30 de dezembro de 2013

Adoa e Evo


(«Está a ver a maçã da Apple? Não serve de logotipo por acaso.»)
 
 

29 de dezembro de 2013

Cor de burro quando zurre...

A revista "Ler" não é a "Paris Review";

por muito que o pretenda o chauvinismo editorial, os autores entrevistados por Carlos Vaz Marques não têm a dimensão da compilação avulsa entre vários números da revista norte-americana;
o pomposo autor da fraude faria chorar até às lágrimas entrevistadores e entrevistados constantes num livro interessante, que ele traduziu, mas a pertinência da vaidade sobrepôs à continuidade.
Essa sim, seria de destacar e louvar.

27 de dezembro de 2013




«As pessoas nascem com as palavras que lhes pertencem na barriga,
e morrem quando as disserem todas.»
 
[Da sabedoria africana, conduzida por Teolinda Gersão]
 

21 de dezembro de 2013

Morreu um Senhor Jornalista

... que os medíocres não hesitarão em apelidar de "grande"
... por motivos alheios à nossa vontade]

Às vezes, lá calha...




«Suspendo-me frequentemente a meio da escrita,
interrompo, adio,
porque não aguento a sua claridade.»
(Teolinda Gersão)

Nem sempre a lápis (464)

Memória descritiva
Manuscrito
Quando disse que tinha conseguido passar tudo a limpo, a Olga perguntou-me pelos manuscritos.
Deduzi que se referia aos cadernos diários escritos com marcadores a cores, e disse-lhe que já os tinha deitado fora há muito tempo.
Acredito que ela possa ter alguns guardados, para não dizer, escondidos da minha indiferença destruidora.
Mesmo assim, perguntou-me com uma tristeza mal disfarçada:
- Então não tens manuscritos?
É verdade, não tenho manuscritos.
Na adolescência, aguardava o fim-de-semana para dactilografar no escritório do meu pai, aplicando-me a paginar e a colar cadernos de poemas.
Mais tarde vim a herdar a velha Hermes 2000 do meu avô, que conservo como um caderno em branco, e passei a escrever directamente à máquina.
Não só resolvi a acusação de ter uma letra feia, como o problema de a decifrar mais tarde.
Quando os computadores surgiram nas redacções dos jornais, guardei resmas de linguados de papel pardo, convencido que resistiria ao fascínio dos sucessivos processadores de texto que tenho utilizado.
Comecei a acumular dezenas de versões, guardadas em disquetes e impressas em folhas, que acabo por me esquecer dentro de pastas.
Raras vezes comparo as versões e, inconscientemente, julgo ter contribuído também para a morte do manuscrito.
No entanto, apesar de ver que o meu filho só lê CD’s e que as próprias editoras se multiplicam em esforços de actualização, ainda me custa a aceitar a inevitável morte do livro.
Esse objecto que me possui e completa, tanto no bolso do casaco, como para o repouso do olhar.

Papiro do dia (424)

«À beira do mar havia uma árvore velha, coberta de pássaros que se acomodavam para passar a noite. Milhares de pássaros, vestindo a árvore como folhas, muito juntos ao lado uns dos outros, sem se deixarem perturbar pela luz dos candeeiros da rua que iluminavam com intensidade algumas zonas. Por vezes um dos ramos oscilava no vento e os pássaros balançavam adormecidos, por vezes um deles acordava e começava a esvoaçar, procurando lugar noutro ramo mais acima. Pequenos pássaros como sombras, na árvore que dormia.
Os corpos exibiam-se na praia. Bronzeados, jovens, alegres.
O corpo humano como a mais bela criação da natureza. Nada é mais perfeito.
Atravessou a vila depois do jantar, à hora do passeio pelas avenidas. Passou em frente dos cafés e dos quiosques, das gelatarias e das lojas de artesanato, das tabacarias e das tendas de feirantes, sempre à beira do mar, até à esplanada da Fortaleza, onde se entrava através de um arco, e até à capela de onde, todos os anos, saía a procissão do santo, num certo domingo do verão.»
[Teolinda Gersão, As águas livres; Sextante, Abril 2013;

19 de dezembro de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

«– O que é que escreves? Contos? Ou ficção normal?
– As duas coisas. Sou ambidestro.

Às vezes, lá calha...

O sono é como a água,
ninguém podia dormir realmente longe das nascentes.»
(J. M. G. Le Clézio)
 

Nem sempre a lápis (463)

Memória descritiva
Maçã
Junto ao tanque da casa do meu avô, para onde os meus pais nos mudaram, uma macieira convidava-me a descobrir o novo espaço, com maçãs ácidas.
Subia para cima da pedra de lavar roupa, e deitava-as abaixo com uma vara.
As maçãs esmagavam-se no chão, ou ficavam a boiar na água fresca do tanque.
Nenhuma cobra se enleava no tronco, nem nenhuma me deu a alegria de me cair na cabeça, para que as recordasse com outra dimensão.
Creio que a evitavam, acautelando-me a memória.
Depois seguiram-se as investidas pelos pomares alheios, as guerras à maçanzada, no Verão, separados pelo rio que nos demolhava o crescimento.
Uns anos mais tarde, descobri outras maçãs.
Cortadas em quartos, secavam ao sol nos telhados velhos, à altura do meu apetite partilhado com as abelhas, que lhes sugavam o açúcar destilado pelo sol morno de Setembro.
Separavamo-nos no fim das férias:
elas eram guardadas em grossos frascos de vidro, que me esperavam pelo Natal, e eu regressava ileso à casa, onde já não era tentado pelas maçãs, nas árvores moribundas.

