7 de dezembro de 2011

Nem sempre a lápis (238)

As mãos sujam-se com a alegria da cor e o cheiro de casca a rasgar-se, quando estilhaçamos uma romã. Idiomas mais belicosos chamam-lhe grenade. Entre nós, talvez para mim, romã conserva feições de adolescência rural: trigueira, faces coradas, bochechas de romã. «E de maçã», vão corrigir os escudeiros da mais feminina entre a fruta; assim tem sido.

[bom proveito]

Papiro do dia (158)

«No Hotel Chateau Mormont, em Sunset Boulevard,
ele tentou surripiar um quadro sem o mínimo valor,
com um choupo encalhado junto a uma poça seca, no deserto.

Apanharam-no com o quadro no parque de estacionamento,
quando o metia sobre o estrado da camioneta.

Quando lhe perguntaram porquê, ele disse-lhes que não tinha bem a certeza.
Disse-lhes que, ao ver a gravura, não lhe pôde resistir.

Disse-lhes que se viu a si mesmo dentro da gravura, deitado
de costas debaixo do choupo.

Disse que reconhecia a árvore de um velho sonho e
que o sonho se baseava numa árvore verdadeira da
sua infância, há muito tempo, de que tinha uma remota recordação.

Lembrava-se de estar deitado debaixo dessa árvore
e de olhar para cima através das folhas de prata.

Lembrava-se de vozes que vinham do meio dessas folhas, mas não conseguia
lembrar-se do que essas vozes diziam ou a quem pertenciam.

Explicou-lhes ainda que esperava que aquela gravura
fizesse regressar à memória tudo o que estava adormecido.

25/7/81
Hollywood, Ca.»
[Sam Shepard, Crónicas Americanas; trad. José Vieira de Lima, Difel, Janeiro 2002 (4.ª ed.)]

6 de dezembro de 2011

5 de dezembro de 2011

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Vive de acordo com os seus rendimentos, o seu temperamento, os seus meios emocionais. Será feliz? Sim, acredita que sim. Contudo, não esqueceu a última frase de Édipo: Nenhum homem é feliz enquanto não está morto.»
(J. M. Coetzee)

Nem sempre a lápis (237)

Hoje passei a tarde toda às voltas pela Califórnia e o Arizona e o Texas, com o Sam Shepard. Fartámo-nos de fazer milhas de camião, e demos a palmada num Austin-Healey, mesmo à mão de semear.
Mas os melhores percursos foram feitos de camião, quase um andar acima do asfalto interminável; hipnótico.
Depois de jantar fui até ao Goody’s, na Village. Há mais de duas horas que estou para aqui à espera do Joe Gould; ficou de me mostrar um capítulo da História Oral.
Como está mais que visto que se baldou e não vai aparecer, acho que vou mas é deitar-me.

Papiro do dia (157)

«O camião desapareceu num sítio chamado Plains. As ruas eram todas em tijolo. Automobilistas em passeio nos seus Mavericks. Havia um tráfego incompreensível enquanto andava à procura de um motel para dormir. Encontrou um que se auto-anunciava como “Um Toque de Veludo – Quartos de Luxo”. Achou que merecia um pouco de veludo. Sentir-se entre veludo era precisamente o que ansiava. Aquele veludo podia ser um refúgio depois da estrada.
Ficou com o quarto mais caro, sem se preocupar se tinha dinheiro suficiente. O quarto tinha um cheiro sintético insuportável. Provavelmente o cheiro dos tapetes limpos e desinfectados. As paredes eram um tufo de veludo vermelho. Os cobertores eram de veludo vermelho. As cadeiras eram de veludo vermelho. Tapetes de veludo vermelho. Lavatório vermelho. Cortinas vermelhas. Todos os vermelhos, o vermelho. Não havia um vermelho menos vermelho do que outro vermelho ou mais vermelho do que o vermelho a seguir. O quarto era uma vingança de veludo vermelho. Fez de conta que estava em casa.
Ligou a TV. Um pregador pregava em linguagem gestual. Reparou que o gesto para “Jesus” consistia em bater alternadamente nas palmas de cada mão com o dedo do meio, o que fazia pensar nos cravos espetados, na crucificação. Desligou o som e observou atentamente as mãos do pregador. Teve a sensação de que havia linguagem saltando pelo quarto. (“E nenhum dos seus ossos será partido.”)
Adormeceu no chuveiro, de pé. Sonhou com um homem que tinha conhecido em rapaz. Amarrado a um sicómoro. Queimado não se sabe porquê. A árvore ficou com uma incisão negra que acabou por fechar, mostrando no fim uma casca cor-de-rosa. Limpa como queixo de bebé. Quando acordou ainda via o homem. Pensou que lhe estava a cair chuva na cabeça. E o homem flutuava. E as cinzas do corpo do homem escorriam pelo seu rosto abaixo.
(“E nenhum dos seus ossos será partido.”)
2/79
Plains, Texas»
[Sam Shepard, Crónicas Americanas; trad. José Vieira de Lima, Difel, Janeiro 2002 (4.ª ed.)]

