011
Às vezes, lá calha...
«Estar só com o livro ainda não escrito é estar ainda no primeiro sono da humanidade. É isso. É, também, estar só com a escrita ainda em fase de pousio. É tentar não morrer dela.»
(Marguerite Duras)
Nem sempre a lápis (209)
Quando conheci Porto Covo, ia fazer vinte e seis anos; estou em Porto Covo e fiz sessenta e dois anos, há três meses. Olho-me interiormente e nenhum mos dá; não se reconhecem, entre a alegria desamparada.
Papiro do dia (125)
«Um escritor é uma coisa curiosa. É uma contradição e, também, um contra-senso. Escrever também é não falar. É calar. É gritar sem ruído. Um escritor é, muitas vezes, repousante: ouve muito. Não fala muito porque é impossível falar a alguém de um livro que se escreveu e, sobretudo, de um livro que se está a escrever. É impossível. É o oposto do cinema, o oposto do teatro e de outros espectáculos. É o oposto de todas as leituras. É o mais difícil de tudo. É o pior. Porque um livro é o desconhecido, é a noite, é fechado, é assim. É o livro que avança, que cresce, que avança em direcções que julgávamos ter explorado, que avança em direcção ao seu próprio destino e ao do seu autor, então aniquilado pela sua publicação: a sua separação dele, do livro sonhado, como da criança recém-nascida, sempre a mais amada.
Quando um livro está acabado – um livro que escrevemos, bem entendido – já não podemos dizer, ao lê-lo, que esse livro foi um livro escrito por nós, nem que coisas lá foram escritas, nem com que desespero, nem com que alegria, o de um achado ou de um fracasso de todo o nosso ser. Porque, no final, num livro, não é possível ver nada disso. A escrita é, de certa maneira, uniforme, ajuizada. Já nada acontece num tal livro, terminado e distribuído. E ele reencontra a inocência indecifrável da sua vinda ao mundo.»
7 de setembro de 2011
6 de setembro de 2011
Às vezes, lá calha...
«Entre os escritores, um ocupou, até este Agosto, o pódio do meu desprezo mais profundo e sincero: o Saramago. (...) Engoli em seco e meti O Ano da Morte de Ricardo Reis na mala de viagem.»
[work in progress]
[work in progress]
Nem sempre a lápis (208)
Papiro do dia (124)
«Escrever, era a única coisa que povoava a minha vida e que a encantava. Fi-lo. A escrita nunca mais me abandonou.
A solidão da escrita é uma solidão sem a qual o escrito não se produz, ou se esfarela, exangue de procurar o que escrever.
É sempre necessária uma separação das pessoas que rodeiam aquele que escreve livros. É uma solidão. É a solidão do autor, da escrita. Para iniciar a coisa, interrogamo-nos acerca desse silêncio à nossa volta. Praticamente a cada passo que se deu numa casa e a todas as horas do dia, sob todas as luzes, quer estejam do lado de fora, quer sejam lâmpadas acendidas durante o dia. Essa solidão real do corpo torna-se outra, inviolável, a da escrita. Eu não falava disso a ninguém. Nessa época da minha primeira solidão, tinha já descoberto que dedicar-me à escrita era o que eu tinha de fazer.
Não encontramos a solidão, fazemo-la. A solidão faz-se só. Eu fi-la. Porque decidi que era aqui que deveria estar só, que estaria só para escrever livros. Passou-se assim. Estive só nesta casa. Fechei-me aqui – também tive medo, evidentemente. E depois amei-a. Esta casa tornou-se a da escrita. Os meus livros saem desta casa. Desta luz também, do parque. Desta luz reflectida no tanque. Precisei de vinte anos para escrever isto que acabo de dizer.
Creio que a pessoa que escreve está sem ideia de livro, que tem as mãos vazias, a cabeça vazia, e que não conhece, desta aventura do livro, senão a escrita seca e nua, sem futuro, sem eco, longínqua, com as suas regras de ouro elementares: a ortografia, o sentido.»
[Marguerite Duras, escrever; trad. Vanda Anastácio, Difel, Outubro 2001;
5 de setembro de 2011
4 de setembro de 2011
Às vezes, lá calha...
