13 de fevereiro de 2012

«É bom trabalhar nas Obras» (103)

«- Filhinhos, escutem-me bem – disse, sentada na cabeceira da nossa mesa de cedro. – O mundo que vos vai calhar, quando crescerem, será muito mais duro e difícil do que o vosso pai e eu tivemos. Por isso vão ter de estudar e prepararem-se para o enfrentar. Entretanto, contem comigo para vos encaminhar para um futuro a salvo de tudo.
Para o caso das implicações desta promessa escaparem a alguém, o que a mamã estava a dizer entrelinhas era que não nos iria deixar em paz um minuto da nossa vida enquanto não alcançássemos um título universitário útil (pelo menos uma formatura) e, a seguir, um trabalho estável graças ao qual pudéssemos poupar toda a vida, como ela fazia. Apesar do que lhe possa parecer, doutora Sazlavski, a minha mãe era também uma pessoa incrivelmente carinhosa, em parte por natureza mas também com o objectivo de educar seres humanos sensíveis, capazes de receber e transferir afecto. Sei pertinentemente que todas as pessoas vêem a sua mãe como uma pessoa bonita mas, digo-lhe com toda a franqueza – e não há ninguém que se tenha atrevido a contradizer-me –, a mamã superava as fasquias de beleza não só mexicana como as de qualquer país com possibilidades de concorrência. Não lia livros sobre educação (seguramente, pensava que ninguém podia ensiná-la), em contrapartida lia religiosamente Wilhelm Reich e a sua teoria do orgasmo como remédio santo. Enquanto o meu irmão e eu construíamos castelos de areia nas praias onde o meu pai nos levava, a mamã participava em seminários em Santa Bárbara sobre como desbloquear a sua energia sexual, quando, na realidade, teria feito melhor se tivesse ido a um consultório para aprender a contê-la. A minha mãe estava decidida a deixar para trás todas as suas inibições e a impedir que nós adquiríssemos as nossas.»
[Guadalupe Nettel, O corpo em que nasci; em tradução para a Teodolito;
envelhecer]

Papiro do dia (187)

«Na praça de Ulm ergue-se a catedral, com a sua torre, a mais alta do mundo, e com a heterogeneidade da sua plurissecular construção, iniciada em 1377 e terminada – deixando de lado sucessivos restauros – em 1890. Entre os numerosos guias da catedral destaca-se o cuidadoso e pormenorizado texto de Ferdinand Thrän, que descreve e narra com minúcia, dos ornatos das colunas ao preço da venda de um par de calças oferecido por um devoto fiel, o moleiro Wammes, para os trabalhos da igreja (seis xelins e dois cêntimos). Além de autor do guia, Thrän era também um arquitecto goticizante e esteve quase a causar a ruína da catedral na sequência obstinada acerca de uma “lei” dos arcos, que julgava ter descoberto. Na capa da douta obrazinha (A Catedral de Ulm, Uma Descrição Exacta da mesma, 1857) o impressor, por uma distracção que parece obedecer à necessidade do destino de Ferdinand Thrän, esqueceu-se de escrever o nome deste último, que o bibliotecário da Biblioteca Nacional de Viena acrescentou a lápis, pelo menos no exemplar conservado no Palácio Albertina.
Esse esquecimento é um dos muitos agravos sofridos por Thrän, arquitecto e restaurador da catedral no século passado e hipocondríaco especialista em injúrias, como atesta o escrupuloso Caderno das Ofensas Recebidas que ele escreve durante anos e que jaz, inédito e ignorado, numa arca guardada numa arrecadação da catedral. Tenaz rogador de pragas e persistente alvo de contínuas injustiças, Thrän parece sublinhar, com uma complacência azeda, que a vida é despeito e afronta, pelo que não lhe resta senão manter um inventário rigoroso das respectivas prepotências. Se a escrita autêntica nasce do desejo de dar conta e razão do prolixo impasse de viver, Thrän é um autêntico escritor.»
[Claudio Magris, Danúbio; trad. Miguel Serras Pereira, Quetzal, Março 2010;

12 de fevereiro de 2012

11 de fevereiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

«A pergunta “quem és tu?” ou “quem sou eu?” tem uma resposta muito fácil: cada um conta a sua vida. A pergunta que não tem resposta é outra: “que sou eu?”. Não “quem” mas sim “quê”. Aquele que se faça essa pergunta irá enfrentar-se com uma página em branco, e não será capaz de escrever uma única palavra.»


Às vezes, lá calha...

