13 de agosto de 2011

Nem sempre a lápis (199)


Nasci, cresci, mas não me deixei encarquilhar no meio da maior das violências, familiar, doméstica, profissional, tribal. Não adianta nada dourar a moldura e sorrir para o retrato de família. São todas de se fugir; não tive outro remédio, para envelhecer à minha vontade.
A minha mãe teve o cuidado de avisar muito cedo, quando me fechava no sótão de castigo, por exemplo. «O mundo é violento», dizia, naquele ancestral tom fallorquiano que não contemplava dúvidas nem certezas. Durante umas insuportáveis férias na quinta de Baratã, nas Mercês, quando descobri uma escrivaninha nas águas-furtadas, com vista para o pomar e o pinhal, todo entretido a dar cabo de uma rotring, devem ter dito qualquer coisa que não me soou bem e nunca mais esqueci: «Não se lhe pode dizer nada; é um vidrinho». Ora, eu nessa altura ainda não usava óculos e, por acaso, até tenho pena de não poder perguntar a esse meu segundo-primo, ao senhor engenheiro sem filhos e a ressacar um espectacular par de cornos, soube mais tarde, se ele não estaria a chamar-me paneleiro quando eu tinha seis ou sete anos.
Não posso, o homem já não atende.
Entretanto, «aprendera através das minhas leituras que as pessoas quando estão aborrecidas podem fazer coisas horríveis. Na verdade, fazem-nas para se sentirem infelizes e não aborrecidas» (Sam Savage).

5 comentários:

Carlos Azevedo disse...

Excelente (gostei especialmente do 1.º parágrafo).

fallorca disse...

;)

Cristina Torrão disse...

Excelente, sim.

Os retratos de família, as férias insuportáveis, "é um vidrinho", ai, ai...

Escreve mais textos destes :)

P.S. Não tem muito a ver com o assunto, mas a frase de Sam Savage fez-me lembrar o assassino norueguês.

fallorca disse...

Não gozes, lembra-te que tinha 6 ou 7 anos :)

Cristina Torrão disse...

Não estou a gozar, trata-se de uma identificação ;P