(Annie Ernaux)
Nem sempre a lápis (207)
Começou por me pedir o isqueiro, mas quando lhe respondi que sim, que cozinhava, receei que me pedisse a mão. São os riscos da mudança de tempo; do virar de Lua, em Agosto. Depois da noite abafada em que regressei ao pátio vindo de Mortágua, dei com ele cheio de moinantes e casais grudados pelo hábito e coristas bronzeadas à força no Algarve; mas choveu durante a noite e tive de esperar que escampasse depois do pequeno-almoço, para ir ao supermercado. Estendi-lhe o isqueiro e saiu-me o comentário de que estava muito mais magra. Uma pessoa também se cansa de ouvir sempre o mesmo; reparti a atenção com ela, mas afirmou qualquer coisa sobre a silhueta a responder que nunca teve cão. Era o modo como fuma, separei-as quando lhe voltei a estender o isqueiro e lembrei a devolução ao vê-la abrir o saco; tinha lá um. Acontece a todos, eu sei. Somos contemporâneos há mais de trinta anos e creio nunca termos trocado uma palavra, as vezes que nos cruzámos a fumar; com ela e com a do bichon maltês, muito snobes. Em contrapartida, durante uma hora trocámos as mais improváveis impressões sobre Carnaxide; desde cá de cima do mercado, até lá abaixo ao largo da igreja, a rever os estabelecimentos da avenida principal. Disse mal de quase toda a gente; alguns, tive de me esforçar e obrigá-la a seguir outro caminho para os identificar. Técnica analista reformada, nascida ou criada em duas ilhas de Cabo Verde, apreciadora de café e de tabaco, guiou-me pelos guetos da droga e da intimidade do adultério e da homossexualidade no bairro, obviamente masculina, seguida pelos episódios de maduras despeitadas e seduzidas por intérpretes da canção do bandido que as deixaram nas lonas; obviamente. Nem lhe passa pela cabeça que na noite anterior tivessem tido a atenção de partilhar com o «mais-velho» umas bolotas fresquíssimas, acabadinhas de cagar. E eu a ouvir e a enrolar cigarros; ela usa a antecipação dos já feitos. Não chegámos a apresentarmo-nos; fiquei sem saber a sua graça, embora alguma lhe tenha achado. Parva, não é; o resultado da análise apenas difere do microscópio. A sorna tinha vindo do bar de tapas que abriu ao lado e sentou-se à mão de isqueiro. Trocámos impressões sobre a ementa e disse que era caro, tendo o cuidado de salvaguardar que os rapazes até são muito simpáticos, mas dois euros e tal por uma sopa, nem pensar. A sopa, exacto, creme de cenoura com nabiça, sem que o tempo e uma indesmentível vontade de a ouvir me fizessem ir às compras. Numa pausa entre os palitos e a insolvência, pedi a uma das empregadas para ir ao supermercado. E foi então que ela, depois de desancar a minha anterior mulher da limpeza, perguntou: «O senhor sabe cozinhar?» Ao que respondi que sim, sem adiantar pitéus, fazendo questão de esclarecer que só não sei passar a ferro e tenho preguiça de pegar no aspirador. Varro a área de trabalho, às vezes. Ocupa-se disso e de lavar as janelas e fazer a cama de lavado, a são-tomense mãe do puto Dário, ajudante de cozinha na esplanada cosmopolita; brasileiras, uma ucraniana, a Naty e o goês Dinis que, volta e meia, me oferece um chá de especiarias para me quedar no nirvana. Uma aberta interrompeu a conversa e quando voltei do supermercado, ela já se tinha ido embora. Entretanto, entrou um par de ancas tipo escola de samba e perguntei à Simone se não apresentava a amiga. Que era casada; e eu ralado, não fazia a menor intenção de casar com ela. E foi então que a marota, tendo topado o invulgar diálogo e o pedido de socorro para ir ao supermercado, se saiu com esta a levantar as toalhas da chuva: «Faz alergia, né, Djorgi?» Exacto, a contaminação da proximidade. Cumprimentamo-nos com «Todo o dia / ela faz / tudo sempre igual» e servem-me umas bronzeadas, e não torradas, com a manteiga necessária para distrair o colesterol, que classificamos capa de revista; topam-me à légua e eu fico todo contente. Papiro do dia (123)