«A literatura como transporte; há qualquer coisa, como em qualquer mudança, que se perde e qualquer coisa esquecida que se redescobre.»
(Claudio Magris)

Nem sempre a lápis (259)




Desta vez, passei duas semanas em casa sem ter ido a Lisboa; entrei e saí por Sete Rios, de autocarro. O frio assim o aconselhou, tomado o pequeno-almoço agora ao abrigo interior da esplanada. Sinto a falta do passeio com os cães, da pausada deambulação à descoberta do bairro, ao fim da tarde. É bom sentir o Sol em andamento, sentado nos quilómetros; dobradas as provas dentro do bolso. Vou ver das amendoeiras.

Papiro do dia (186)

«Céline fala do lugar inferior e fervilhante do sofrimento feio e imediato, grita com a voz destroçada das criaturas maculadas; reitera a inaceitabilidade e a insensatez do mal. O seu absoluto torna-se distorção e ele acaba por pôr no mesmo plano todos os actores de alguma maneira relevantes da História, Hitler e Léon Blum, na medida em que todos lhe surgem como igual expressão da vontade de poder, beneficiários do favor das massas e por isso detentores da força. Como um messias dorido e culpado, identifica-se com os algozes nazis, porque os vê na derrota.
No Carnaval fétido e sangrento de Sigmaringen tudo se lhe afigura insensato e intercambiável: o impotente Pétain, o louco Corpechot que se proclama almirante do Danúbio, Laval que, no colapso, nomeia Céline governador das ilhas de Saint-Pierre e Miquelon, os colaboracionistas franceses, as bombas americanas e os Läger nazis confundem-se num único e atroz sabat. Céline vive na pele esta desconexão, este “fio da História que me atravessa de ponta a ponta e de alto a baixo, das nuvens até à minha cabeça e ao olho do cu.”»
[Claudio Magris, Danúbio; trad. Miguel Serras Pereira, Quetzal, Março 2010;
Philippe Wojazer Reuters (arquivo)]

10 de fevereiro de 2012

estivesse eu por perto, e dava-lhe à bomba

9 de fevereiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia



Às vezes, lá calha...

«Toda e qualquer vida se decide na capacidade de crença ou na sua ausência, toda e qualquer viagem se joga entre a pausa e a fuga.»
(Claudio Magris)

«É bom trabalhar nas Obras» (102)

«As escadas do meu prédio jogaram um papel na minha educação que os meus pais nunca suspeitaram. Tratava-se de um lugar bastante fresco e solitário, iluminado apenas o indispensável por umas janelas de tijolo de vidro. Nelas, quase acidentalmente, levei a cabo uma descoberta importante relacionada com o meu corpo. Ocorreu durante umas férias em que fazia muito calor. Uma das minhas brincadeiras favoritas consistia em subir aos saltos, de dois em dois, os degraus de tijolo e descer a escorregar pelo corrimão de ferro que havia para nos segurarmos. Era uma coisa que eu tinha praticado muitas vezes, mas de maneira bastante inócua. No entanto, essa tarde, por uma razão que não saberia explicar, a sensação revelou-se surpreendentemente agradável. Era como umas cócegas, logo acima da entreperna, que exigia que o repetisse uma e outra vez, cada vez mais rápido. Era o contraste total: a sensação de estar ali oculta, ao abrigo dos olhares, e, ao mesmo tempo, o perigo de que passasse alguém e me encontrasse entregue a esse jogo que adivinhava inadequado; a frescura do corrimão e o calor da fricção provocavam um calafrio viciante no meu corpo. Aquelas sensações abriram-me, em questão de segundos, as portas para o mundo paradisíaco do onanismo, como quem tem acesso a uma segunda dimensão ou descobre uma substância psicadélica. A última coisa que me ocorreu nesse momento, foi relacionar aquilo com os longos e aborrecidos discursos dos meus pais sobre as funções do sexo. Tanto assim é que uma tarde, com a maior das inocências, revelei à minha mãe o motivo por que passava tanto tempo nas escadas de serviço e, para minha surpresa (provavelmente para a sua também, doutora Sazlavski), não lhe pareceu uma ideia nada boa que a sua filha se masturbasse num espaço tão exposto como aquele, por onde não circulava ninguém, mesmo fazendo-o vestida e a fingir que brincava a outra coisa qualquer. A sua reacção foi muito mais próxima da vergonha do que da exaltação e, como se se tratasse de uma coisa quase reprovável, pediu-me que fizesse "isso" unicamente no meu quarto onde, naturalmente, também dormia o meu irmão. E foi assim que, em plena década dos setenta, me incorporei na ancestral tradição dos onanistas de closet, essa legião de crianças que raras vezes assomam a cabeça acima dos lençóis. Devo admitir, no entanto, que a minha obediência não foi completa. Voltei muitas vezes à escada, muitas mais do que as que a minha mãe imagina, redobrando a vigilância para que ninguém me visse entregue ao refrescante ritual. Ainda me surpreende recordar as coisas que me excitavam nesses primeiros anos. Tratava-se de eventos pouco previsíveis como palavras, entoações de voz, ou presenciar um beijo na via pública, mas também certos sons, como o assobio do vendedor de batata-doce ou do amolador. Todas essas insignificâncias eram um apelo para correr para o corrimão ou para o meu quarto. Às vezes, vejo cachorros que, perante qualquer possibilidade de fricção, se abandonam publicamente aos prazeres de Onan. Eu era assim, aos seis anos. Uma menina incontinente que sucumbia a uma espécie de desejo pelos móveis, os braços da poltrona, a beira de uma mesa, a beira frontal do lavatório, os tubos de metal que seguravam os balancés.»
[Gudalupe Nettel, O corpo em que nasci; em tradução para a Teodolito] 

