31 de agosto de 2011

Nem sempre a lápis (205)

Fiz a viagem directa e saudoso como os emigrantes; entre eles me encontro. Não tomei em conta as calças para fazer a auto-estrada às duas e tal da tarde; sem alternativa à sertã do asfalto. Esperava-me um lugar para estacionar à sombra, em frente da Câmara, mas recusei a mesa usada há três anos; no café ao lado. Optei pela esplanada que foi quintal, à sombra da nespereira, da laranjeira, da tília e outra que me convém que seja cameleira, para fazer um mimo à minha mãe. Miudagem com portáteis, ucranianos com minis, residentes com imperiais. Nem a minha namorada do colégio nem a minha amiga desde a infância, atendem o telemóvel. A Manela deve andar a queimar mais onze meses de Munique, pelas estradas da serra; a Guida tanto pode estar em Mortágua, no Porto, no Algarve, como nos Açores, a brincar às avozinhas. A esplanada é acolhedora, protegida com lençóis a corar ao Sol, movidos pela brisa que descortina a várzea até ao rio, onde pasta o gado à solta. Ao fundo, à direita, ficava o matadouro. O sangue e parte das vísceras cavaram o próprio acesso ao rio do Barril; afluente do outro, a que pertenço. Mais logo, quando mudar outra vez de mesa feito um girassol, passo pela Camor para comprar água. Há lá sabonetes Musgo Real e isqueiros muito em conta. Foi o primeiro supermercado ou cooperativa – é mais provável, pela sigla – de Mortágua; não acompanhou o crescimento das grandes superfícies, rendeu-se aos chineses. Casa do Wang, esvoaçam bandeirolas e dragões indiferentes ao que se mantém chumbado na arcada. «Passei o dia todo na feira», às quatro da tarde confirmam a possibilidade ocorrida pelo caminho. Já não a conheci à quinta-feira; era ao sábado e as fotos do rio podem esperar horas menos sociais, mais íntimas. Cruzei com caras de Mortágua a partir da Aguieira e ao atravessar o jardim, mas não reconheço a origem das caras e das vozes que me rodeiam na esplanada. Fui à nova superfície buscar água para trazer para o quarto na Aldeia Sol, e vi a Guida a debater-se com pacotes de leite para os netos. Repreendi-a com um sorriso apanhados de surpresa, e vasculhou os telemóveis (um não chega) na carteira. Que só lhe tinha ligado uma vez, empoleirou-se com um sorriso; não fiz o desenho, expliquei-lhe que as outras estavam empilhadas. Repreendeu-me a tosse e aproximou a testa para um beijo, a segredar; faz sessenta anos e quer-me lá em casa para festejar com o clã dos Lobo. Há quantos anos não vejo a mãe dela, algarvia de S. Brás de Alportel com noventa e três anos, de que conservo intacta a imagem a tocar o órgão do Jardim-Escola João de Deus. Deixei a porta aberta para entrarem as moscas, mas não se ouve trânsito e os cucos cantam na floresta; vim passar a noite à terra.

4 comentários:

Andressa C. disse...

O que se encontra na noite à terra?

fallorca disse...

Rente à terra; terra onde nasci

Cristina Torrão disse...

Quanta ternura... :)

fallorca disse...

A Guida é a irmã que não tive, e fez os anos que o meu irmão faria, se fosse vivo.
Beijo, Cristina :)