4 de dezembro de 2011

3 de dezembro de 2011

Breve interlúdio musical



Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«A vida no campo sempre teve a ver com vizinhos a maquinar uns contra os outros, desejando pestes uns aos outros, desejando colheitas pobres uns aos outros, desejando a ruína financeira uns aos outros, mas, em momentos de crise, sempre prontos a ajudarem-se mutuamente.»
(J. M. Coetzee)
[complot] 

Nem sempre a lápis (236)

É possível que estas recentes e continuadas deambulações de autocarro, tenham transportado Sam Shepard para o bolso do casacão de bombazina. Actualizei-o o ano passado na véspera da ida a Vila Real, de carro: I would prefer not to, esclarece o pin na lapela. É muito possível. Reli as primeiras Crónicas Americanas, contornando os poemas, também na véspera de ir ao Porto, mas não o abri durante a viagem. Nem no autocarro, com escala em Fátima; nem quando me deitei, sem o acordar. Era tarde e saboreava encontros e reencontros e um serão, no ambiente familiar do quarto na Lusitana. O terminal rodoviário de Sete Rios parece ter-se transformado numa rosa-dos-ventos com bilhetes para os destinos mais impensáveis e às horas mais improváveis. Percursos de três horas, à janela do lado da berma da estrada, com destino ao Sul. Pela primeira vez, que me lembre, deixei o telemóvel em casa.

Papiro do dia (156)

«Na sua opinião, o campo está a mudar-se inexoravelmente para a cidade. Em breve haverá novamente gado em Rondesbochar Common; em breve a história completará o seu círculo.
Portanto, encontra-se em casa outra vez. Não sente que esteja a regressar a casa. não se consegue imaginar a viver novamente em Torrance Road, à sombra da universidade, esgueirando-se como um criminoso, evitando os antigos colegas. Terá de vender a casa, mudar-se para um apartamento mais barato.
Tem as finanças num estado caótico. Não paga qualquer conta desde que partiu. Vive do crédito; mais dia menos dia, o crédito acabará.
O fim da vida errante. O que se segue à vida errante? Imagina-se de cabelo branco, ombros alquebrados, a arrastar os pés até à mercearia da esquina para comprar meio litro de leite e meio pão; imagina-se sentado à secretária sem inspiração num quarto cheio de papéis amarelecidos, à espera que a tarde se extinga para poder fazer o jantar e ir para a cama. A vida se um erudito obsoleto, sem esperança, sem expectativas: estará preparado para isso?»
[J. M. Coetzee, Desgraça; trad. José Remelhe, BIIS, Setembro 2010;
bigodaça portugaise

1 de dezembro de 2011

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Quanto mais as coisas mudam mais permanecem iguais. A história repete-se, embora de uma forma mais modesta. Talvez a história tenha aprendido a lição.»
(J. M. Coetzee)

Nem sempre a lápis (235)

Olhei pela janela e calcei as botas com sola de pneu e encaminhei-me para a paragem do autocarro, sem consultar os horários. Perante a impossibilidade de ver o Lapa e o Ângelo quando for ao Porto, fiz-me acompanhar de Barulheira, decidido a sair nas Amoreiras e seguir pelas ramificações da minha geografia urbana, até às esculturas na galeria do Teatro da Politécnica; decidido a matar o tempo. Observei a ansiedade de prestadoras de serviço doméstico, confirmei a passagem de autocarros por que perguntaram, vi a chegada efusiva da miudagem, alheio à passividade branca dos reformados. Não me lembro se passou o 7 ou o 13. Na verdade, todos os números são bons para viajar, embora não os haja em número suficiente; reconsiderei ao entrar em casa.

Papiro do dia (155)

«Durante os últimos anos tem brincado com a ideia de executar um trabalho sobre Byron. A princípio, pensara que se trataria de mais um livro, um opus crítico. Mas todas as tentativas se tinham transformado em tédio. A verdade é que está cansado da crítica, cansado da prosa medida a palmo. O que quer é escrever música: Byron em Itália, uma meditação acerca do amor entre sexos na forma de uma ópera de câmara.
Durante as aulas de Comunicação, passam-lhe pela mente frases, temas, fragmentos de canções da obra não escrita. Nunca foi um grande professor; nesta instituição de ensino transformada e na sua mente castrada, está mais deslocado do que nunca. Porém, também outros dos seus colegas de antigamente o estão, sobrecarregados com ensinamentos inadequados às tarefas que estão preparados para executar, meros funcionários numa era pós-religiosa.
Uma vez que não respeita a matéria que ensina, não tem qualquer impacto nos seus alunos. É como se não o vissem quando fala, esquecem até o seu nome. A indiferença deles fere-o mais do que é capaz de admitir. Não obstante, cumpre inteiramente as suas obrigações para com eles, para com os pais deles e para com o estado. Mês após mês prepara, recolhe, lê e anota os seus trabalhos corrigindo erros de pontuação, ortografia e gramática, questionando argumentos e anexando uma pequena crítica devidamente pensada.
Continua a ensinar, porque o ensino lhe proporciona uma forma de vida; também porque o ensina a ser humilde, porque o faz compreender quem ele é neste mundo. Compreende a ironia: aquele que vem ensinar aprende a mais interessante das lições, ao passo que aqueles que vêm para aprender não aprendem nada. Trata-se de uma característica da sua profissão que não transmite a Soraya. Duvida que ela tenha na vida uma ironia que se lhe compare.»
[J. M. Coetzee, Desgraça; trad. José Remelhe, BIIS, Setembro 2010]