Papiro do dia (185)

«Entre as muralhas deste castelo nas margens do Danúbio um outro actor de primeiro plano do sangrento teatro do século, Céline, viveu, sofreu e recitou o desenraizamento e o pesadelo da guerra total.
Há uma rapariga que serve de cicerone aos visitantes do castelo. Com uma cantilena mecânica desbobina e ilustra a História e a Arte, tapeçarias do século XVII, os canhões oferecidos por Napoleão II. Quando lhe pergunto onde estava instalado o marechal Pétain, encolhe os ombros, perplexa, com o ar de quem ouve tal nome pela primeira vez: pouco depois, indicando algumas salas, diz-nos que eram os aposentos de Laval. As palavras “Vichy” e “Laval” soltam-lhe a memória e fazem-na desfiar datas e dados, mas nunca ouviu o nome de Pétain.
Este saber intermitente da guia turística desprevenida teria agradado a Céline, o qual descobriria nele a tragicómica esquizofrenia da História que ele próprio vivera justamente em Sigmaringen, onde chegara no rasto do Governo de Vichy em plena catástrofe. No D’un Château l’autre, que encurta e dilata a estada em Sigmaringen, Céline escreve: “se balbucio disparates, pareço-me, no fundo, com numerosas guias”; o seu livro é com efeito de algum modo um baedeker, um compêndio de História ou, para Céline, do seu delírio desenfreado. Ele próprio, em Nord, profetizava que dentro de dez anos já ninguém saberia quem era Pétain ou confundiria o seu nome com o de uma mercearia.»
[Claudio Magris, Danúbio; trad. Miguel Serras Pereira, Quetzal, Março 2010;
& derivados]

8 de fevereiro de 2012

7 de fevereiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«A vida, dizia Kierkgaard, só pode ser compreendida quando se olha para trás, embora devesse ser vivida olhando para a frente – ou seja, para alguma coisa que não existe.»
(Claudio Magris)

Nem sempre a lápis (258)

Não aderi ao controverso acordo ortográfico por uma questão de princípio e ponto final; se é que tal coisa existe. Ganho muito mais em ler o poliglota Raduan Nassar e o polifónico Ruy Duarte de Carvalho; na verve local da língua portuguesa. Junta-se-lhes agora a mineira Andréa Del Fuego, simplesmente por isto: «Serra Morena é íngreme, úmida e fértil. Aos pés dela vivem os Malaquias, janela com tamanho de porta, porta com autoridade de madeira escura.»

[os Malaquias]

Papiro do dia (184)

«Talvez escrever signifique colmatar espaços brancos da existência, esse nada que imprevistamente se abre nas horas e nos dias, entre os objectos do quarto, sorvendo-os numa desolação e numa insignificância infinita. O medo, escreveu Canetti, inventa nomes para se distrair; o viajante lê e anota nomes nas estações que deixa para trás com o seu comboio, nas voltas dos caminhos por onde o levam os seus passos, e continua um tanto aliviado, satisfeito com essa ordem e esse escandir do nada.
Sigmund von Birken procurava os nomes verdadeiros das coisas e pusera-se a viajar, como dizia, para observar directamente a fonte do Danúbio, sobre o qual tantos haviam escrito mas que poucos se tinham dado ao trabalho de ir ver. Não o convencia plenamente a Cosmografia de Sebastien Münster, que referia a origem do Danúbio ao dilúvio universal (XI, 11) e queria verificar se o nome do rio podia ser realmente remetido para o rumor, para o fragor das suas nascentes, conforme algumas etimologistas sustentavam. O seu gosto barroco pelos gracejos e extravagâncias não podia em todo o caso induzi-lo a comprazer-se no imaginar o grande rio tornado seco pelo fechar de uma torneira.»
[Claudio Magris, Danúbio; trad. Miguel Serras Pereira, Quetzal, Março 2010;
funileiro]