Papiro do dia (423)

«Quando a noite aqui chegava, por cima da água dos poços, era de novo o reino do céu constelado do deserto. No vale da Saguiet el Hamra, as noites eram mais suaves e a lua nova subia no céu escuro. Os morcegos começavam a sua dança em redor das tendas, voavam ao rés da água dos poços. A luz dos braseiros vacilava, espalhava o cheiro do óleo quente e do fumo. Algumas crianças corriam por entre as tendas, soltando gritos guturais de cães. Os animais já dormiam, os dromedários com as patas presas, os carneiros e as cabras nos círculos de pedras secas.
Os homens já não estavam vigilantes. O guia tinha descansado a espingarda à entrada da tenda e fumava olhando em frente. Mal ouvia os ruídos suaves das vozes e dos risos das mulheres sentadas junto das braseiras. Talvez sonhasse com outras noites, com outros caminhos, como se a queimadura do sol na pele e a dor da sede na garganta não passassem do começo de outro desejo.
O sono passava devagar pela cidade de Smara. Algures, a sul, na grande Hamada de pedras, não havia sono na noite. Havia o torpor do frio, quando o vento soprava na areia e punha a nu o soco das montanhas. Não se podia dormir nos caminhos do deserto. vivia-se, morria-se, olhando sempre com os olhos fixos queimados pela fadiga e pela luz. Por vezes os homens azuis encontravam um dos seus, sentado bem direito na areia, de pernas estendidas, com o corpo imóvel nos farrapos de roupa que esvoaçavam. No rosto cinzento, os olhos escuros fitavam o horizonte movediço das dunas, pois era assim que a morte o tinha surpreendido.»
[J. M. G. Le Clézio, Deserto; trad. Fernanda Botelho, Dom Quixote, 3.ª ed. Fevereiro 2009]

17 de dezembro de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Há rastos um pouco por toda a parte na poeira dos velhos caminhos, e Lalla diverte-se a segui-los. Às vezes não levam a parte nenhuma, quando são rastos de pássaro ou de insecto.»
(J. M. G. Le Clézio)

Nem sempre a lápis (462)

Memória descritiva
Lorca
No duerme nadie por el cielo. Nadie, nadie.
No durme nadie. Las criaturas de la luna huelen y rondan las cabañas...

...e em Guadix vislumbrei uma lua podre, cúmplice, com quem partilhei a sombra e um viño de Verano, pelas bodegas de Jaén.
Apátrida, irremediavelmente ibérico, enquanto o relógio de parede me dispensava o sono europeu da felicidade.
Comovi-me com Recuerdos de la Alhambra, como coisa minha, e acertei a alma pelos acordes de Tárrega.
Um guisado de rabo de toro chamou-me à realidade, mas persegui-lhe o resto do corpo pelo labirinto granadino das emoções.
Volúvel,
insone,
culpabilizado pela existência.
Um taxista explicou-me que “no duerme nadie por el cielo”, enquanto as ruas crepitam de criaturas lunares, sequiosas de sangue borbulhante que as embriague.
Hoje, Granada acolhe o rio num leito de betão, e partilha comigo a vergonha de ter matado um poeta, como a do Rei que me mataram.
Eu não sabia...
eu não sabia que o meu nome se pautava pela música de Falla, e um grito de Lorca.

Papiro do dia (422)

«Surgiram, como num sonho, no alto da duna, meio escondidos pela névoa de areia que os seus pés levantavam. Desceram lentamente para o vale, seguindo a pista quase invisível. À cabeça da caravana, vinham os homens envoltos nos seus mantos de lã e com os rostos dissimulados no véu azul. Com eles caminhavam dois ou três dromedários, seguidos pelas cabras e pelos carneiros espicaçados pelos rapazes. As mulheres fechavam o cortejo. Eram silhuetas pesadas, embaraçadas nos pesados mantos, em que a pele dos braços e das testas parecia ainda mais escura nos véus cor de anil.
Andavam sem ruído na areia, devagar, sem olhar para onde iam. O vento soprava continuamente, o vento do deserto, quente de dia, frio à noite. A areia corria em torno deles, entre as patas dos camelos, fustigava a cara das mulheres que baixavam a tela azul sobre os olhos. As crianças corriam, os bebés choravam, enrolados em tecidos azul às costas da mãe. Os camelos rosnavam, espirravam. Ninguém sabia para onde se ia.»
[J. M. G. Le Clézio, Deserto; trad. Fernanda Botelho, Dom Quixote, 3.ª ed. Fevereiro 2009]