11 de dezembro de 2013

Dar a face pelo book de outros

"Today", uma publicação gratuita que se define a si própria como o melhor visitor guide do sítio, exibe no seu interior um intrigante anúncio. Logo na quarta página, um convite a duas colunas para a "a maior exposição de Marc Chagall jamais realizada na América".
A ocorrência não pode deixar de me parecer insólita, entrando-me pelos olhos dentro estou eu sentada ao balcão de um coffe bar, "Do-you-want-more-coffe?-Yes-please-thank-you", tal e qual como nos filmes, acabada de chegar a Las Vegas. E Las Vegas, como se sabe, fica no meio do deserto.
Aterrara na noite anterior. Depois de esperar, com algum nervosismo, que o serviço de fronteiras de Queens em Nova York (onde fizera escala) confirmasse que sou uma pessoa de bem (poupo-vos aos pormenores e à minha detenção de 3 horas pela polícia do aeroporto), lá me reconhecem o visto e posso seguir viagem.
«Então, é jornalista?», remata-me a autoridade no final do episódio. «Sim», respondo laconicamente, já de passaporte na mão. «E o que vai fazer a Las Vegas?». A resposta, gambling, saiu pelos vistos com rapidez excessiva, deflagrando um lance de desaprovação e perplexidade no meu interlocutor. Recuo: "Estava a brincar!", e sempre recuando, desta vez em direcção à porta, eclipso-me à pressa pelos corredores.
Em Queens tentara repor os meus níveis de nicotina, pelo que me dirigi a uma funcionária em demanda da smoking area. «Lá fora.» «Lá fora?!», insisto, enquanto me viram as costas. E acabo a fazer horas junto aos deserdados do fumo, sucidando-me com eles por um bocadinho ao ar livre.
Repare-se, no aeroporto Mac Carran não se fuma outside. Uma sala apropriada, a que não faltam algumas máquinas de jogo, espera-nos mal tocamos solo firme, embora seja tal a espessura do ar que até eu própria desisto.
Apesar de ter dormido durante as cinco horas do voo, identifico o passageiro do lado, maço de tabaco na mão. «A primeira vez em Las Vegas?», pergunta-me enquanto esperamos pela malas. Confirmo. Quer saber de onde venho. «Portugal.» «Portugal, Europa?», comenta, surpreendido. «And you?», chuto no meu inglês emperrado. «Eu?» «Sim, o que veio fazer a Las Vegas?». Dispara-me um gambling certeiro, tão certeiro como um royal flush. Então já somos dois. Bom, no meu caso, em rigor não venho para jogar; confesso, contudo, sempre ter tido uma simpatia especial, e não apenas literária, pelo Fyodor Dostoievsky.
Anualmente, os aviões despejam em Las Vegas mais de 30 milhões de passageiros - o correspondente a cerca de 7 a 8% da população americana. O nova-iorquino Ed, motorista negro de tamanho XL que já circulou por Chicago e que há meia dúzia de anos o destino retém por aqui, cuja idade, indefinida, parece ser a idade de quem conseguiu assistir a todos os «fora-de-horas» sem que por isso o olhar lhe endurecesse o rosto, diz-me que a maioria das pessoas que transporta do aeroporto chega para jogar. Jogar ou anything else, acrescenta. Porque tudo é possível em Las Vegas... desde que se tenha dinheiro.
Atenção: Ed não é um cínico, apenas um céptico, nunca por nunca um moralista. Explica-me: «Estás sentada durante horas a desafiar uma máquina. Ficas depenada. Acabas por te ir embora. Chega um tipo qualquer e no segundo seguinte sai-lhe um jackpot daqueles! Percebes o que quero dizer? Ganhar é só uma questão de se estar no sítio certo à hora certa.» Como a vida, Ed? «Yes», como a vida, responde Ed.
Regresso a Chagall. Passados uns dias, hei-de andar de «Today» na mão à procura da Centaur Art Galleries. A coisa cheirava-me a esturro. Las Vegas não é propriamente uma cidade onde se venha para calcorrear museus (apesar do Liberace Museum, do Hermitage Guggenheim Museam e do Guggenheim Las Vegas - do tamanho da Grand Central Station de Nova Iorque, que, como se sabe, é grande). Mas, de tudo o que tinha visto, não imaginava onde poderia encontrar exposta «the largest exhibition of Marc Chagall's art ever shown in America». O mistério adensava-se porque a morada conduzia-me sempre ao Fashion Show Mall, um centro comercial onde já tropeçara vezes sem conta.
Por uma vez entro.
Uma superfície gigantesca, com as lojas do costume e cuja única peculiaridade era ser bastante menos extravagante do que o habitual em Las Vegas: nenhuma Fontana de Trevi, nada de Louvres ou canais venezianos em miniatura, nada de Miguel Angelos em tamanho natural. Bastante europeu, se é que me faço entender... De Chagall, porém, nem vê-lo. Chego a pensar que se tratará de um outro Marc.
Fazendo uma última tentativa, pergunto pela Centaur Art Galleries numa perfumaria. A empregada, solícita, indica-me o primeiro andar do lado oposto àquele onde me encontro. Avisto duas enormes faixas vermelhas que caem sobre o piso térreo junto das escadas rolantes: Marc Chagall inscrito a branco. Só podia ser o mesmo.
Na galeria, dezenas e dezenas de esboços, desenhos e alguns quadros dispõem-se pelas paredes. Os que faltam, para perfazer os duzentos anunciados, amontoam-se pelo chão. Atónita, eis que um homem se aproxima - magro, cabelos apanhados na nuca, óculos de excelente design e fato de melhor corte - tomando a iniciativa de se me dirigir.
«Gosta de Chagall?», e eis que fico sem palavras. Adoro Chagall! - em tom blasé - seria a deixa apropriada? «As pessoas adoram Chagall!», antecipa-se o galerista. Eu vou olhando umas figuras a carvão que retratam os pecados mortais. «É uma série», explica-me. «Os pecados não estão identificados, embora algumas sejam fáceis de adivinhar. O preço pelo conjunto é, evidentemente, negociável. Já tem algum Chagall na sua colecção?»
Começo, finalmente, a entrar no espírito da coisa. Mostra-me as autenticações. «Temos tido imensos compradores. As pessoas, simplesmente, adoram Chagall!», repete-se. «Ao contrário do Picasso. O mês passado tivemos uma exposição e houve quem viesse de propósito só para nos dizer como o detestava!»
Vislumbro uma frecha por onde se esfuma o tema incómodo da minha colecção de arte privada. «Detestava?!», sublinho em tom admirativo. «Sim, consta que era horrível com as mulheres!», confidencia-me. Começo mesmo a entrar no espírito da coisa. Esboço um sorriso. «Bom, não acho muito relevante. Por mim, até podia bater na mãe.» Encara-me surpreendido por detrás dos óculos. «Claro, sim, como artista, claro...», balbucia, como se reflectisse sobre isso pela primeira vez.
Apeteceu-me gritar-lhe: «Bolas, homem! Apesar do Siegel ter ido desta para melhor ainda nenhum de nós era nascido, não precisa de ser tão previsivelmente correcto!» (Fui incapaz de lhe dizer isto em inglês)
Bom, na verdade, até Andy Warhol - Guillermo Cabrera Infante, O Livro das Cidades, capítulo «Viva Las Vegas» - não aguentou o ritmo. E Andy não ficou para a história por ser um menino de coro.
Cito: «Não é de estranhar que Andy Warhol, quando veio e viu, saísse a correr e dissesse 'eu gosto das coisas aborrecidas', querendo dizer que só gostava das coisas aborrecidas e que Las Vegas era, nas suas palavras, 'Demasiado!' De desmaiar.» Pois. Como quando o Howard Hughes, entre gemidos e injecções de morfina, ali-logo-na-hora, contestou o pedido da gerência do Hotel-Casino Le Desert Inn para que cedesse alguns dos quartos do andar que ocupava por inteiro: o pacote pelo dobro do preço real foi a sua última oferta. Em cash (será possível?).
Se me perguntassem agora: «Com o que é que se parece Las Vegas?», só poderia responder: «Las Vegas não se parece com nada.» Recorrendo ainda a Cabrera Infante: «Disse-se que Las Vegas é um caleidoscópico arraial de luzes coloridas. Mas isso não basta. Las Vegas é a única cidade do mundo em que as luzes de néon e as lâmpadas são a arquitectura.»
Confirmam-se as palavras do escritor cubano do cimo da torre do Hotel-Casino Stratosphere (350 metros de altura obrigatórios). Isto de noite, naturalmente. Mas há que subir também à claridade do dia para termos a exacta dimensão do delírio. Porque se do pó viemos ao pó voltaremos. Assim está escrito. E o deserto continua lá.
Areia e montanhas pardacentas (não muito longe fica o Grand Canyon e a cidade mais próxima, LA, a 400 km) estrangulam uma gigantesca cratera na qual se amontoam milhares de casas baixas com garagem e quintal acoplados, e só depois o olhar encontra a Strip - um traçado longo de seis quilómetros onde se alinha pouco mais de uma vintena de edifícios em altura, sede de todos os sonhos e de todos os pesadelos: «Rien ne vas plus!» e soltam-se todas as tremuras ao Fyodor -, que a esta hora se resume a uma inofensiva, desinteressante e estimável avenida.
Se esperarmos até ao anoitecer, a cidade acender-se-á e à sua volta não há-de restar senão uma negritude anterior ao mundo. As luzes e os néons são a arquitectura. Mas mais do que isso: a cidade torna-se paisagem absoluta. E nunca o fake foi tão a única verdade.
Na Strip será preciso esquecer tudo o que julgávamos ser um hotel ou um casino (estão excluídos os que conhecem os locais de jogo no Oriente), e levar um mapa para não nos perdermos no interior destas labirínticas cavernas platónicas onde o sol não entra (ou não o suficiente para se ter uma Ideia do calor que faz lá fora).
Eis-nos no coração dos simulacros soberanos: o dinheiro que remete para as fichas; as fichas que remetem para a sorte; a sorte que remete para o dinheiro; o dinheiro que remete para si próprio (quanto ao Belo, ao Bem e à Felicidade chegarão por acréscimo) - aqui está, meu caro filósofo, o que aprenderíeis em Las Vegas.
Note-se: os hotéis não têm casinos, os casinos têm hotéis e a própria cidade não é mais do que um imenso casino onde nos dão lições grátis pela manhã para que joguemos à noite: «Faites vos jeux madames et messieurs! Faites vos jeux!»