6 de fevereiro de 2012



5 de fevereiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Uma vez desmembrada a família,
a terra dividiu-se em dois continentes.»
(Guadalupe Nettel)

«É bom trabalhar nas Obras» (101)

«Outras das ideias dominantes na minha família era a de nos proporcionar uma educação sexual livre de tabus e repressões de qualquer índole. Esta era levada a cabo através de um diálogo aberto e, em certas ocasiões, excessivamente franco sobre o tema, mas também por meio de contos alegóricos. Durante muitas noites – embora também pudesse ocorrer a meio da tarde, se o considerava oportuno – a minha mãe contava uma história da sua própria e surpreendente inspiração, esclarecendo, isso sim, que se tratava de um conto fictício com intenções educativas. Recordo, por exemplo, a sua versão muito peculiar de «A bela adormecida», mais ou menos assim:
Uma tarde fria, de Inverno, a rainha chamou alarmada o médico da corte para que lhe explicasse por que é que havia mais de dois meses que não menstruava. O médico, espantado com a ingenuidade da sua soberana, respondeu-lhe: «Sua majestade deveria saber nesta altura que se uma mulher – nobre ou plebeia – não sangra durante mais de trinta dias seguidos, o mais provável é que se encontre grávida.» Essa tarde, o rei e a rainha anunciaram a notícia aos súbditos: muito em breve iria haver um herdeiro ao trono. E foi assim que, em menos de nove meses, nasceu uma bela princesinha a que chamaram Aurora.
O que sucedia depois: a roca envenenada, o sonho da princesa e tudo o resto, deixava de ter importância, depois de um início como este. No entanto, o conto não explicava de todo o assunto. Passado pouco tempo, essa informação começou a tornar-se-me incompleta e, ao mesmo tempo, inquietante. Qual era exactamente a natureza da regra? Porque razão podia uma rainha ficar grávida? Que relação tinha o sangue com o fabrico de um bebé? A história não esclarecia tudo isso. Os meus pais não queriam mentir-nos a esse respeito, mas tão-pouco lhes era fácil lutar, como pretendiam, contra a tradição de mistério em que eles próprios tinham sido educados. Para facilitarem a tarefa, ofereceram-nos uma série de livros que explicavam a anatomia detalhada dos homens e das mulheres, assim como as relações sexuais e a sua consequência. No entanto, antes que tivesse tempo para assimilar o tema da reprodução, os meus pais apressaram-se a explicar-nos que o uso dos genitais não estava unicamente destinado a esse fim, mas também a outros, recreativos como o sexo. Embora os filhos sejam produto do coito, o objectivo de um encontro como esse não era o de gerar novas vidas, pelo menos na maioria dos casos.
Em vez de adquirirem claridade, as coisas tornavam-se cada vez mais confusas e desesperantes.
- Então – perguntava eu a caminho da escola, no assento de trás do carro, a tentar recapitular –, para que é que as pessoas têm relações sexuais?
- Para sentir prazer – respondiam em uníssono os dois adultos sentados na parte da frente.»
[Guadalupe Nettel, O corpo em que nasci; em tradução para a Teodolito;
fila da frente]

Papiro do dia (183)

«A relação é uma epístola incisiva, cuja precisão científica se combina com a elegância humanística e se contamina de melancolia; nela se reconhece não só o autor dos estudos sobre abalos e deslocações de massa, marcos miliários da sedimentologia, mas também o mais distante e esquivo autor de textos menos conhecidos, como Elogio da Distracção, e de escrupulosas e inquietantes traduções de poemas românticos alemães.
Compreende-se, pela relação, que deve ter sido num primeiro momento a pousada a atraí-lo, essa Gasthaus com o telhado íngreme, revestida de madeira, que se encontra perto da fonte do Breg. Há muitos hotéis na sua relação, que é a narrativa verdadeira de uma expedição, como a dos exploradores em busca das nascentes do Nilo, e regista assim as etapas e fases do caminho; locandas com anões de pedra no jardim, raparigas, velhas pianolas, escadas de madeira conduzindo aos desvãos do telhado. Entre as linhas da relação, escrita por um homem sob outros aspectos tão amável e tranquilizador, existe uma dissimulada tentativa de fuga, o andamento vicioso de alguém que parece procurar um esconderijo, um lugar onde desaparecer e passar a não ser ninguém. As estalagens são sítios acolhedores de conversa e bebida, mas nos recantos um pouco mais escuros da Stube ou nos quartos com o tecto inclinado o autor procura algo de diferente e antitético, a cabana da bruxa na floresta, descoberta nos livros de infância, e à qual ninguém pode jamais voltar. É como se, ao contrário de Tristram Shandy que temia nunca mais voltar a encontrar-se, ele quisesse perder-se e fornecer a si próprio indicações de engano.»
[Claudio Magris, Danúbio; trad. Miguel Serras Pereira, Quetzal, Março 2010]

