3 de agosto de 2011

Nem sempre a lápis (195)

Terminava assim:

29
«Gostava que este livro, se vier a ser um livro, soubesse a pão e a sal, a peixe frito e a harira, a água fresca e a chá, que as páginas ofuscassem como a prata do mar de Asilah e os dias luminosos do Rif, cegassem como os campos do baixo, em Agosto, e acendessem trilhos no mar como a Lua Cheia na Fortaleza; fossem impressas a buril nas encostas xistosas das Laceiras e apagadas pelos cascos do gado afugentado por um velho Land-Rover; falassem várias línguas comuns, sem idade nem sotaques, apátridas e abrangentes, que nelas se ouvissem várias vozes numa só voz e ribombassem as trovoadas secas de Maio e de Setembro e os relâmpagos iluminassem as páginas de um rosto apresentado como figura tutelar e exemplar, sem exigências nem cedências recíprocas; fossem rasgadas pelo estertor primário da matança de um porco numa aldeia de Mortágua, pela sinfonia da água a correr de um bica de metal para uma pia de granito, em Salgueirais, pelo silêncio frio da serra do Caramulo e pelo silêncio calcinado dos cerros algarvios; fossem interrompidas pelo canto das popas e abelharucos, riscadas pelo voo rápido das andorinhas, mas sustentando bem alto um predador atento ao mínimo movimento da presa que se protege da canícula; gostava que nelas fumegassem fogareiros de barro e lareiras de sobro e de giesta, cheirassem a forragem segada e a tagine, a chuva e a cães molhados regressados da caça, a pomares devassados pelas abelhas e a vinhas vindimadas, como cheira o teu cabelo quando sais do mar.
Gostava que este livro, se tiver de ser um livro, ao folheá-lo sentisse o toque da tua pele e ouvisse a tua respiração enquanto dormes; permanecesse secreto e inacabado, escrito e reescrito como o livro que me recuso a escrever, onde não houvesse lugar para lugares-comuns e, à falta de melhor, o silêncio se impusesse à previsível conclusão de cada período; fosse um palimpsesto onde latejam outras páginas, em branco e decifráveis, sobrepostas como sucessivas camadas de cal dos montes do Sul, como escamas de ardósia dos derradeiros telhados da Beira, comunicativas e arejadas como açoteias de Tânger e de Asilah; memória amnésica, fronteira de fronteiras derrubadas.
30
(de Setembro)
Já arrumei a mochila e atestei o Land-Rover. Esta madrugada arranco até Jajouka.»
[até Jajouka, Monte Alto / Mortágua, Maio / Setembro de 2006]

7 comentários:

margarete disse...

ai.meu.deus
que coisa boa de se ler: bem ca puta da vida!

obrigada pela escrita que vou roubar jájá!

fallorca disse...

Serve-te :)

N. disse...

abri a caixa de comentários para dizer (e digo): olha! gostei mesmo disto.
depois dei de face com a margarete... olha-me esta!, pensei eu, ainda me vai dizer: eu vi primeiro. :-)
gostamos.

fallorca disse...

Sabes, como és meia-leca e tens de te pôr em cima da sanita, vês mais tarde, fiufiu...
Andas paradita, mas naice?

N. disse...

ando naice, sim. Tive uns cursos laborais que quase me levavam nas águas do autoclismo.
E agora ando por aí lendo (lenta) quando posso. :-)

a. disse...

bonito :) (ainda a por a leitura por estas bandas em dia)

fallorca disse...

Bonita é a esplanada e o trilho (que conduz a ela?)

Bom descanso e noites luminosas