No Paris, uma perna da Torre Eiffel assenta na sala de jogo, as outras duas no passeio público amparando o Arc de Triomphe, o Louvre, a Place de la Concorde e outros clichés; no Caesars Palace (onde Dustin Hoffman, o irmão autista, quase leva a casa à bancarrota - obviamente, uma contradição nos termos), a piscina evoca as termas de Pompeia e uma estátua de César Augusto espera-nos à entrada - Os Que Vão Perder Te Saúdam!, digo eu; o Luxor reproduz em tamanho natural a pirâmide de Gizé, e a Esfinge, também com as medidas exactas, vigia a entrada do hotel; no New York New York podem-se tirar fotografias ao lado da Estátua da Liberdade e ninguém notará a diferença; o Mandalay Bay inspira-se na Birmânia e esconde uma lagoa artificial de tamanho suficiente para nela caberem duas praias de águas tranquilas e uma com ondas de sete metros para surfar no deserto; no MGM Grand (com 5005 quartos - o maior hotel do mundo até à construção do Venitian), meia dúzia de leões passeia-se numa jaula envidraçada, rugidos dobrados e falhos de sincronia que ressoam desgraçadamente pelo lobby; o Venetian (agora à frente, com seis mil acomodações), que veio substituir o mítico Sands onde Sinatra costumava actuar e que chegou a fazer parte do testamento de Hughes, encontrou modelo na cidade italiana, reproduzindo a Praça de São Marcos, as pontes, e até um canal de 400 metros onde casais se passeiam de gôndola sem risco de submergirem, a não ser nas lojas de marca e galerias; The Mirage decidiu-se por uma gigantesca cascata num jardim de mais de mil palmeiras onde, de noite, de 15 em 15 minutos, um vulcão vomita fogo; no Treasure Island evocam-se piratas e na baía em frente ao hotel, onde estão ancorados dois navios, diariamente entre as 16h e as 21h30 os bons do HMS Brittania atacam os maus do Hispaniola (ou será o contrário?).
Perante o que me parece ser uma demência encartada, o histórico Flamingo passa por um exemplar de discretíssimo classicismo... E tudo aqui é tão fake que, antes de ver realmente vistos os pássaros que saltitam por Las Vegas - uma variante de corvos -, apostei que o seu intenso chilrear vinha de uma gravação dissimulada por entre a folhagem das árvores.
As lagostas perseguem-me. Um empregado de papillon e fisionomia hispânica exibe um horrível crustáceo sob um sorriso luminoso: «The ultimate lobster experience». O cartaz está por todo o lado. Hei-de testemunhar, nas ementas gastronómicas, que a lagosta é quase tão democrática como as máquinas caça-níqueis.
O barulho metálico das moedas a serem engolidas - ou despejadas - por estes artefactos luminosos inventados no princípio do século XX, originalmente para distribuição de pastilhas elásticas (três sabores para três rodas giratórias - laranja, cereja e ameixa; quando se alinhavam três iguais levavam-se mais pastilhas para casa), tilinta 24 horas. Aguarda-nos de manhã, quando saímos do hotel, e aguarda-nos à noite, quando regressamos ao hotel.
De slot machines passaram, nos anos 50, a one-arm bandits (bandidos de um só braço) e juro que vi, tão realmente vistos como os pássaros que não eram virtuais, seriam já umas quatro da manhã, uma recém-casada, ainda de bouquet e vestido branco de noiva, um noivo e um padrinho alugado - Presley saído do Viva Las Vegas de 1964 -, puxando afincadamente o único braço do bandido. Red/White/Blue: prémio máximo... não registei os dólares.
O casal, recém-chegado da Wedding Chappel do hotel, acrescentava-se à interminável lista dos famosos que deram o nó em Las Vegas (segundo as estatísticas, um casamento cada cinco minutos; alguns deles durarão mais ou menos o mesmo). Ao longo do tempo, em paralelo à presteza dos serviços matrimoniais, também o jogo se desenvolve. Os dados foram definitivamente lançados em 1931, quando as apostas se legalizaram no Estado do Nevada; a paixão dos americanos pelas artes do azar parece, contudo, ser muito anterior. Roubo a prova a Bill Bryson e a Made in América: «Mark Twain conta a história de um homem do Oeste que vinha dar à viúva de Jo Toole a notícia da sua morte: 'O Joe Toole vive aqui?' e, quando a viúva respondeu que sim, ele disse: 'Quanto aposta que não?'»
Joga-se compulsivamente. Isto, mesmo se os caixas dos casinos nos distribuem prospectos, junto com as fichas, sobre como resistir ao vício na sin city e telefones para onde pedir ajuda (não com certeza monetária).
Tratar-se-á, no essencial, de uma medida cosmética: como transformar a cidade do pecado num resort de férias em família. É verdade que se vêem muitas crianças na rua (à mistura com grupos de hispânicos e índios que distribuem folhetos de sexo full service). Mas o que verdadeiramente distingue Las Vegas de uma qualquer Disneylândia é, não só a origem do dinheiro que lhe corre nas veias como maná dos céus - com o capital não se brinca, nem nos States nem em parte nenhuma do mundo, deve ter sido isto que pensaram Lucky Luciano e Frank Costello imediatamente antes de Ben Siegel ser abatido na sua casa em Hollywood, enquanto lia o jornal na companhia de Virginia Hill que depois nem se deu ao trabalho de aparecer no enterro -, como também, e antes de tudo, o seu passado. E o passado é uma doença de pele: não há lifting que nos livre dele.
Que o diga Deedee Wanwinkle, mais real que todas as luzes da Strip, «silly woman» como ela apostava que eu a haveria de definir quando escrevesse uma história a seu respeito. «Vais escrever uma história sobre mim?», os olhos a brilhar «Oh my god! Não acredito», eu sem saber o que dizer, sabendo-lhe o dinheiro emprestado da licença para croupier perdido num bacará azarento, um filho numa morada provisória a centenas de milhas da casa de onde haviam fugido a um destino que Deedee imaginou poder contrariar em Las Vegas, e agora «faço tudo, menos sexo». Deedee, nome encantador, e eu a querer chamá-la Alice e a desejar-lhe um happy end tão feliz como o do antigo Alice Já Não Mora Aqui do mesmo Scorsese do Casino, retrato de uma época que chegava ao fim.
No Casino participou Oscar B. Goodman, fazendo de si próprio - advogado de Joe Pesci a vestir a pele de Nicky Santoro, na vida real o temível Tony Spilotro -, eleito mayor da cidade em 1999 e um dos juristas mais reputados dos EUA cuja lista de clientes é a prova provada que o Mal existe e não foi inventado nos filmes.
«Dirigir um casino é como assaltar um banco sem haver chuis por perto. Para tipos como eu, Las Vegas limpa todos os pecados. É como levar a moralidade a uma lavagem automática de carros», dizia para a câmara De Niro, Sam «Ace» Rothstein, na vida real Frank «Left» Rosenthal, o outro cliente de Goodman, homem que se descreve a si próprio como um «um cavaleiro que combate a rainha negra do FBI» e que chegou ao poder já a cidade fora declarada limpa do crime organizado.
O «boom» (palavra exacta, porque tiroteio era o que não faltava) regista-se na década de 40 - mas o maior jackpot só deflagrará em 1995, no Las Vegas Hilton: 11,9 milhões de dólares!
Será necessário, porém, recuarmos ao século XIX (em rigor, a 1829) para travarmos conhecimento com Rafael Rivera, um jovem mexicano que, seguindo numa caravana pelo antigo trilho espanhol em direcção a Los Angeles, se aventura pelo deserto e descobre... água! O local ficará assim hispanicamente baptizado para sempre: «vegas», que significa várzea. O caminho até LA encurta-se e os mórmones da Igreja de Jesus Cristo dos Santos do Último Dia chegam ao vale tentando dominar os elementos. O último a desistir parte em 1857 e deixa para trás um forte que ainda hoje faz parte das atracções locais.
No início do século XX, a construção do caminho-de-ferro e, posteriormente, de uma grande barragem no Colorado - a Hoover Dam - atrai ao local milhares de forasteiros. Aos novos residentes, muitos deles fugindo à Grande Depressão, acrescentam-se os militares da Las Vegas Aerial Gunnery Scholl, fundada já a II Grande Guerra galgava desenfreada, mais os que vieram para o deserto testar a desarmonia atómica.
Em 1940, Las Vegas tem 8400 habitantes. Actualmente é a urbe americana com maior índice de crescimento anual - conta com um milhão e quinhentos mil recenseados, a que todos os meses se adicionam quatro mil.
Os primeiros hotéis localizavam-se na Downtown. O Nevada, de 1906, ainda lá está, e chama-se hoje Golden Gate Hotel. É também na Downtown que fica a Fremont Street, uma rua fechada ao trânsito por onde noutros tempos andou a fazer gincanas o escocês Sean Connery, um Bond à velocidade dos 70 escoltado pela voz de Shirley Bassey que jurava a plenos pulmões que os Diamonds are Forever.
De casinos muito menos ostentatórios que os da Strip, na cobertura da Fremont, longa de 400 metros, exibem-se à noite, de hora a hora, sofisticados exercícios pirotécnicos ao som de temas com um vago sabor country, contraponto das vozes metálicas e estranhamente doces que nos garantem continuamente pelas ruas que o «jackpot is happened here!» e que, enquanto esperamos a nossa vez, podemos saborear «three, free, frozen margaritas now!».
Poesia pura, como parece ser a opinião do porteiro do Casino Royale que me pergunta, enquanto tomo nota de um pormenor qualquer: «Are you writting a poem?»
Em 1941 surge o primeiro hotel fora de portas. El Rancho Motel constrói-se na Los Angeles Highway ou Route 91 e, sem que ainda se soubesse, estava a assistir-se ao nascimento da Strip (de nome oficial, mas só oficial, Las Vegas Bouvelard). Clark Gable, Zsa Zsa Gabor, Spencer Tracy, Paul Newman tornam-se clientes habituais, até que o hotel desaparece num incêndio nos anos 60, os terrenos comprados posteriormente por Howard Hughes.
Quando o «gangster» galante e elegante Ben «Bugsy» Siegel chega a Las Vegas acompanhado por Virginia Hill, a Strip resumia-se ao El Rancho, Last Frontier... e futuro Flamingo. A ideia não foi de Ben, apesar de no Padrinho II Meyer Lansky, outro judeu, no filme Hyman Roth, anunciar que ele «foi um homem com visão de futuro». Um futuro curto.
O verdadeiro dono do Flamingo chamava-se Billy Wilkerson, um bem-sucedido empresário de Los Angeles e editor do Hollywood Reporter. Quando decidiu construir um casino em Las Vegas, escaparia a Billy o pormenor que o havia de levar à ruína: ele próprio era um jogador. Endividado o sonho, nada mais lhe restou do que aceitar a proposta irrecusável de Ben «Bugsy» Siegel/Warren Beaty que, na tela, como na vida, acabaria mal. Poucas semanas depois da abertura do Flamingo, Siegel cairia crivado de balas em Beverly Hill, acusado de defraudar os cofres da Mafia. Mas repito-me.
Luzes! Luzes! Luzes! Apenas por quatro vezes Las Vegas se dignou baixar o brilho (um brilho tão eléctrico que basta tocar num puxador em metal para sentirmos uma descarga a percorrer-nos o corpo): por ocasião da morte de Kennedy, na sequência do atentado de 11 de Setembro, e quando Dean Martin e Frank Sinatra (a dupla do inesquecível Deus Sabe Quanto Amei) subiram aos céus.
Fiat lux! terá alguém gritado sobre a várzea, encontrada água naquele buraco perdido no deserto. São sempre insondáveis os caminhos dos homens.
Os mórmones há muito tinham desistido, antes do último dia e muito previamente ao primeiro, esse em que algum bandido de um só braço terá apostado ao póquer em como se há-de erguer aqui uma cidade capaz de ofuscar as estrelas e exortar os homens ao vício, tão certo como termos vindo do pó e ao pó voltarmos - o deserto lá está para o provar - e a luz fez-se! E que a arrogância lhes seja perdoada assim como todas as dívidas de jogo.