4 de fevereiro de 2012

3 de fevereiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Era como se, a certa altura, tivesse decidido construir uma geografia alternativa, um território secreto dentro da unidade para passear à minha vontade, sem ser vista.»
(Guadalupe Nettel)

«É bom trabalhar nas Obras» (100)

«Nesse tempo – eu devia estar a começar a primária – fui adquirindo o hábito da leitura. Começara a ler uns dois anos antes, mas, dado que agora tinha um acesso contínuo ao universo nítido ao qual pertencem as letras e os desenhos dos livros infantis, decidi aproveitá-lo. Lia principalmente contos, alguns mais ou menos longos como os de Wilde e os de Stevenson. Preferia as histórias de suspense ou de terror como O retrato de Dorian Gray ou O diabo numa garrafa. Também lia com frequência um volume de lendas bíblicas que o meu pai tinha – tão ou mais aterradoras –, como aquela em que a princesa Salomé decide decapitar o homem que tanto desejava ou aquela em que atiram Daniel para a cova dos leões. O passo para a escrita deu-se naturalmente. Nos meus cadernos pautados, à maneira francesa, apontava histórias em que os protagonistas eram os meus companheiros de aula que passeavam por países remotos, onde lhes sucediam toda a espécie de calamidades. Aqueles contos eram a minha oportunidade de vingança e não podia desperdiçá-la. A professora não tardou a dar-se conta e, movida por uma estranha solidariedade, decidiu organizar uma tertúlia literária para que pudesse expressar-me. Não aceitei ler em público sem antes me assegurar de que um adulto ficaria ao meu lado nessa tarde, até que os meus pais me viessem buscar, pois era provável que mais do que um dos meus companheiro se lembrasse de ajustar contas à saída das aulas. No entanto, as coisas correram de maneira diferente da que eu esperava: ao terminar a leitura de um conto, onde os meus companheiros morriam tragicamente enquanto tentavam escapar de uma pirâmide egípcia, os meninos da minha turma aplaudiram emocionados. Os que tinham protagonizado a história aproximaram-se satisfeitos para me dar os parabéns, e os que não tinham, suplicaram-me que os fizesse participar no conto a seguir. Foi assim que, pouco a pouco, adquiri um lugar particular dentro da escola. Não tinha deixado de ser marginal, mas essa marginalidade já não era opressiva.
Eram os anos setenta e a minha família tinha abraçado algumas das ideias progressistas que imperavam nesse momento.»
[Guadalupe Nettel, O corpo em que nasci; em tradução para a Teodolito;
hábito de leitura] 

Papiro do dia (182)

«A desgraça fascista de Heidegger não é um incidente ocasional, porque o fascismo, na sua dimensão menos ignóbil mas nem por isso menos destrutiva, é também esta atitude de quem sabe ser um bom amigo do seu companheiro de assento, mas não dá conta de que igualmente outros homens podem ser do mesmo modo amigos dos seus companheiros de assento. Eichmann era sincero quando em Jerusalém ficou horrorizado ao descobrir que o pai do capitão Less, o oficial israelita que o interrogara durante meses e para com o qual sentia um profundo respeito, morrera em Auschwitz. Horrorizado, porque a sua falta de imaginação o impedira de descobrir nas listas das suas vítimas rostos, feições, olhares, homens concretos.»






[Claudio Magris, Danúbio; trad. Miguel Serras Pereira, Quetzal, Março 2010;

1 de fevereiro de 2012

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...


«É bom trabalhar nas Obras» (99)