«Com o avançar dos anos, os meus ideais – que normalmente nego ter – alteraram-se definitivamente. O meu ideal é ser livre de ideais, livre de princípios, livre de doutrinas e de ideologias. Quero viver no oceano da vida como um peixe vive no mar. Quando era novo, preocupava-me muitíssimo com o estado do mundo, hoje, embora ainda barafuste e delire, contento-me com deplorar o estado das coisas. Pode parecer presunçoso dizê-lo, mas isto significa, na realidade, que me tornei mais humilde, mais consciente quer das minhas limitações quer das das outras pessoas. Já não tento converter ninguém à minha visão das coisas, nem tão pouco curá-las. Nem me sinto superior quando me parecem falhos de inteligência. Podemos combater o mal, mas contra a estupidez somos totalmente impotentes. Penso que a condição ideal para a humanidade seria viver em estado de paz, em amor fraterno, mas devo confessar que não conheço nenhum caminho para o alcançar. Aceitei o facto, por muito difícil que seja, de que os seres humanos tendem a comportar-se de formas que fariam corar os animais. O que é irónico e trágico é comportarmo-nos muitas vezes de forma ignóbil por motivos que julgamos serem os mais elevados. O animal não pede desculpa por matar a sua presa; o animal humano, pelo contrário, consegue invocar a bênção divina quando massacra os seus semelhantes. Esquece-se de que Deus não está do seu lado mas ao seu lado.»
[Henry Miller, Viragem aos Oitenta; trad. Sofia Castro Rodrigues, Fenda Luminosa 4, Fevereiro 1999]
3 de setembro de 2011
2 de setembro de 2011
Às vezes, lá calha...
«Um dos fascínios das ruínas é que sugerem ou revelam sempre a configuração original ou, por outras palavras, a intenção.»
(Henry Miller)
Nem sempre a lápis (206)
Levei A Angústia da Influência, mas acabei por ler O Lugar (Annie Ernaux) em Mortágua. É o último dos quatro primeiros títulos da colecção Pérola da extinta editora Fragmentos; o Google não é conclusivo quanto à fragmentação, mas não devo estar errado. Este quarteto de pequenas pérolas verticais, é composto por Tão Longe de Sítio Nenhum (Ursula K. Le Guin), O Barco-Farol (Siegfried Lenz) e A Criada e o Amo (Robert Coover). Não tenho comigo o primeiro, era um livro do agrado da Nico e é natural que esteja com ela; Tão Longe de Sítio Nenhum. Encontrei, seria melhor dizer que vi O Lugar quando procurava espaço para arrumar As Teorias Selvagens (Pola Oloixarac) junto do silencioso 2666 e FC, Fèlix Cucurull, editado pela Atlântida, livraria editora, ld.ª / coimbra, 1959. Em termos gráficos, os tempos estavam a mudar; não era uma canção de Bob Dylan. Intercalei a edição adolescente entre a colorida e selada e a dos cadernos abertos com um canivete. Pareceu-me encontrar explicação para a minha indiferença alfarrabista. Na desarrumação determinada pelo momento, só a leitura sabe a idade dos livros.Papiro do dia (122)
«Escrevo lentamente. Esforçando-me por revelar a trama significativa de uma vida num conjunto de factos e de escolhas, tenho a impressão de perder pouco a pouco a figura particular do meu pai. O desenho tende a ocupar todo o quadro, a ideia a correr sozinha. Se, pelo contrário, deixo deslizar as imagens da recordação, vejo-o tal como ele era, o seu riso, o seu andar, conduz-me pela mão à feira e os carrosséis aterrorizam-me, todos os sinais de uma condição partilhada com outros, são-me indiferentes. A cada momento, procuro sair da armadilha do individual.
Naturalmente, nenhuma felicidade em escrever, neste empreendimento em que procuro cingir-me o mais possível às palavras e às frases ouvidas, sublinhando-as por vezes com itálicos. Não para indicar ao leitor um duplo sentido e dar-lhe o prazer de uma cumplicidade, que recuso em todas as formas: nostalgia, patético ou ridículo. Simplesmente porque essas palavras e essas frases definem os limites e a cor do mundo em que viveu o meu pai, no qual vivi também. Aqui nenhuma palavra podia ser tomada por outra.»
[Annie Ernaux, O Lugar; trad. António Moreira e Joel Gomes, Fragmentos, Dezembro 1987]
1 de setembro de 2011
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