9 de dezembro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia




Às vezes, lá calha...

«Viajar é renascer, libertar-nos das responsabilidades, vadiar, e encontrarmos as imagens perdidas da juventude.»
(Sándor Márai)
 

Nem sempre a lápis (460)

Memória descritiva
Lisboa
Foi sempre uma miragem.
El Dorado de puto encurralado pela tacanhez da província.
Abordei-a várias vezes, mas adiava-me a adopção.
Depois do Natal, das férias, empoleirava-me no banco de trás do carro, e via-a afastar-se até se diluir nas brumas do futuro.
E quando o futuro chegou, já me tinha tirado os três e mostrado os becos do medo.
Já lhe conhecia a vocação torcionária e os labirintos do cinismo.
Nunca me apaixonei pela luz de Lisboa.
E nunca me senti reconfortado pelos ocasos que lhe douram o Tejo.
Mas lambi-lhe o caleidoscópio dos azulejos.
Apertei a mão a dezenas de batentes de casas mudas e portas que não se abriram.
Lisboa era um barco naufragado.
Uma cacofonia de gentes e costumes.
De sabores novos e fogareiros a carvão, que crepitavam nas esquinas do Bairro.
Um concerto de rotativas de jornais onde me gastei.
Sem prazer, nem glória de 3ª. página.
Cedi à tentação de me oferecer à cidade, sem que ela me pedisse.
Ou desejasse mais um.
Lisboa conhecia mil e uma manhas para me enlear, e eu não dispunha de defesas.
Ou vontade de me furtar à sensualidade das ruas coleantes.
Aos seios úberes das colinas e não me saciar no rio.
Decorridos todos estes anos, nunca consigo dizer que sou de Lisboa.
Eu também não acredito.

Papiro do dia (420)

«Varsóvia tinha caído. Sentia-me tão perto dos polacos, um povo com um destino obstinado e implacável, que, de vez em quando, é destruído brutalmente! E isso também era o sentido verdadeiro da sua sorte: com que tipo de energia atroz e com que exuberância tenaz conseguiram renascer sempre das suas terríveis desgraças! É um povo que está intimamente ligado à música. Estava a pensar nisto, enquanto lia os títulos dos jornais da véspera que anunciavam em letras grandes a queda de Varsóvia, logo depois veio-me à cabeça Chopin. Mas o que é que posso fazer pelos polacos?... Eu só sei dirigir-me ao mundo na linguagem da música e agora, quando no continente ressoava a agonia de uma nação ferida mortalmente, não podia fazer outra coisa que interpretar numa sala de concertos europeia o som mais nobre com que esse povo se virara para a humanidade: fazer reviver a música de Chopin. (…) Na altura do público pedir bis o que iria interpretar? Seria uma peça de Tchaikovsky para eternizar o momento histórico? Deveria tocar o russo, a par do polaco e do alemão, que tentavam estabelecer, através do poder musical. Uma harmonia intensamente negada pelo furor que dominava então na terra. À noite, depois da queda de Varsóvia, refletia sobre estas questões no comboio que me levava a Itália. Sabia que esta emoção sublime de explicar o meu empenho era mais do que um simples encadeamento de ideias. Era uma espécie de serviço; e nisso o embaixador tinha razão. Ia interpretar música polaca, alemã e russa num mundo que já não queria ouvir outra coisa senão os seus próprios gritos de agonia. Dobrei os jornais e paguei a conta.»
[Sándor Márai, A irmã; trad. Piroska Felkai, Dom Quixote, Novembro 2013]

7 de dezembro de 2013

Saldos

A luva in love
(Assírio & Alvim, Março 1977, 16 ex.)
Alcateia
(Hugin, Setembro 1999, 8 ex)
A Cicatriz do Ar
(Black Son Editores, Junho 2002, 15 ex.)

... e mais estes


10€ ou 15€ dois títulos (portes incluídos)
e os Cadernos do Monte Alto

[só disponíveis por aqui]

5 de dezembro de 2013

Não sejas uma livraria vai com as ostras...

Rua Prof. Luís Azevedo, nº37 , 8600-617 Lagos
Qui - Sáb: 16:00 - 20:00

282 084 959

3 de dezembro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

 
 
 

Às vezes, lá calha...

«A matéria-prima do meu trabalho, a palavra, não é um elemento tão imprescindível da comunicação humana como às vezes os escritores obcecados pelo orgulho supõem.»
(Sándor Márai)

Nem sempre a lápis (459)

Memória descritiva
Ler
Conhecemo-nos no Jardim Escola.
O de João de Deus.
As senhoras encostavam a Cartilha Maternal ao quadro, e eu imaginava que algumas letras eram brancas porque a ardósia tinha gasto o preto todo.
Era um livro enorme, que elas abriam com um esforço semelhante à nossa capacidade de concentração para ligar as letras.
E quando as ligávamos, apercebiamo-nos que as letras faziam sons.
Bem diferentes daqueles que a Dona Perpétua - era o nome - extraía do órgão do salão.
Mal lhe víamos a moleirinha.
Derreada sobre as teclas, ordenava as notas musicais que deveriam andar à solta dentro do caixote de madeira, à altura do nosso olhar.
Um cavalo de Tróia.
Durante anos, associei a música aos sons que ela retirava dos pedais, e se perpetuou no caderno de encargos trauteado pelas nossas vozes esganiçadas:

“Na nossa escola haja alegria
sejamos sempre bons companheiros
que sempre seja o nosso dia
sermos bonzitos e verdadeiros”.