«Os meus pais e eu visitámos oftalmologistas nas cidades de Nova Iorque, Los Angeles e Boston, mas também Barcelona e Bogotá, onde pontificavam os célebres irmãos Barraquer. Em cada um desses lugares, ressoava o mesmo diagnóstico como um eco macabro que se repete a si mesmo, postergando a solução para um hipotético futuro. O médico que mais frequentámos dava consulta no hospital oftalmologista de San Diego, logo atrás da fronteira, onde também vivia a irmã do meu pai. Chamava-se John Pentley e tinha o aspecto de um velhinho bondoso que prepara banha-da-cobra e receita gotas para a felicidade. Receitava aos meus pais uma pomada espessa que eles espalhavam cada manhã dentro do meu olho. Também punham umas gotas de atropina, substância que dilata a pupila à sua capacidade máxima e que me fazia ver o mundo de maneira deslumbrada, como se a realidade se tivesse convertido na sala de um interrogatório cósmico. Esse mesmo médico aconselhava a exposição dos meus olhos à luz negra. Para o efeito, os meus pais construíram uma caixa de madeira onde cabia perfeitamente a minha pequena cabeça, e iluminavam-na com um foco com essas características. No fundo, à maneira de um cinemascópio primitivo, circulavam desenhos de animais: um veado, uma tartaruga, um pássaro, um pavão. A rotina tinha lugar à tarde. Logo a seguir, tiravam-me o penso. Talvez, assim contado, possa parecer divertido, mas a verdade é que eu vivia aquilo como um autêntico tormento. Há pessoas que são obrigadas durante a infância a estudar um instrumento de música ou a treinarem-se para provas de ginástica, a mim treinavam-me a ver com a mesma disciplina com que outros preparam o seu futuro como desportistas.
Mas a vista não era a única obsessão na minha família. Os meus pais pareciam assumir a infância como uma etapa preparatória em que devem ser corrigidos todos os defeitos de fábrica com que cada um chega ao mundo e levavam essa tarefa muito a sério.»
[Guadalupe Nettel, O corpo em que nasci; em tradução para a Teodolito;
oftalmologista]  

Papiro do dia (181)

«É reconfortante que a viagem tenha uma arquitectura e que seja possível contribuir com algumas pedras para esta última, embora o viajante pareça não ser tanto alguém que constrói paisagens – tarefa do sedentário – como alguém que as desmonta e desfaz, à semelhança do barão von R. descrito por Hoffmann, que corria mundo coleccionando panoramas e, quando considerava necessário gozar ou criar uma bela perspectiva, mandava cortar árvores, desbastar ramos, aplainar as irregularidades do solo, abater florestas inteiras ou demolir fábricas que tolhessem o olhar. Mas também a destruição é uma arquitectura, uma desconstrução que segue regras e cálculos, uma arte de decompor e recompor, ou seja, de criar uma outra ordem: quando um muro de folhagens caía de súbito, abrindo a imagem das ruínas de um castelo longínquo na luz do crepúsculo, o barão von R. detinha-se alguns minutos a contemplar o espectáculo que ele próprio encenara e depois voltava a partir à pressa, para não mais ali regressar.»
[Claudio Magris, Danúbio; trad. Miguel Serras Pereira, Quetzal, Março 2010;
abate]

31 de janeiro de 2012

«É bom trabalhar nas Obras»

«Caros amigos,

Pelo presente [e-mail às 19:03] venho comunicar-vos que a partir desta data cessarei as minhas funções na Oficina do Livro/Grupo LeYa.

Como resultado do nosso contacto, mais ou menos intenso, no qual tanta relação profissional passou a pessoal e de grande amizade, não posso deixar de vos manifestar o meu mais sincero agradecimento.

Os meus contactos pessoais manter-se-ão os mesmos.

Até sempre; um abraço amigo,
Marcelo Teixeira»


[hasta, carnal]

30 de janeiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia


[qu'é pra não serem queixinhas]

Às vezes, lá calha...




«O esquema é o esboço de um estatuto da vida, se é verdade que a existência é uma viagem, como costuma dizer-se, e que passamos como hóspedes pela Terra.»
(Claudio Magris)

«É bom trabalhar nas Obras» (98)

«A minha vida dividia-se assim entre duas espécies de universos: o matinal, constituído sobretudo por sons e estímulos olfactivos, mas também por cores enevoadas, e o vespertino, sempre libertador e ao mesmo tempo de uma precisão desnorteante.
O colégio era, nestas circunstâncias, um lugar ainda mais inóspito do que costumam ser essas instituições. Via pouco, mas o suficiente para saber como movimentar-me dentro daquele labirinto de corredores, sebes e jardins. Gostava de subir às árvores. O meu sentido do tacto superdesenvolvido permitia-me distinguir com facilidade os ramos sólidos dos fracos e saber em que buracos do muro enfiava melhor o sapato. O problema não era o espaço, mas os outros meninos. Eles e eu sabíamos que entre nós havia várias diferenças e segregávamo-nos mutuamente. Os meus companheiros de turma perguntavam-se com desconfiança o que é que escondia atrás do penso – devia ser algo aterrador, para ter de tapá-lo – e, quando me distraía, aproximavam as mãozinhas cheias de terra a tentar tocar-lhe. O olho direito, o que estava mesmo à vista, causava-lhes curiosidade e desconcerto. Em adulta, por vezes, quer seja no consultório do oculista ou no banco de um parque, volto a encontrar-me com uma dessas crianças com penso e reconheço nelas aquela mesma ansiedade tão característica da minha infância que os impede de estarem quietos. Para mim, trata-se de uma inconformidade perante o perigo e a prova de que têm um grande instinto de sobrevivência. São inquietos porque não suportam a ideia de que esse mundo enevoado se lhes escape das mãos. Precisam de explorar, encontrar a maneira de se apropriar dele. Não havia outros meninos assim no meu colégio, mas tinha companheiros com outro tipo de anormalidades. Recordo uma menina muito doce que era paralítica, um anão, uma loira com lábio leporino, um menino com leucemia que nos abandonou antes de terminar a primária. Todos nós partilhávamos a certeza de que não éramos iguais aos outros e de que conhecíamos melhor esta vida do que aquela horda de inocentes que, na sua curta existência, ainda não tinham enfrentado nenhuma desgraça.»
[Guadalupe Nettel, O corpo em que nasci; em tradução para a Teodolito;
divisória] 