Sobretudo na alegria e convicção com que rematávamos o último verso.
Ainda hoje me custa a acreditar que tudo não passe de uma canção.
Uma infantilidade.
E tenho a maior dificuldade em compreender os outros sons das letras.
[Longe do mundo; frenesi 2004]

Papiro do dia (419)

«Os acontecimentos realmente importantes que surgem inevitavelmente das ligações da natureza humana, nunca despertam tanto assombro e desnorteamento como a tensão emocional causada pelo presságio e pela expectativa. A realidade está aqui, logo veremos: foi isso que pensámos e por isso nos mantivemos em silêncio. Ninguém estava excitado ou tentava imaginar as circunstâncias da tragédia. E creio que não estava enganado ao supor que, naqueles momentos, os meus companheiros sentiam o mesmo alívio que eu: horror e alívio, como se, por fim, tudo o que tinha acontecido antes fizesse sentido. Como se fôssemos aliados para que este momento se tornasse realidade, algo que já tinha sentido antes e também mais tarde: a cumplicidade de culpabilidade entre pessoas no momento de um grande perigo.
Z. parou em frente da porta com varanda. Inclinou-se na direcção da maçaneta e pôs-se à escuta. Nós não ouvimos nada, mas compreendemos logo que Z. ouvia os ruídos de uma outra forma, tinha um tipo de “ouvido” diferente do dos caçadores melómanos. Onde nós, sem um talento especial para a música, não captávamos nenhum som, a sua audição delicada, mesmo através da porta, percebeu o pianíssimo da agonia. Permanecia em frente da porta tranquilamente e com um interesse objectivo que caracteriza os peritos, ligeiramente curvado, mais ou menos como se um maestro se inclinasse por cima de um fosso de orquestra para escutar as notas baixinhas de um instrumento que chegavam de longe. Ao cabo de uns minutos, endireitou-se, os olhos brilhavam; aqueles olhos estranhos, de luz sombria, cuja íris parecia estar coberta por uma fina camada de catarata, como se sempre olhasse para uma outra direcção, para um mundo onde a existência não se manifesta em objectos ou formas, mas em sons e ideias musicais.
- Ouvi algo há uma hora atrás – disse. – Pensei que estavam a dormir. Mas não. Um deles ainda está com vida – acrescentou com uma voz firme.»
[Sándor Márai, A irmã; trad. Piroska Felkai, Dom Quixote, Novembro 2013;
presságio]

1 de dezembro de 2013

Dar a face pelo book

Terminado o almoço, os sentidos, viciados no prazer da nicotina, reclamam por um Monte Cristo. O amigo do fotógrafo acende a cigarrilha com manifesta volúpia e o cheiro intenso do tabaco sobrepõe-se ao aroma discreto do café solo - que em Espanha bebem-no de preferência con leche. Na mesa ao lado, um homem de provecta idade termina, também ele, a refeição. O fotógrafo faz um sinal ao amigo que logo tenta contrariar a direcção do fumo, sacudindo desajeitadamente a mão em movimentos nervosos. Ao notar o embaraço, o caballero ― mais do que o dramatismo da língua, o que aqui nos surpreende é o recorte preciso das palavras ― logo exclama: "No se preocupe! Fume usted lo que quiera. Yo ya no puedo fumar pero el humo me estimula..."
Este é o espírito da coisa.
Os espanhóis, é dos livros, falam alto e vivem na rua. O termo ― espanhóis ―, ao qual torcerão o nariz alguns nacionalistas mais politicamente correctos, ganha um sentido maior em Madrid, onde cerca de 80% da população é proveniente de outras regiões ou do estrangeiro. Gentes de Castela, Astúrias, Andaluzia, Galiza, Málaga, Catalunha, País Basco... (no total, são 20 possibilidades) mesclam-se nesta cidade, capital de um país feito de geografias e idiossincrasias várias. Tal mestiçagem é antiga. Notava já Calderón de la Barca, dramaturgo madrileno do século XVII, que "Es Madrid, patria de todos/ (pues en su mundo pequeño/ son hijos de igual cariño/ naturales y extranjeros...".
Apesar da gravidade arquitectónica e da escala algo esmagadora (para um peão, atravessar uma avenida quando o sinal passou a intermitente requer, no mínimo, bravura de espírito e destreza de pernas), Madrid só pode orgulhar-se do seu estatuto há relativamente pouco tempo. Porque embora a sua fundação pelo V Emir independente de Córdoba, Mohamed, recue à ocupação árabe da Península, a elevação a capital do reino apenas se dá em 1556 quando Filipe II (I dos nossos) assim o decide.
Henrique Garcia Pereira, um português adepto do ethos espanhol, sugere no seu livro "Arte Recombinatória" que a escolha terá recaído sobre Madrid e não sobre Lisboa, por, dizia-se, aí não haver mosquitos. Subtraída ao título entre 1601 e 1606, por decisão de outro Filipe (III, II dos nossos), no ano seguinte retoma a ordenação que mantém até hoje.
Seria agora chegado o momento de desenvolver matérias eruditas e listar datas e acontecimentos relacionados com esta villa, que não ciudad, mas que me perdoem o conselho: qualquer guia menor os informará, melhor do que eu, dos meandros historiográficos. Cite-se antes Antonio Ferres, romancista e poeta madrileno que assim pontificou à saída da livraria Casa del Libro, onde marcáramos encontro: "Madrid es un disparate". Na língua do autor de "Los Confines del Reino" isto quer dizer: um excesso.
Não nos precipitemos, contudo. Porque o rendez-vous com Ferres apenas se deu três dias após a partida. Por enquanto, ainda estou no Aeroporto da Portela às voltas com um B.I. caducado.
Foi só à chegada ao check-in que uma funcionária zelosa repara na data prescrita e me recusa o embarque. Em vão protestei e em vão supliquei. À tentativa frustrada de a convencer da relatividade do tempo (o BI caducara há menos de uma semana), seguiu-se uma corrida rocambolesca contra o tempo entre o aeroporto e a Praça do Areeiro, pontuada por telefonemas ao fotógrafo, de guarda à minha mala, a dar-lhe conta das manobras. No Arquivo de Identificação, onde em meia hora me resolvem o problema, não podiam ser mais prestáveis.
Acalme-se! Acalme-se! Vamos fazer os possíveis! Dê cá o dedo! Vai ver que consegue! E as fotografias? Não tem?! E está à espera de quê? Vá já aí ao lado! Deixe isso, nós preenchemos! Despache-se, despache-se! Poupo-vos ao stress. Numa hora fui e voltei ― devidamente identificada ― e à hora prevista sentava-me no avião rumo a Madrid. Tudo está bem quando acaba bem, mas, por agora, ainda estamos nos preliminares.
A correria terá sido premonitória. Uma espécie de ritual de iniciação ao que nos esperava. Felizmente, por melhores motivos. Assim, e para abreviar: na primeira noite recolhemos ao hotel à 01h30m. Chegáramos ao aeroporto de Barajas por volta das 13h00 e, visto tanto eu como o fotógrafo acumularmos sonos atrasados, tornou-se humanamente impossível prosseguir com as digressões madrilenas que, todavia, iniciámos logo na primeira noite com inegável espírito de missão. No segundo dia, desistimos pouco antes das 03h00; no terceiro, perto das 04h00; no quarto.... Creio que me faço entender. Numa manhã de domingo, no Rastro, submersos num mar de cabeças ondulantes entre dois flashs e incontáveis cafés sempre solos, não soube o que responder ao fotógrafo quando este, atónito, me interpelou: "Ele é de noite, ele é de dia. Mas quando é que estes tipos dormem?"
Esta cidade podia servir de mote a um anúncio do Red Bull. Tente, pelo menos a partir de 5ª feira, apanhar um táxi às 05h00 da manhã e compreenderá do que falo (acrescente-se que, ao contrário de Paris, táxis é o que não falta). Ou jantar sem fazer marcação. Ou ir a um espectáculo sem ter reservado bilhete. O ritual começa pelas tapas ― termo que, segundo a tradição, terá resultado do sensato despacho do rei Alfonso X que obrigava a acompanhar o vinho servido nas estalagens de Castela por um pequeno prato de comida que era colocado a tapar o copo, diminuindo assim efeitos etílicos indesejáveis (e não será por acaso que este rei é conhecido pelo cognome de O Sábio) ― continua com as copas, prossegue nas discotecas e termina nos after-hours.
No domingo, por volta da uma da tarde, na Casa António La Cebada, rostos protegidos por impenetráveis óculos escuros denunciam muitas horas sem dormir. Enquanto uns bebem a última caña, outros aguardam (como nós) uma suculenta tortilla servida ao som de ritmos flamencos, confesso que um pouco estridentes...
Foi assim que, incautos, nos vimos obrigados a desistir do restaurante Los Girasoles, ao fundo da calle Hortaleza, zona de nítida renovação urbana, contígua à Chueca, bairro onde a comunidade gay marca pontos e prova o seu talento para fazer reviver as cidades. Não havia hipótese. Na noite anterior trocáramos, em boa hora, o jantar por uma ida ao Café Central, a que chamam a catedral madrilena do jazz, mas hoje queríamos sentarmo-nos e comer de faca e garfo. Eram quase 10h00 da noite ― cheio ― e as reservas estavam completas, mesmo para as 23h00. E para amanhã?
"Si, claro, por mañana, si". O dono, de uma simpatia e profissionalismo à prova de bazuca, passeia-me pelas duas salas, pergunta-me que mesa prefiro, toma nota da reserva. No dia seguinte acolhe-me como se me reconhecesse da minha primeira infância. Pronuncia o meu nome com as letras todas ― Cris-ti-na! (nada do indistinto e tristonho «Crestina» português).
Depois de sentados (eu e o fotógrafo), um telefonema. É Isabel, uma jornalista espanhola que se propõe fazer-nos companhia esta noite. Passamos a ser três a jantar. Sugerem-nos trocar de mesa. Passados cinco minutos, do meio da sala, ouço o meu nome ser novamente enunciado de forma claríssima: Cris-ti-na!, seguido de um gesto que me indica o novo lugar: "Venga!" Levanto-me de um ápice. Obedeço. E aqui terei que esclarecer, para se entender o insólito da coisa, que eu persisto em manter-me do género rebelde sem causa.
Vem-me à cabeça um álbum de Lucky Luke e o entusiasmo de Rantanplan obedecendo à mã Dalton que lhe ordena que se sente: "Finalmente alguém que sabe mandar!" As línguas, como a geografia, explicam muita coisa.

Dir-se-á que do conceito que deu fama à Movida madrilena ― a noite como espaço de liberdade ― se passou aos copos como forma de negócio. Sem querer entrar em polémicas, o que é indiscutível é que, pelo menos para quem chega de fora, eles ― os madrilenos ― continuam tremendamente frenéticos. Movendo-se. E arrastam-nos.
Há lugares que resistem. Escueto reabriu depois de um longo interregno (só ao fim-de-semana) precisamente no mesmo local onde a Movida começou, em torno da Plaza Dos de Mayo no bairro de Malasaña ou de Maravillas. No Berlin Cabaret, numa ruela do La Latina, uma das zonas mais castiças de Madrid, insiste-se em espectáculos independentes que pontuam noites de boa música e melhor ambiente. Por três vezes ― a primeira, à 01h00 ― abre-se o palco e sobem à cena três coelhinhas travesti, irreverentes e um pouco gordas. José María Calafat, um dos sócios do Berlin Cabaret, esclarece-me, antes mesmo de eu ter tempo de lhe ser apresentada: "No hablo de sexo!" E quando, na continuação da conversa, lhe peço para hablar mais despacio, interroga-me sobre a minha compreensão do espanhol. "Com la graciosa irrespetuosidad que es característica del madrileño" (nas palavras de Ortega y Gasset) quer saber se percebi o que perguntara a um dos presentes: se deixara o namorado por ser importante ou por ser impotente.
No Búho Real, abençoado por uma colecção de mais de um milhar de mochos, continuam a servir-se as melhores caipirinhas de Madrid sob o lema sigue disfrutando de la noche. E foi o que fizemos... No táxi, ainda no mesmo quarteirão, avistamos um espaço sem história, o KWAI, que nos definem como o sítio de Madrid que vende as copas mais baratas. Garantem-nos que não têm efeitos secundários indesejáveis. Depois das discotecas (mais do que a música, o que surpreende é a beleza de locais como o Palacio Gaviria ou Joy Eslava no antigo Teatro Eslava, clássicos da noite madrilena), e dos clubes, que mudam de designação conforme o som, da responsabilidade de diferentes DJs, é forçosa uma ida à Chocolatería San Ginés, aberta desde 1894 e toda la noche, destino de peregrinação obrigatória na passagem de ano. O chocolate quente é óptimo e os churros acompanham.
O que mais pasma nesta villa é, não só a imensa diversidade de opções, mas a mistura de gentes e géneros que encontramos nos locais mais distintos. A ser verdade o que me dizia Antonio Ferres ― que em matéria de oferta "hay El Corte Inglés e hay los outros"―, somos obrigados a concluir, ao fim de pouco tempo, que os outros ainda parecem ser muitos.
No Mercado de Fuencarral e ruas adjacentes, sentimo-nos catapultados para o que uma «atmosfera londrina» tem de mais livre e criativo. Lojas de roupa alternativas, jovens descomplexados, pelo menos no que respeita à cor dos cabelos, ruas pejadas de gente nova das mais diversas origens, contrastam radicalmente com o «ambiente Champs Elysées» que se vive, por exemplo, no Bairro de Salamanca, a excelência em matéria de compras.
Tenho para mim, contudo, que a perspectiva de comer bem é ainda uma razão maior que traz muitos portugueses à capital espanhola.
A gastronomia do país vizinho tem vindo a marcar pontos e alguns dos seus chefes actuais ganharam fama internacional. Mas mesmo aos fãs mais convictos dos novos sabores se impõe uma passagem pelo centenário Lhardy.
Foi aí, por volta das 07h30m da tarde, que deparei com um grupo de madrilenas já na casa dos 60 e vestidas a rigor ― calculo que em trânsito para o teatro, porque, mesmo para o padrão local, o esmero era exagerado ― tomando chá em pé, encostadas ao belíssimo aparador do fundo. Estranhei a hora e o desconforto. E também a falta de acompanhamento. Onde estavam os scones?
O Lhardy é conhecido pelo seu cocido, especialidade madrilena superior, a fim do nosso quase homónimo cozido ― mas que não se deixe de provar também um cochinillo ou um cordero assados no forno de lenha do Botin, ao que parece o restaurante mais antigo do mundo, cuja origem remonta a começos do século XVII. Diz a tradição que Goya aí lavou pratos na cozinha e Hemingway, um cliente fiel, referiu-se-lhe no seu romance "Fiesta". E, já agora, confirme-se o humor madrileno na porta quase ao lado, no El Cuchi, restaurante-bar mexicano que anuncia que Hemingwai never ate here. Avisam-nos também que ali não se fala francês, inglês ou alemão, prometendo-nos, em contrapartida, não se rirem do nosso espanhol.
Voltemos ao Lhardy. De arquitectura e decoração românticas, abriu as portas em 1839 e o nome deve-o ao fundador, um suíço que se radicou em Madrid. Como um fama que vem de longe, já uma personagem de Pérez Galdós o descrevia como "el primero en las artes del comer fino". À entrada, uma panóplia de tapas e charcutaria vária recebe os comensais que podem, assim, ou tapear, ou levar para casa uma iguaria mais rara, ou aguardar mesa para o restaurante. Tinham-me falado também do hábito madrileno de vir aqui beber um caldo (de cocido, precisamente), a qualquer hora do dia. Quando interrogo uma empregada sobre o assunto, ela aponta-me simpaticamente um samovar. Abro a torneirinha e sirvo-me. Cumpro o ritual e esclareço o mistério do chá. Como já devem ter concluído, tratara-se de um equívoco. Afasto-me para deixar passar as damas de estômago proletariamente aconchegado pelo caldo caliente e, por momentos, regresso à descontraída Casa Ciriaco, outro dos lugares de referência da cidade (La más deliciosa y menos solemne de las doctrinas, es la gastronomía, diz a publicidade deste Restaurante-Taberna), pejado de imagens de famosos (comovente uma fotografia de Picasso cujo magnífico olhar se percebe rendido ao peso dos anos). Célebre pela sua garrafeira e por ser um dos lugares eleitos da família real, recordo o à-vontade, o tu cá, tu lá desafectado e simultaneamente admirativo com que nos guiam pela adega e falam do rei... e das suas amantes. Nem sei se os donos serão monárquicos. Porque nesta terra pátria do pícaro, tudo é possível. Luísa, por exemplo, uma espanhola apaixonada por Lisboa, resumira a questão à mesa de um almoço: "El rey está bien, pero yo soy republicana a cien por cento."
No As de Los Viños, em frente ao Teatro Albéniz, há outra tradição. A de vir aqui comer torrijas. Aparentadas com as nossas fatias douradas, As de Los Viños é o único estabelecimento em Madrid que as prepara, não com leite... mas com vinho. O oposto da sofisticação do Lhardi, trata-se de uma verdadeira taberna onde o menu completo fica por uma ninharia. Só faltou o café. As tabernas estão impedidas de o vender. No princípio do século existiam mais de 100, agora estão reduzidas a cerca de 50 mas é visível o esforço em renová-las.
Rosa Maria, uma madrilena bem-disposta que nos acompanhou no périplo pelas tabernas históricas, elege as mais reputadas. Casa Labra, onde foi fundado em 1879 o Partido Socialista Operário Espanhol; Taberna Café La Fontana de Ouro, hoje transformada em «bar irlandês», embora mantendo a arquitectura e os azulejos originais; Casa Alberto, no mesmo edifício onde se pensa ter vivido Cervantes... Já não estava connosco quando entrei na Taberna de Ángel Sierra e pude confirmar, mais de um ano após aí ter estado com amigos de boa memória num final de tarde chuvoso, que o vermú continua a ser servido do barril.
Um aparte, só para viciados em calçado. Junto a La Taberna de Ángel Sierra fica a calle Augusto Figueiroa onde, se conseguir encontrar outra coisa que não sejam sapatarias, juro por Santo Isidro, o padroeiro de Madrid, que andarei um ano descalça!
Por razões familiares, Rosa Maria agora sai menos à noite. Estamos sentados no Café Salón El Prado, um dos muitos cafés madrilenos que nos faz sonhar com Viena. Pergunto-lhe qual o segredo de tanta energia. A resposta não se fez esperar: "Hombre, pues no lo sé. Puede que sea la siesta!"