Papiro do dia (180)

«Uma mosca pousou-lhe na mão. Ele sopra; ela agita-se e levanta voo.
Que nojo!
Porquê tanto ódio e obstinação contra um animal tão pequeno?
Porque ele apenas irrompe neste mundo. Tu é que vens de outras paragens. Tu é que irrompes num mundo que já não é o teu. Olha para a mosca, observa com que leveza ela vive no seu mundo.
Porque ela não tem consciência.
Não tem consciência porque não precisa dela. Vive a sua leveza, a sua morte… muito simplesmente.»
[sopro]

29 de janeiro de 2012

28 de janeiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«A existência do escritor, dizia monsenhor Della Casa, é um estado de guerra.»
(Claudio Magris)

Nem sempre a lápis (257)

Como disse a seu tempo, não cheguei a conhecer Rui Costa; pessoalmente e muito pouco a obra, descubro estilhaços póstumos. Percebi que algo não batia bem no blogue do quarteto, através de um texto do Henrique Fialho. Doeu-me, que nem um cão, a troca de mensagens com o Fernando Dinis, no MSN. Guardei a confidencialidade da dor, que em breve saberia pública e devassada. A folhear a bloga do dia, fui colhido pela notícia do gesto, da homenagem dos co-bloggers do Rui. Olho a lápide acima, e permanece a interrogação: De que morre um poeta de 39 anos?

Papiro do dia (179)

«A Pomba
Era uma vez uma pomba que largou um poio, bem lá do alto do seu voo. Depois largou mais outro, e depois mais um. Continuou a voar e a largar poios durante semanas e semanas. Já não conseguia parar de largar poios, porque estas coisas habituam (dizem). A pomba começou a ficar mais leve e tornou-se muito rápida. Agora descia em voo picado depois de largar um poio e conseguia vê-lo atingir o alvo, normalmente outro poio, que passeava cá em baixo como quem não quer a coisa. Os poios são - mais do que um conceito ou uma forma de estar na vida -, poios.»

26 de janeiro de 2012

Meditação na capoeira



Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Com a sonata em fundo, o Mensageiro estala os dedos. As verrugas.
O Director mexe o desconforto na cadeira. A emoção cria urina.»
(Sandro William Junqueira)
[pauta] 

«É bom trabalhar nas Obras» (97)

«Nasci com um sinal branco, ou o que os outros chamam uma marca de nascença, sobre a córnea do meu olho direito. Não teria tido nenhuma relevância se a mácula em questão não estivesse em cheio no centro da íris, quer dizer precisamente sobre a pupila por onde a luz deve entrar até ao fundo do cérebro. Nessa época, ainda não se praticavam os transplantes da córnea em crianças recém-nascidas: o sinal estava condenado a permanecer ali durante vários anos. A obstrução da pupila favoreceu o paulatino desenvolvimento de uma catarata, assim como um túnel sem ventilação se vai enchendo de bolor. O único consolo que os médicos puderam dar aos meus pais naquele momento, foi a espera. Seguramente, quando a sua filha terminasse de crescer, a medicina teria avançado o suficiente para oferecer a solução que então lhes faltava. Entretanto, aconselharam-nos a submeterem-me a uma série de exercícios fastidiosos para que desenvolvesse, na medida do possível, o olho deficiente. Isto era feito com movimentos oculares semelhantes aos propostos por Aldous Huxley em A arte de ver, mas também – e é o que recordo mais – recorrendo a um penso que me tapava o olho esquerdo durante metade do dia. Tratava-se de um pedaço de pano com as margens adesivas semelhantes às de uma decalcomania. O penso era cor de carne e ocultava desde a parte superior da pálpebra até ao princípio da face. À primeira vista, dava a impressão de que em vez de globo ocular só tinha uma superfície lisa. Andar com ele causava-me uma sensação opressiva e de injustiça. Era difícil aceitar que mo pusessem cada manhã e que não havia esconderijo ou pranto que pudesse libertar-me daquele suplício. Creio que não houve um único dia em que não oferecesse resistência. Teria sido tão fácil esperar que me deixassem à porta da escola para o tirar com um puxão, com o mesmo gesto despreocupado com que costumava arrancar as carepas dos joelhos. No entanto, por uma razão que ainda não consigo perceber, nunca tentei descolá-lo.»
[Guadalupe Nettel, O corpo em que nasci; em tradução para a Teodolito;