As grandes avenidas é que me matam. São 07h00 da noite e o fotógrafo teima num enquadramento em pleno caos da Plaza de Cibeles. Ossos do ofício.
Uma multidão ciclópica invade as ruas. Some-se em direcção às bocas do metro. Emudece atrás dos vidros dos autocarros. Dispara nos semáforos. Os carros arrancam ao que se me afigura uma velocidade excessiva, obedecendo à polícia que comanda as operações. Deixam no ar um lastro de fumo e o eco cefálgico do barulho dos motores. Um helicóptero soma ruído por cima das nossas cabeças. Para o "Blade Runner" só falta a chuva. A sensação é tão real que, quando o fotógrafo me toca no ombro e me diz "Vamos?", por momentos surpreendeu-me que o Henrique não seja o Harrison Ford.
Esta não é, definitivamente, uma cidade amável, como poderemos dizer de Roma, por exemplo. Não respira a teatralidade delicada de Paris. Ganhará a Londres em beleza mas não chega a ser tão cosmopolita. E contudo... Regresso a Antonio Ferres. Madrid é sobretudo um excesso. Aqui parecem fazer especial sentido os versos da canção de Joaquín Sabina, "las malas compañias son las mejores", o que, aliás, podemos interpretar como uma variante da ironia que se revela na frase de Montalbán: "Cada um de nós é má companhia para os outros."
O índice de ruído (um dos mais elevados da Europa) aconselha a pelo menos uma tarde no Parque del Buen Retiro para retemperar forças ― embora possa não parecer à primeira vista, Madrid é uma «cidade verde»: uma árvore por cada três habitantes. Ou a uma tranquila visita aos vários museus da cidade.
Para nós é já meia-noite e o espectáculo na Casa Patas está prestes a começar. Alguns (não muitos) turistas que aqui chegam guiados pela fama desta Fundación Conservatorio de Flamenco, contribuem para esgotar as entradas. Madrid é um dos melhores locais fora da Andaluzia para se assistir a uma exibição do género celebrado por Carlos Saura. O grupo de hoje chega de Cadiz. O público vibra com o dramatismo da voz. Aplaude a altivez dos gestos. A delicadeza das mãos. A beleza dos acordes. Depois da exibição abandona o local e dispersa-se pela espaçosa sala de entrada. Uns tapeiam na barra, outros ainda jantam nas mesas. Eu e o fotógrafo ficamo-nos pela conversa e pelas croquetas.
Foi então que pela primeira vez na vida, confesso-o publicamente, peço a um empregado de bar para não me encher mais o copo. É que pedi um whisky que me está a ser servido como se fosse água da torneira. Comento depois o sucedido com Luísa, a republicana, dizendo-lhe que em Portugal as doses não são bem aquelas. «Nem em Portugal nem em parte nenhuma do mundo», devolve-me.
E assim é Madrid. Onde a «vida é demasiado importante para ser levada a sério». Para lhe aguentar o ritmo, o segredo, segundo Rosa Maria, está na siesta. Ou na fiesta, digo eu. Como se preferir.
 
[...de outros]

30 de novembro de 2013

Breve interlúdio musical

Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«O desgosto é uma condição humana e não médica e, se há comprimidos para nos ajudar a esquecê-lo – e tudo o resto – não há comprimidos para o curar.»
(Julian Barnes)

Nem sempre a lápis (458)

Memória descritiva
Laranja
A estrada para o Caramulo acendia-se de laranjas.
A berma ladeava-se de cestas traiçoeiras, que desafiavam a atenção dos condutores e atiçavam discussões familiares.
A que lhes era alheio o sabor e o preço.
Pelo caminho ficavam as confidências das meninas.
Seios à dimensão de uma laranja, revelados em aulas improvisadas pela curiosidade.
Os gomos adocicavam-nos o tacto, sem que os dedos se quebrassem na expectativa.
Miller fez-me correr pomares à procura das laranjas de Hieronymus.
Mas tudo quanto vi foram as cascas deixadas por Al-Mu’tamid, junto ao sabor uniformizado pela Europa.
Uma vez, o vento atirou-me uma azahar para dentro do chá, em Tânger.
Finalmente, a flor da laranjeira sossegava-me a cabeça no regaço das estradas.

Papiro do dia (418)

«Depressa percebi que o desgosto seleciona e reorganiza os que estão à volta de quem sofre; que alguns passam e outros reprovam. Velhas amizades podem intensificar-se através da dor partilhada; ou revelar-se de repente superficiais. Os novos são melhores que os de meia-idade; as mulheres são melhores que os homens. Não devia ser surpresa, mas é. Afinal, esperávamos que os mais próximos em idade e sexo e estado civil percebessem melhor. Que ingenuidade. Lembro-me de uma “conversa, à mesa de jantar” de um restaurante, com três amigos casados que tinham aproximadamente a minha idade. Todos a conheciam há muitos anos – talvez oitenta ou noventa, no total – e todos teriam dito, se lhes perguntassem, que gostavam muito dela. Mencionei o seu nome; ninguém deu resposta. Voltei a fazê-lo e nada. À terceira, talvez eu estivesse deliberadamente a tentar provocar, irritado com o que me parecia não boas maneiras, mas cobardia. Receosos de tocar no nome dela, três vezes a negaram e, por isso fiquei com a pior ideia acerca deles. Há a questão da raiva. Alguns ficam zangados com a pessoa que morreu, que os abandonou, que os traiu ao perder a vida. Há coisa mais irracional do que isto? Poucos morrem por vontade, até a maior parte dos suicidas. Alguns dos que são atingidos pelo desgosto ficam zangados com Deus, mas, se Ele não existe, também isso é irracional. Há os que ficam zangados com o universo por deixar que as coisas aconteçam, que sejam inevitáveis e irreversíveis. Não senti propriamente isso, mas, durante aquele Outono de 2008, li os jornais e segui os acontecimentos na televisão com uma indiferença avassaladora. Por alguma razão dei muita importância a que Obama fosse eleito, mas muito pouca ao resto do mundo. Diziam que todo o sistema financeiro podia estar à beira de cair e se despenhar, mas isso não me incomodava. O dinheiro não podia salvá-la, então para que servia o dinheiro e para quê salvar-lhe a pele? Diziam que o clima mundial atingira um ponto sem retorn, mas podia atingir esse ponto e continuar, que para mim era igual. Eu voltava do hospital para casa, de carro; e num dado lugar da estrada, mesmo antes de uma ponte ferroviária, vieram-me à ideia estas palavras que repeti em voz alta: “É simplesmente o universo a fazer o seu trabalho.”»
[Julian Barnes, Os níveis da vida; trad. Helena Cardoso, Quetzal, Novembro 2013;
can you hear me now?]

 

29 de novembro de 2013

[pcebe?]

27 de novembro de 2013

25 de novembro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«O desgosto reconfigura o tempo, a sua extensão, a sua textura, a sua função: se um dia não significa mais do que o seguinte, então porque foram destacados e receberam nomes separados?»
(Julian Barnes)
 

Nem sempre a lápis (457)

Memória descritiva
Jogo
 
Aspirei atmosferas de fumo, ingeri consideráveis gramas de lisérgicos, e naufraguei em oceanos de álcool.
Durante anos, fiz questão de nunca comer em jejum.
E essa tão aplaudida atitude, fez-me perder o apetite.
Comecei a passar-me na tropa, celebrando a peluda e, imediatamente, o 25 de Abril, com LSD e tudo o mais prescrito pelas vanguardas escancaradas.
Onde insistia em incorporar-me.
Pouco depois, no imenso balcão da Rádio Comercial, aderi à tasca.
Acompanhando as suas vozes mais invejadas e carismáticas.
Tive mestres entre a fina-flor radialista, e os mais solicitados marginais deste beco intelectual.
Um dia, apercebi-me de que só bebia porque queria.
E apercebi-me também, que não queria deixar de querer.
Confrontado com este dilema, habituei-me ao show off do internamento, na expectativa das saídas para me empitrolar.
Andei nisto, meses.
Ao terceiro internamento, cansei-me do ritual e decidi nunca mais beber.
Como antes decidira não me janar mais.
Ou talvez o álcool transportado pela euforia da Comercial se tivesse sobreposto à actualidade da passa e dos ácidos.
Andei mais de um ano assustado com autênticos buracos negros na memória, enfeitados pela mania da perseguição.
Sobressaltava-me a ideia de ser acusado por ter feito qualquer coisa - péssima, claro - de que não tinha a menor ideia.
Com o tempo, esqueci-me.
Como me tenho esquecido de tantas outras coisas.
Só me recordo, quando algum drogado ou algum alcoólico, me chama careta.

Papiro do dia (417)

«Às vezes queremos continuar a amar a dor. E depois, para além disto, aparece outra questão bem delineada sobre a nuvem: o sucesso na dor, no luto, na mágoa é uma realização ou uma simples e dada condição que agora é nova? Porque aqui a noção de livre-arbítrio parece irrelevante; a atribuição de virtude e finalidade – a ideia de recompensa pelo luto – parece deslocada. Pode ser que desta vez a analogia com a doença seja válida. Estudos de doentes com cancro mostram que a atitude de espírito tem muito pouco efeito no resultado clínico. Podemos dizer que estamos a combater o cancro, mas é o cancro que simplesmente nos combate; podemos pensar que o derrotámos, e ele retirou-se para se reorganizar. É só o universo a fazer o seu trabalho e nós somos o trabalho de que ele é feito. E talvez seja igual com a dor. Imaginamos que lutámos contra ela, que fomos resolutos, que superámos a mágoa, raspámos a ferrugem da nossa alma, mas o que aconteceu foi que a dor se mudou para outro lado, ganhou novo interesse.»

[Julian Barnes, Os níveis da vida; trad. Helena Cardoso, Quetzal, Novembro 2013]

23 de novembro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia


Às vezes, lá calha...

«Os escritores acreditam nos padrões que as suas palavras formam, e esperam e confiam que elas produzam ideias, verdades, histórias. É sempre essa a sua salvação, com ou sem dor.»
(Julian Barnes)

Nem sempre a lápis (456)

Memória descritiva
Ilha
 
Alcancei-a do ar, ao fim de Maio.
Como um Ícaro fundido pelo lusco-fusco do verde, estatelava-me irremediavelmente no arquipélago.
Um pé numa rua de Coimbra, homónima, outro algures nos Açores.
Durante anos, a palavra ilha serviu-me de argumento para as mais desconcertantes desculpas.
A poesia ainda hoje é uma boa desculpa, e as minhas tentativas de aproximação à ilha, até se manifestavam nas opções do tabaco.
Essa pequena Ilíada.
Finalmente, eu tinha uma ilha sob os meus pés, e não sabia o que fazer com ela.
Nem vislumbrar-lhe os limites do mar, encandeado pelas decorações do Divino Espírito Santo.
Só no dia seguinte, quando a cabeça de uma vaca se intrometeu entre a janela aberta do quarto e o mar, eu percebi que estava entregue à sorte dos mistérios, no Atlântico.
Desci aos Fenais da Luz para apanhar a carreira, e não descortinei atlantes entre os rostos basálticos da taberna.
Em contrapartida, a carreira foi arrebanhando estudantes saídos das canadas, acompanhada sempre pelo voo rápido dos canários, que desviavam o curso à vista da cidade.
Permanecem iletrados, suponho.

Papiro do dia (416)

«Deus morreu e já não está lá a ver-nos. Por isso temos nós de nos ver. E Nadar deu-nos a distância, a altitude para o fazermos. Deu-nos a distância de Deus, a visão do olhar de Deus. E onde chegou (até agora) foi ao Nascer da Terra e àquelas fotografias tiradas da órbita lunar, nas quais o nosso planeta parece praticamente igual a outro planeta qualquer (exceto para um astrónomo): silencioso, rotativo, lindo, morto, irrelevante. Que pode ter sido como Deus nos viu e a razão pela qual se ausentou. É claro que não acredito no Deus Ausente, mas uma história assim é um belo paradigma.
Quando matámos (ou exilámos) Deus, matámo-nos também. Demos realmente por isso, na altura? Nem Deus, nem vida depois da morte, nem nós. Fizemos bem em matá-lo, é claro, ao nosso amigo imaginário de longa data. Também não íamos ter vida nenhuma depois da morte. Mas serrámos o ramo onde estávamos sentados. E a vista de lá, daquela altura – ainda que fosse uma vista ilusória – não era assim tão má.»
[Julian Barnes, Os níveis da vida; trad. Helena Cardoso, Quetzal, Novembro 2013]

22 de novembro de 2013

Dar a face...

«Tante Marie tinha uma relação problemática com os parisienses. Vivia numa pequena quinta em Cognac (sim, exactamente aí onde se destila a excelência francesa do mesmo nome), rodeada de galinhas, patos e coelhos, orgulhosa das suas couves e das suas cenouras. No quintal, lembro-me, havia uma árvore que dava dióspiros.
A partir de Novembro a lareira estava sempre acesa na sala de entrada da casa e Tante Marie aproveitava o lume para nos preparar deliciosas galletes à maneira bretã, exigindo-nos que as comêssemos, indiferente aos nossos protestos contra o presumível acréscimo de matéria adiposa que ela assegurava ser uma garantia contra a descida das temperaturas.
Em Cognac raramente nevava, mas, ainda assim, fazia muito frio. Condenadas ao Inverno, as nossas almas elevavam-se na melancolia dos entardeceres prematuros degustando patés, queijos e tartes e Bordeaux, tudo de primeiríssima qualidade.
Por vezes, quando se encontrava na horta debruçada sobre os vegetais, examinando-os com o rigor que se imagina Madame Curie poria nas suas anotações científicas, o barulho de um carro mais veloz interrompia a revista às cenouras e às couves e Tante Marie exclamava em tom reprovador: Ah! voilà les parisiens!
Até poderiam não o ser. Para aquela mulher pequena de aspecto frágil, capaz, todavia, de despachar numa só tarde dez ou mais coelhos de um golpe certeiro, parisien era tão-só sinónimo de urbano-ó-parvo. Sobre estes, tinha ideias tão definitivas como o gesto com que aviava os desafortunados albinos: pobres Bouvard e Pécuchet passeando-se pelos campos nomeando em voz alta os legumes: «Olha, cenouras! Ah, couves!», trocando sempre as referências.
Para Tante Marie, tratava-se da prova provada da idiotice urbana. Estivera em Paris apenas uma vez, logo após o seu casamento, já Hitler estiraçava os seus tentáculos pela Europa fora. Nessa altura, o mercado Les Halles não se convertera ainda no gigantesco centro comercial que o tempo haveria de provar ter sido une idée de merde, o pitoresco Marais não suspeitava sequer do seu futuro gay-chic nem a rive gauche da explosão do Maio de 68. La Defense, claro, não existia, e nem nos sonhos mais megalómanos de François Mitterand lhe passaria pela cabeça vir a ser o arquitecto de La Grande Arche, sem dúvida o melhor de La Defense, esquadria perfeita com o Arc-de-Triomphe que, esse sim, Tante Marie pôde visitar, garantindo no entanto a quem a quisesse ouvir que era bem mais bonito visto de longe.
Quanto à Torre Eiffel, apesar de se ter recusado a subir os 1 665 degraus que a teriam levado ao topo das suas 10 100 toneladas (contas feitas, 324 metros, incluída a antena), Tante Marie ainda agora recordava como se sentira esmagada pela vertigem daquele monstro de ferro.
De regresso a Cognac, comprada uma imagem da Notre Dame que os anos e o chauffage haveriam de amarelecer, pouco tempo depois os alemães fariam a sua entrada triunfal na Cidade das Luzes, para se retirarem cumprido o banho de sangue que não pouparia Tante Marie à morte de um sobrinho, alguns vizinhos e conhecidos. Nunca perdoou aos boches, a quem odiava ainda mais do que aos parisiens, e isso é já dizer tudo.
Mas nem os nazis ousaram reeditar a demência de Nero, o incendiador de Roma. Apesar da carnificina, Paris nunca chegou a arder.
Sabendo-se, pois, que Tante Marie nunca mais lá voltou, podemos – no momento em que me passeio, tantas décadas decorridas, pela gigantesca Feira da Ladra que são os Puces de Clignancourt em busca de um blusão de cabedal à Major Alvega – situá-la sem grande risco à la campagne, qual alquimista submersa em grandes panelas de ferro mexendo compotas que tardam a chegar ao ponto.
Estávamos no Outono e eu desesperava no meio de uma multidão mestiça por encontrar o «meu» blusão. O amigo que me acompanhava desesperava ainda mais do que eu.
Foi então que avistei uma tenda de chapéus. Milhares de chapéus. Chapéus de todas as formas e feitios, usáveis e menos usáveis, de colecção, de teatro, masculinos e ultrafemininos, de Verão e de Inverno, em bom ou mau estado... Enfim, uma tenda-paraíso para apreciadores dos ditos. É o meu caso. Eu adoro chapéus, ainda que reconheça que é difícil usá-los.
A mulher atrás do improvisado balcão aproximou-se de mim naquele jeito nonchalance que só as temíveis consièrges parisienses parecem não praticar. Explico-lhe que vim à procura de um blusão de cabedal e que não posso agora trocá-lo por um objecto tão inversamente delicado como um chapéu. A resposta saiu-lhe pronta: "Ah, mais justement, ça serait très féminin!"
A incoerência convence-me. Regresso de Clignancourt com um chapéu negro de amazona de véu comprido a flutuar ao vento que não fazia...
Nessa noite, ao entrar no Le Mazet, bar que então frequentávamos no Quartier Latin (mesmo ao lado do Le Procope, o café mais antigo de Paris, eleito de Rousseau e Voltaire, só para não ir mais longe), onde nos deliciávamos com balões aquecidos de Cognac que nos provocavam arroubos de nostalgia à lembrança de Tante Marie, o dono precipita-se do balcão e dirige-se-me de braços abertos: "Mademoiselle, vous êtes ravissante!"
Em que outra cidade do mundo nos acolheriam desta forma, só por trazermos na cabeça um despropositado chapéu visivelmente encombrant?
E outra pergunta. Poderá o Canal Saint-Martin, anacronismo perfeito de uma cidade frenética, precipitar uma declaração de amor?
Foi precisamente aí, numa das suas margens, que Flaubert marcou o encontro decisivo entre os dois manga-de-alpaca (Tiens: des carottes! Ah! Des choux!), aquele que os levaria depois à comunhão suspirosa de quão bem estariam no campo!
Quanto a nós, há já alguns parágrafos que abandonámos Tante Marie, rendidos à beleza desta cidade que guarda, para além dos imensos boulevards rasgados por Haussmann, recantos como este, onde o tempo se submete ao ritmo lentíssimo do escoar das águas pelas comportas abertas, fazendo-nos recuar a essa tarde novecentista em que Bouvard e Pécuchet iniciam o mais maravilhoso de todos os livros inacabados.
Paris. Decididamente burguesa. Ostentatória. Por vezes arrogante e demasiado formal. Cidade onde até o garçon de café se crê herói da Comuna, isto sem demérito para os garçons nem excessiva admiração por aquela, que, como se sabe, fez bastante mais vítimas para além de Antonieta, rainha que terá subido ao cadafalso na que hoje se chama Place de la Concorde sem perceber sequer o que lhe acontecia. Cidade onde já foi o tempo em que «as coisas não acontecem de todo se não acontecem em Paris». Mas caramba! Mesmo enterrada a boémia que caracterizou durante anos esta capital, quem não se comover com o we always have Paris! que mande este texto às urtigas.
Porque eu só queria contar isto: era uma tarde de Primavera num jardim de que esqueci o nome. Dois namorados aproximam-se e, o tempo de acender o meu Bastos legère sans filtre (um marca entretanto desaparecida), sentam-se no banco em frente ao meu. Lia um livro (não, não era Proust), e quando voltei a página já eles se confundiam, beijando-se, abraçando-se e escorregando gravitacionalmente para a posição horizontal, cegos aos olhares que, diga-se em abono da verdade do que agora escrevo, se mostravam bastante complacentes para com a efusividade primaveril do jovem casal.
Foi então que fez a sua aparição o clochard, encarnação perfeita de Michel Simon em Boudu Sauvé des Eaux.
Isto passa-se, portanto, no tempo em que ainda existiam Bastos legère sans filtre e vagabundos por conta própria. O homem dirige-se para os corpos confundidos. Toca nas costas do rapaz. Não há resposta. Toca de novo. Nada. Abana-o já com algum vigor quando um rosto ruborizado e de cabelos desgrenhados se destaca no meio da confusão de braços e pernas.
"Oui?" "Tens um cigarro?" O rapaz está de pé e revista os bolsos enquanto a namorada compõe a blusa. "Não tinhas deixado de fumar?", diz-lhe ela. "Ah! Mais oui, mais oui", responde-lhe ele às voltas com as mãos inúteis. O clochard encolhe os ombros e segue. Passa por mim. Eu estou ainda a fumar. "Tu as vu les amoureux?", confidencia-me en passant. Não repara sequer que lhe estendo o maço.
Paris, uma punhalada no coração, escreveu Jack Kerouac que era um viajante solitário e nunca conheceu Tante Marie.»