Papiro do dia (178)

«O Director é um actor à boca de cena numa marcação rigorosa.
Quando de pé, ao interrogar ou falar, compõe as mãos apáticas, de camurça, atrás das costas. Quando sentado, é mais fácil: pousa sobre a braguilha, uma luva, e depois a outra, em cima. E ali ficam, quietas, as duas mãos furtivas: inúteis irmãs gémeas a protegerem-se mutuamente.
Apenas sozinho, no escritório de casa, no gabinete do trabalho, de porta fechada, o Director calça as luvas de camurça. Usa para a operação, a reunião dos indicadores, médios e anelares e o auxílio dos dentes. Seis dedos para duas mãos. Três mais três dentes. Que o Director exercita para executarem o trabalho de dez. Mas ter seis dedos é diferente de ter dez. E os dentes não podem fazer o resto.
Mas, e os polegares da caça? Como compensar a falta dos polegares da caça? A construção da humanidade iniciou-se no polegar. O que distingue homens de animais é esse dedo anão, grosso, que se opõe aos outros. Que os encara pomo a pomo, e conta, como um professor conta os alunos a quem vai ensinar a lição:
Um, dois, três, quatro.
Um, dois, três, quatro.
Desde a perda, há gestos interditos ao Director: apertar uma mão; descascar uma pêra; abotoar um botão; rodar uma maçaneta; disparar um revólver; tocar a pele de mulher de forma erótica.
Qualquer gesto manual, ainda que mínimo, traz dificuldade. Obriga-o a um esforço suplementar. A uma atenção permanente. Isto, apesar do treino a que forçara os dedos órfãos.
Mas a desgraça também é um lugar de aprendizagem.
Uma vez, aproveitando um convite pessoal do Ministro Calvo para oferecer uma palestra teórica a verdugos recém-formados sobre Técnicas de Persuasão, o Director elaborou uma tese.
Nessa tese, havia um capítulo intitulado “As mãos sinceras”.
A certa altura, lia-se:»
[Sandro William Junqueira, Um piano para cavalos altos; Caminho, Dezembro 2011]

25 de janeiro de 2012



24 de janeiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

«Lunes

Às vezes, lá calha...

«O medo e a pele: vizinhos de longa data que se cumprimentam de forma cordial quando se cruzam. Um começa quando o outro começa; um termina quando o outro termina.»
(Sandro William Junqueira)

Nem sempre a lápis (256)

Puxei do moleskine e da caran d’ache para anotar o nome alemão da gaúcha do Rio Grande do Sul que me vai estrear como avô: Seyboth Mallmamn (Santos Silva Fallorca, acrescentei emocionado). E o gesto, a atitude  fez-me sentir tão antigo, tão cultura ocidental europeia.

Papiro do dia (177)

«O Director repara na evidência: dos dedos do outro nascem minúsculas flores de carne: verrugas.
O Mensageiro, sentado na cadeira desconfortável, mãos entrelaçadas, fita o aquário. O Director pronuncia um nome. O Mensageiro encara-o. O Director formula quatro perguntas sobre o ataque dos lobos na Floresta mantendo o tom amigo. Açucaradas, as palavras deslizam como rebuçados. O Mensageiro, diabético, recusa-se a responder, quatro vezes. Sempre com um sorriso rachado a exibir gengivas. Então, o Director repete as perguntas. E o Mensageiro repete o silêncio, agora áspero.
O Director contrai maxilares. Cerra dentes contra dentes e levanta-se. A cabeça do Mensageiro acompanha-o. Repara no movimento que as orelhas sanguíneas e deslocadas da nuca do Director fazem a cada mastigação. Repara ainda na sombra pequenina que se projecta contra a parede verde e franze o cenho.
Pensa:
A sombra do Director não concorda com a envergadura.»
[Sandro William Junqueira, Um piano para cavalos altos; Caminho, Dezembro 2011;
envergadura

23 de janeiro de 2012



22 de janeiro de 2012

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Só era reconhecível pelos farrapos do uniforme e a estrela de metal, símbolo do Governo, que se salvara, indigesta e dura, dos dentes da violência.»
(Sandro William Junqueira)