[... pelo book de outros]

20 de novembro de 2013

«Percebi que estava a viver um dos grandes momentos da vida, quando sentimos, sem patetismo ou sentimentalismo excessivo, a alma a encher-se da sensação maravilhosa do estado de graça.»
(Sándor Márai)

17 de novembro de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia


Às vezes, lá calha...


[lá "em sima" pode estar Pedro Tamen, mas cá em baixo ainda está o leitor]

Nem sempre a lápis (455)

Memória descritiva
Hotel
 
Estreei-me num pequeno hostal a caminho de Algeciras, até atingir os de Tânger, decorados com azulejos e o canto dos canários.
Durante anos, o jornalismo obrigou-me a um forçado upgrade do alojamento, e cheguei mesmo a dormir numa suite barroca, na Alemanha.
Ou num palácio das mil e uma noites, em Marrakech.
Não sei se me habituei mal ou bem, mas já não dispenso a comodidade de um hotel previamente marcado, no fim da viagem.
Com garagem.
Longe vai o tempo em que a mímica suplantava as minhas dificuldades linguísticas, e não me recordo de ter voltado a utilizá-la para perguntar ao estalajadeiro se o canito me defendia o carro.
Estava no Sul de Espanha, entre Tarifa e Cádiz, e toda a minha fortuna consistia num velho VW e uma mochila com roupa suja.
Os cadernos e as mortalhas tinham subido comigo para o quarto, onde uma cadeira de tabua fazia de cabide.
E uma bacia acompanhada de um jarro de esmalte e uma toalha, substituíam a casa de banho.
Dormi como um santo.
Se é que os santos dormem, e nos contam como.
Talvez me lembre desse sono, porque nunca me senti tão só, como quando tiveram a amabilidade de me servir uma refeição no quarto, em Dijon.

Papiro do dia (415)

«O mundo alargou-se; a terra já não é o centro. Ela rola no meio da multidão infinita dos seus semelhantes. Muitos ultrapassaram-na em tamanho, e este apoucamento do nosso globo dá de Deus um ideal mais sublime. Portanto, a Religião devia mudar. O Paraíso é algo de infantil, com os seus bem-aventurados sempre contemplando, sempre cantando, e que olham de cima para as torturas dos condenados. Quando se pensa que o Cristianismo tem por base uma maçã!»
 
[Gustave Flaubert, Bouvard e Pécuchet; trad. Pedro Tamen, Cotovia, Abril 1990]

15 de novembro de 2013

Breve interlúdio musical


Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Ele não teria dito que sentia curiosidade por nada daquilo, quando muito diria que estava apenas à espera da inevitável viragem por que aguardara, que o levasse de volta ao lugar donde saíra.»
(Alice Munro)

Nem sempre a lápis (454)

Memória descritiva
Guerra
 
Já não sonho com aviões ao fim da tarde.
Nem me assaltam visões do céu em chamas, à hora do almoço.
Deixei essas alucinações na parada de um quartel qualquer.
E quando as escrevi, a poesia poupou-me o trabalho de as relacionar com a eminência da mobilização, e a realidade da guerra.
A nossa guerra foi apenas uma guerrazinha de Portugal dos Pequenitos, como alguns pretendem.
Mortos e estropiados, em conformidade com o orgulho da Nação.
Demonstraram-me, por a mais b, a necessidade da guerra.
A urgência da guerra.
Chamavam-me a atenção para a Alemanha, ou até mesmo a Espanha, que evoluíram à custa da guerra.
Ao mesmo tempo gozavam com o Brasil, que não teve guerra, nem tem Inverno.
Nós éramos um caso à parte.
E à parte nos mantemos, assistindo à guerra em directo, na tranquilidade do lar.
Ou enviando cobertores rotos, que nos substituem a solidariedade enlatada das conservas que passámos a importar.

Papiro do dia (414)

«Tinha de o fazer sentir que ele tinha alterado a nossa relação. Fui despejar a água da pia, depois regressei, continuei a fazer outra coisa qualquer e não trocámos mais nenhuma palavra. Mais tarde fui acordar a minha mãe da sua sesta, preparei o jantar e chamei-o, mas ele não apareceu. Eu disse à minha mãe que ele devia ter ido dar uma volta. Era frequente ele fazer isso, quando ficava empancado e não conseguia escrever. Ajudei a minha mãe a cortar a comida, mas não conseguia parar de pensar em coisas nojentas. Sobretudo os ruídos que vinham às vezes do quarto dos meus pais e me faziam tapar as orelhas para não ouvir. E agora eu olhava com espanto para a minha mãe, ali sentada a jantar, e perguntava a mim mesma o que é que ela pensaria ou saberia disso.
Eu não sabia para onde é que ele teria ido. Fui deitar a minha mãe, embora isso fosse trabalho dele. Depois ouvi o comboio a aproximar-se e de repente todo o alarido e o chiar das rodas nos carris, que era o comboio a travar, e devo ter percebido tudo, embora não saiba exactamente quando é que soube.
Eu já te tinha contado que ele foi atropelado por um comboio.»
[Alice Munro, Amada vida; trad. José Miguel Silva, Relógio d’Água, Maio 2013]

13 de novembro de 2013

Breve interlúdio musical




Porque a Net fornece um novo dia

Às vezes, lá calha...

«Ela tem o hábito de visitar pequenos sítios só por diversão,
para ver se era capaz de lá morar.»
(Alice Munro)
 

Nem sempre a lápis (453)

Memória descritiva
Granito
 
São os guardiões das paisagens da minha infância.
O meu olhar aprendia a ver, e começava a circular por entre as sentinelas do horizonte.
Sem esforço, ou contrariedade.
Apesar da austeridade, o granito animava as casas, aconchegava os caminhos.
Apaziguava os mortos com a terra.
Quando chovia, exalava um perfume que me devolvia ao Verão, e às saudades da chuva pelas eiras polvilhadas de palha de centeio e bosta.
Impossível ignorar-lhe o calor da presença.
A homenagem apregoada pela estatuária.
Ou a majestade dos penedos.
Em miúdo, desafiei-lhes o equilíbrio.
Mas eles permanecem imutáveis como os nomes que lhes deram, e resistem à idade.
Cabeça da Velha, e outros espectros petrificados na minha infância.
São o melhor poleiro da minha imaginação, e conforto adiado para a velhice.
E quase descubro uma penugem, quando o meu corpo lhe reencontra a pele.

Papiro do dia (413)

«Voltou a lembrar-se do nome do médico, como tende a suceder quando deixa de ser preciso. As casas por que passa são, na sua maioria, do século XIX. Algumas de madeira, outras de tijolo. As de tijolo têm amiúde dois andares, as de madeira são algo mais modestas, de um só piso com aproveitamento de sótão e tectos inclinados nas divisões de cima. Algumas das portas de entrada abrem quase directamente para o passeio. Outras dão para alpendres, alguns dos quais envidraçados. Há um século, num fim de tarde como este, as pessoas estariam sentadas nos alpendres, ou talvez nos da entrada. Donas de casa que tinham acabado de lavar a louça e de dar uma última varridela do dia à cozinha, maridos que tinham acabado de enrolar a mangueira depois de regarem o relvado. Não havia, como hoje, mobiliário de jardim sem ocupantes, só para exibição. Havia apenas os degraus de madeira ou cadeiras trazidas da cozinha. Conversas sobre o tempo ou sobre um cavalo fugido ou sobre algum vinho que adoecera sem que houvesse expectativas de que recuperasse. Especulações a seu respeito, assim que ela deixasse de poder ouvi-los.
Mas não os teria ela tranquilizado ao parar e perguntar, Por favor, podem dizer-me onde fica a casa do médico?
Novo tema de conversa. Para que é que ela quer um médico?
(Isto depois de ela se ter afastado.)»
[Alice Munro, Amada vida; trad. José Miguel Silva, Relógio d’Água, Maio 2013]

11 de novembro de 2013

Breve interlúdio musical